Em novembro, a escritora Rachel de Queiroz (1910-2003) completaria 100 anos

"[...] tento, com a maior insistência, embora com tão
precário resultado (como se tornou evidente), incorporar
a linguagem que falo e escuto no meu ambiente nativo à
língua com que ganho a vida nas folhas impressas. Não
que o faça por novidade, apenas por necessidade.
Meu parente José de Alencar quase um século atrás vivia
brigando por isso e fez escola." (Rachel de Queiroz)
17 de novembro de 1910. Nascia na cidade de Fortaleza, capital do Ceará, Rachel de Queiroz - uma jóia da cultura brasileira. No mês do centenário de seu nascimento, a jornalista, cronista, tradutora, dramaturga e, acima de tudo, romancista é exibida com vaidade por nossa cultura tal qual um colar de diamantes no colo de uma bela moça. Não é para menos, afinal, sua obra de nove romances, dentre outros legados, justifica toda e qualquer homenagem.
Rachel já havia alcançado a excelência artística aos 20 anos, em 1930, quando seu primeiro romance, O Quinze, foi publicado. O livro trata da histórica seca que assolou o nordeste em 1915, a qual obrigou Rachel e sua família a fugirem para o Rio de Janeiro. A dura experiência virou um romance de marcante profundidade psicológica e sensível às questões sociais do País. Como o desabrochar de uma bela flor na terra seca do sertão, O Quinze encabeçou os denominados “romances de 30”, período da literatura nacional marcado, fortemente, pela denúncia social (em especial, pela miséria nordestina). Vidas Secas, de Graciliano Ramos, é outra importante publicação da época.
A partir de então, Rachel de Queiroz foi se tornando o ícone de uma geração, ou melhor, de muitas gerações. Tal fenômeno poderia ser explicado pela genética, já que o canônico José de Alencar era primo de seu bisavô. Porém, ela mesma nunca se considerou uma excelente escritora e até mesmo declarou, certa vez, que nunca ficava satisfeita com seus textos. Modéstia é, de fato, uma das características de um gênio. Rachel, em todo caso, preferia dizer que era jornalista e, como cronista de jornais (dentre eles, O Estado de S. Paulo), não só caiu no gosto popular, mas também foi uma pioneira. Em 1977, ela se tornou a primeira mulher a integrar a Academia Brasileira de Letras.
Aclamada entre os literatos, sua obra ainda hoje nos auxilia a conhecer e compreender as dificuldades deste Brasil. “Ela inaugura um gênero que era dominado por vozes masculinas. Este pioneirismo dela também se prende ao papel da mulher”, comentou a Maria Ivonete Ramadan, professora de Língua Portuguesa e Literatura da Faculdade Cásper Líbero. “Rachel de Queiroz merece todas as homenagens por ser a primeira mulher na Academia Brasileira de Letras e por inaugurar um novo regionalismo no Brasil”, finaliza.
Para comemorar o aniversário, O Senado relembrou a trajetória da cearense, além de ter elogiado sua contribuição à construção da literatura brasileira. O senador Inácio Arruda (PCdoB-CE), autor do requerimento que solicitava a homenagem, foi o primeiro a discursar, seguido pelo presidente da Casa, José Sarney (PMDB-MA), e pelos senadores Marco Maciel (DEM-PE), Marisa Serrano (PSDB-MS), Roberto Cavalcanti (PRB-PB) e Eduardo Suplicy (PT-SP).
Na mesma data, a TV Ceará estreou 1915 – O Ano que a Terra Queimou, minissérie baseada em O Quinze, como parte das homenagens à escritora. A adaptação televisiva da obra terá 20 capítulos de, aproximadamente, cinco minutos cada. Os episódios, que serão exibidos em cinco horários alternativos, são animações gráficas tridimensionais dubladas por Tom Cavalcante e Luiza Tomé, além de contarem com trilha sonora feita pelo cantor Fagner.
O fato mais esperado, no entanto, foi o lançamento de Mandacaru. O livro póstumo reúne 10 poemas escritos em 1928, quando Rachel de Queiroz tinha apenas 18 anos. Os escritos reunidos são de temáticas nordestinas e marcam os primeiros passos do estilo literário da cearense. Apesar de Rachel ter preferido guardar esses poemas, eles vieram à tona em 1982 por meio do Instituto Moreira Salles, responsável pela organização da obra.
A escritora já começou brilhante, ousada e surpreendente. Agora, sete anos depois de sua morte, em novembro de 2003, um misto de saudade e orgulho toma o País. A joia, que já nasceu brilhante, parece reluzir mais a cada ano. Eterna seja a poesia de Rachel de Queiroz, “onde se conta uma história, /onde se vive um delírio;/ onde a condição humana exacerba,/ até à fronteira da loucura”.
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