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17/11/2010 - 15h17 - Atualizado em 22/05/2012 - 09h26

Autores dos sites Charges.com.br e Kibe Loco falam sobre o humor no Brasil

Lidia Zuin, monitora do site de jornalismo

Tabet e Ricardo discutem sobre os limites e a função acessória de suas piadas para o jornalismo e à reflexão

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Ricardo Matsukawa/Terra
Mauricio Ricardo, Benjamin Back e Antonio Pedro Tabet

O último dia do 4º Seminário Internacional de Jornalismo Online, MediaOn 2010, foi aberto com o painel “O humor e o jornalismo digital”, trazendo como debatedores Mauricio Ricardo, do Charges.com.br, e Antonio Pedro Tabet, do blog Kibe Loco. Com mediação de Benjamin Back, apresentador do Estádio 97 e blogueiro do Lance!, a mesa discutiu sobre o papel fundamental do humor para engajar o público na web, além das técnicas utilizadas por humoristas para deixar os conteúdos mais palatáveis.

Ricardo contou sobre sua experiência como chargista, que veio da mídia impressa. “Percebi que para fazer charge na internet, não precisava simplesmente passar o papel no scanner e colocar em jpeg. Eu poderia usar a linguagem multimídia e trazer isso para a rede”, afirma. O chargista diz que conforme a banda da internet foi ficando mais larga, o tamanho dos arquivos deixou de ser uma preocupação. Dessa forma, não era mais necessário se limitar ao formato charge, mas partir para o quadro de humor.

Com essas mudanças de visual e formato, Ricardo começou a ser cobrado de que seu trabalho não era charge, mas desenho animado. “Eu acho que não, porque a minha charge depende da notícia, do cotidiano. Por isso que é charge e não cartoon”, explica. E com a internet, o chargista indica que também passou a atingir um público jovem que não possuía como hábito a leitura do jornal impresso. Mais tarde, com a popularidade do site, seu trabalho passou a ser divulgado na televisão, por exemplo, no reality show Big Brother Brasil, da TV Globo.

Já Tabet, começando sua fala da mesma forma que Ricardo, lembrou de sua formação como publicitário. “Eu brinco que publicidade é o caminho para a frustração e o jornalista vai caminhando para isso também”, diz. Na época em que trabalhava nessa área, no Rio de Janeiro, ele era funcionário de um banco de investimento. “A idéia era trazer pessoas jovens para renovar a linguagem do banco, mas isso só me frustrou. Então foi aí que fiz o Kibe Loco, no mesmo período do mensalão. Larguei tudo e fui para o nordeste”, lembra. Apesar de ter chegado a receber convites para se candidatar a deputado, Tabet decidiu trabalhar na rede Globo, onde está há cinco anos colaborando com o programa Caldeirão do Huck.

O publicitário percebeu que suas piadas davam certo porque, ainda trabalhando no banco, ele mandava links para os colegas de trabalho. “Até que um dia pediram para eu parar e fazer um site. Como eu não tinha muita noção de HTML, preferi fazer no formato blog”, explica. Na verdade, Tabet já possuía, no jornal da faculdade, uma coluna chamada Kibe Loco, que havia recebido esse nome por causa de sua ascendência árabe e pelo “portunhol” utilizado nos textos.

Tabet, então, lembra do primeiro boom do site, que foi quando ele fez uma montagem com a cantora Pret Gil. “Costumo dizer que existe um quarteto fantástico do humor, que é o Michael Jackson, Rubinho, Lula e Preta Gil. É tipo travesti com Ronaldo, sempre encaixa”, brinca. Por causa da agressividade de suas piadas, Tabet conta que sempre é questionado sobre eventuais processos que poderia ter levado, mas ele afirma que só recebeu notificações extra-oficiais até então. Quando recebe esse tipo de aviso, Tabet indica que tem dez horas para tirar o conteúdo do ar. “Eu tiro, mas publico a notificação. Acontece que muitas vezes acabam preferindo deixar o post lá, porque senão fica pior para a imagem de quem reclamou.” Para ele, essas notificações saem apenas do departamento jurídico, porque se tivesse passado pelo marketing ou comunicação, provavelmente iriam aconselhar o contrário.

