As paisagens irlandesas são ideais para a propagação dos mitos ali existentes. É o caso das selkies, espécie de focas que podem se transformar em humanas - criaturas mitológicas do folclore partilhado pela Irlanda, Islândia e Escócia. Tais seres fantásticos serviram de inspiração para Ondine, novo longa do diretor Neil Jordan, conhecido pelo filme Entrevista com o Vampiro. A escolha do local das filmagens não poderia ser melhor. Christopher Doyle - responsável pela fotografia do filme Paris, Te Amo - teve o cuidado de selecionar os espaços perfeitos para este “conto de fadas moderno” na península Beara, na Irlanda.
Syracuse - personagem que marca a volta de Colin Farrell com bom desempenho nos cinemas - trabalha como pescador, sem muito sucesso, até o dia em que ‘pesca’ uma jovem chamada Ondine - interpretada pela atriz e cantora polonesa Alicja Bachleda. Ao encontrar a filha, Annie, vivida por Alison Barry, transforma o acontecimento em uma história. A garota, embora debilitada por um problema nos rins e presa em uma cadeira de rodas, tem a curiosidade aguçada; o que a leva à casa da falecida avó, onde encontra a moça do conto de fadas contado pelo pai. A inocência infantil, intensificada pelas leituras sobre criaturas mitológicas, leva Annie a aceitar Ondine como uma verdadeira selkie, convencendo o pai do mesmo.
O diretor mistura fantasia e realidade fazendo o espectador questionar-se sobre a veracidade dos fatos. Apesar das descobertas com a nova figura presente na vida de ambos, as personagens vivem realidades conflitantes. Syracuse recorre ao padre para se confessar, e a cada ida à igreja, enfatiza o fato de não beber há dois anos. Argumento insuficiente para ter a guarda da filha, que vive com a mãe, alcoólatra, e o padrasto pouco delicado. A suposta selkie tem sua fantasia abalada pelo receio de ter contato com outras pessoas - e também pela presença de um homem misterioso na cidade.
A premissa remete a um filme típico de “sessão da tarde”, mas diferencia-se por acrescentar o drama a todo momento, delineando a pouca probabilidade de um final feliz. É como se o diretor optasse pela fantasia para amenizar a triste faceta da realidade, unindo um mero mito com as crenças da comunidade local.
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