Pablo Mancini, do Grupo Clarín, e Alberto Cairo, da Revista Época, dão suas impressões sobre os desafios da nova plataforma digital
A quarta edição do Seminário Internacional de Jornalismo Online, MediaOn, aconteceu de 9 a 11 de novembro no Itaú Cultural e foi patrocinado pelo Terra, CNN e BBC. A primeira data foi reservada apenas a convidados, os quais assistiram às palestras de Susan Grant, vice-presidente executiva da CNN News Services, e Aron Pilhofer, editor de interactive news do New York Times. Mediada por Jaime Spitzcovsky, curador do MediaOn, a mesa também foi transmitida ao vivo no site do MediaOn.
Já no dia 10, as palestras estiveram abertas aos inscritos, à imprensa e a demais pessoas que, eventualmente, conseguissem as poltronas remanescentes. A quarta-feira começou com uma discussão sobre computadores tablet, e-readers e smartphones ou sobre como inovar e produzir conteúdo no mundo digital. Debateram Pablo Mancini, gerente de serviços digitais do Grupo Clarín, e Alberto Cairo, diretor de infografia e multimídia da Revista Época. Com mediação do jornalista Andre Deak, a mesa durou das 9h30 às 11h.
A primeira exposição foi feita por Cairo, que preferiu dizer que mais queria fazer perguntas a afirmações. “Qual é a aplicação dos tablets? Jornalistas não gostam de fazer pesquisa, saber o que o leitor usa nos aplicativos”, iniciou. Para ele, os profissionais agem na base da intuição, alimentando a sensação que o palestrante denominou como “information anxiety”, título do livro de Richard Saul Wurman. “O mais importante para a pessoa aprender é que é preciso entender a ignorância, porque ninguém sabe como o leitor age.”
Assim, ele partiu para um novo questionamento, sobre se a mídia estaria otimista demais diante dos tablets. “Quem está comprando os produtos? Quando a Wired lançou seu aplicativo para iPad, ela vendeu mais que a revista impressa. Isso no primeiro mês, porque depois a compra do aplicativo caiu para 30%”, ilustrou. Para ele, mesmo que o número de tablets no mundo se multiplicasse por dez, não significaria que as vendas iriam aumentar proporcionalmente.
Sobre como atingir o público, Cairo reforçou a praticidade. “Não podemos pensar só no geek ou no nerd, mas também nos outros que talvez nem saibam achar o produto. Na banca, você pode encontrar novas publicações, mas e no tablet?” Então, se achar o aplicativo se tornasse mais fácil, através da Apple Store ou Google, por exemplo, ele teria ainda que convencer o leitor de que o conteúdo é bom, que vale a pena pagar por ele (de modo que o processo de compra seja simples) e com um preço justo. “No caso do livro para iPad, as obras chegam a custar 30% do valor do impresso e isso é decisivo. Além de que comprar na Amazon é fácil demais”, conclui.
Por fim, Cairo questionou a importância e o significado da experiência de leitura num tablet. “Ainda existe um fetichismo com a plataforma impressa, pelo cheiro, pela textura. E na mídia digital? Será que quem compra a versão impressa quer a mesma experiência no digital?” O diretor de infografia então selecionou alguns exemplos como o USA Today e New York Times para ilustrar tentativas de inovação que iam desde a reprodução do papel até o texto dinâmico ou o híbrido de ambos, que é o que a Época vem fazendo.
Já Mancini, do Grupo Clarín, resolveu pensar a ressonância da tecnologia que, com o tempo, acaba mudando o papel das pessoas. “Com a crise social, as pessoas acabam tendo menos tempo disponível para se tornar audiência. No aspecto financeiro, há um novo paradigma sobre o que se entende por valor agregado. Se antes tínhamos veículos específicos para acompanhar durante o dia – manhã, tarde e noite – hoje temos a conectividade contínua”, disse.
O jornalista, que construiu seus slides com imagens da animação Simpsons, diz que há 200 anos dava para saber como se consumia informação, enquanto atualmente isso é uma dúvida. “Como estão dando importância à permanência em um site, se temos o tempo escasso e fragmentado? Estaríamos produzindo conteúdo para uma audiência que não está presente? Será que as informações disponíveis são compatíveis com a minha forma de consumo? Parece que isso as redes sociais é que estão entendendo”, afirmou, pouco depois complementando que já há tentativas de adaptação. “O suporte não é o único problema, mas corremos o risco de ter um cemitério de iPads e tablets em geral.”
Outro entrave levantado por Mancini é o fato de as pessoas possuírem um tempo morto, onde supostamente não estariam consumindo nenhuma informação. “Se você demora uma hora para ir e outra para voltar do trabalho, em um ano isso significa 63 dias de trabalho ou 12 semanas. Não estamos produzindo conteúdo para atender essa demanda que quer achar uma forma de melhor passar esse tempo”, conta. Assim, ele fala do conceito de “informação em cápsulas”, questionando se qualidade necessariamente significa profundidade. “O interessante de se trabalhar nessa época é que ela nos permite configurar certas características. Mas temos que ser agnósticos ao suporte: as formas se mudam.”
Mancini concluiu sua apresentação com alguns tópicos que devem ser repensados pelos jornalistas: notícia não é somente serviço, o entendimento dos novos hábitos, a busca pela hiper conectividade, entender que a audiência é parte da produção de conteúdo e que a publicidade deve deixar de ser interrupção para se tornar interação e experiência.
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