Conhecido pelo seu humor ácido, Tabet lembra do estereótipo do brasileiro, muitas vezes retratado como um povo feliz. “A gente, na verdade, é muito mal humorado. O que acontece é que vivemos dessa história de politicamente correto, que é o que eu prefiro chamar de politicamente babaca”, opina. Nessas eleições, ele conta que recebeu críticas sobre estar atacando mais a candidata Dilma que o Serra. “Era muito mais fácil ‘bater’ na Dilma. A graça do Serra é ser sem graça”, conta, lembrando de quando fez uma montagem em que a atual vereadora de Maceió, Heloisa Helena, havia se tornado capa da revista Playboy. “Eu fui acusado de ter sido pago pelo PT para zoar com ela. Na época, o senador Arthur Virgilio viu a imagem, imprimiu várias cópias e espalhou para os colegas. Foi tipo um bullying no Senado”, brinca.

Assim, Back passou a fazer as perguntas enviadas pela internet e também pela platéia. Questionados sobre uma possível concorrência entre a política e o humor, tendo em vista a candidatura e eleição do humorista Tiririca, Ricardo mostrou discordância: “Quanto mais escrotos eles são, mais nos dão inspiração.” Já Tabet, resolveu retomar o slogan do Kibe Cru: a verdade é ácida e o kibe é cru. “Nada é mais engraçado que a verdade. No politicamente correto, você fala a verdade e todo mundo dá risada, porque constrange”, afirma.

A respeito do limite entre o público e o autor, sobre eventuais constrangimentos que a piada pode causar, Ricardo entende o fato como uma questão de estilo de humor. “O erro é levar muito a sério. Nos Estados Unidos, eles não fazem nada, é só observar o Saturday Night Live. Eles têm liberdade de expressão.”  Já Tabet indica que não se preocupa muito com isso, que só se sentiu impelido a tirar uma piada do ar porque ela havia perdido sentido, que foi o caso de quando o Papa João Paulo II faleceu.

Quanto às temáticas sensíveis, como racismo e homossexualidade, Tabet indica que não gosta de trabalhar com o primeiro. “Apesar de ter assistido aos Trapalhões dos anos 70, quando era muito engraçado ver como o Mussum lidava com o racismo, hoje é tudo muito nebuloso.” Já Ricardo acredita existir muito exagero: “Querem banir até a palavra denegrir.” Ele afirma que chega a não caracterizar alguns personagens como negros, assim como não faz nenhum tipo de humor envolvendo gay. “Minha visão é que tem que haver um limite do que você quer fazer para a sociedade naquele momento. Eu acho que a humanidade já está cruel demais. No Twitter, as pessoas estão agressivas escondidas atrás do anonimato”, assume Ricardo, que complementa dizendo não achar graça em ser homossexual.

O chargista cita o companheiro de trabalho, Laerte, que recentemente passou a se vestir de mulher. “E daí? Ele não acha mais engraçado o trejeito, pôr o cara de cor de rosa, e é por isso que eu não consigo fazer piada”, diz Ricardo. “Eu não quero passar lição de moral. Viva a liberdade de dizer o que quiser, mas cada um tem seu limite e suas escolhas.” Segundo ele, o racismo só vai deixar de o ser quando parar de haver discussão sobre o assunto. “O que o Tabet chama de politicamente babaca, para ele tem um limite e para mim tem outro. Não é nenhum tipo de medo ou cobrança. Hoje o humor está se infantilizando, até por conta da inclusão digital. Com a péssima educação no Brasil, você não pode fazer algo profundo”, conclui Ricardo.



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