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26/11/2010 - 11h17 - Atualizado em 19/05/2012 - 06h10

Margem da palavra

Por Gabriela Sá Pessoa, Editora do site

No conto “A Terceira Margem do Rio”, pequena obra-prima de “Primeiras Estórias”, Guimarães Rosa aborda temas fundamentais à existência humana

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Reprodução
Capa da 49ª edição, 2001

Vida e morte; loucura e sanidade. Atribuir significados aos dois extremos que circunscrevem A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa, talvez seja a primeira atitude tomada por quem navega pelo conto. Entretanto, analisar a conduta das personagens, de certa forma, é mais proveitoso do que meramente deliberar sobre quais seriam os limites do rio.

Sexto conto de Primeiras Estórias (1962), A Terceira Margem do Rio nos traz a história de um homem “cumpridor, ordeiro, positivo” até o dia em que mandou “fazer para si uma canoa” e partiu para “outra sina de existir”, remando solitário pelas águas de um rio próximo à sua casa. Já na primeira linha, a personagem é tratada como “nosso pai”, informação que revela ser o narrador um de seus filhos.

Apesar de a “outra sina de existir” do progenitor ser o tema central da história, ele não é o protagonista do conto, mas sim o filho. Este é o herói derrotado pela covardia e, por isso, retoma o acontecido a fim de ser absolvido por ter fugido de seu destino: substituir o pai na canoa.

A memória do filho é, portanto, o principal fio condutor da narrativa. Ela recupera o assombro dos demais familiares e amigos diante da atitude do pai. Ademais, expressa a angústia vivida, naquele tempo, por conta da ausência incompleta do progenitor, que “não voltou”, mas também não “tinha ido a nenhuma parte”. O homem “só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio”, sem nunca mais ter colocado os pés em terra firme – daí a denominação “terceira margem”. 
 
Essa dicotomia é traduzida quando o narrador afirma ter o pai se desertado para uma existência “perto e longe de sua família dele”. Os pronomes “sua” e “dele” reforçam a relação de proximidade e distância entre eles. Em construções assim, nas quais a lapidação linguística expressa o sentimento das personagens, reside a verdadeira beleza não só de A Terceira Margem do Rio, mas de toda a obra de Guimarães Rosa.

A genialidade no trato da palavra, para o autor, parece ser brincadeira de criança. Prova disso é a frase mais célebre do conto: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Proferida pela mãe do narrador, no momento em que o pai estava partindo para o rio, a fala ilustra o progressivo distanciamento do progenitor ao adicionar as letras “o” e “v” a “cê”, forma coloquial de “você”.

Outro aspecto importante do conto – e, também, de toda a escrita do autor - é a transcendência. Superar os limites da realidade material, em Guimarães, é uma via para que o indivíduo descubra o cerne de sua existência, salvando, assim, sua alma. A viagem empreendida pelo pai em uma simples canoa, consumindo apenas o mínimo de alimento necessário à sobrevivência, ilustra esse processo. Tanto que, depois de certo tempo navegando pela solidão, o homem perdeu os traços humanos, ficando, conforme descreve o filho, “com o aspecto de bicho”.

A Terceira Margem do Rio, apesar do tamanho reduzido - em algumas edições, ocupa sete páginas de Primeiras Estórias -, contém um oceano temático que nos permite sentir, verbalmente, questões fundamentais da existência, desde o destino, passando pela relação entre pai e filho, até a transcendência. O conto é uma porta de entrada do universo criado pelas fantásticas palavras de Guimarães Rosa, as quais já haviam encontrado seu auge em Grande Sertão: Veredas (1956), obra-prima máxima do escritor.



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