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04/11/2010 - 16h40 - Atualizado em 22/05/2012 - 03h11

Realidade feita de absurdo

Por Luma Pereira, aluna do 3º ano de Jornalismo

A existência retratada por Albert Camus

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Reprodução
Capa da 16ª edição do livro lançada, em
1997, pela Editora Record

O Estrangeiro, romance mais conhecido do escritor argelino Albert Camus, foi publicado em 1942. O tema abordado é a filosofia do absurdo, segundo a qual as circunstâncias da vida e  sociedade não podem ser explicadas por nós e, portanto, não possuem sentido. Nós é que criamos significados para a existência e fatos pelos quais passamos, como alegrias ou tristezas.

Camus conta a história de Meursault, narrador-personagem inserido no cotidiano, sem ser emocionalmente afetado por nenhum acontecimento. O autor apresenta o protagonista como alguém que não consegue ver razão e emoção em existir, vivendo a partir da perspectiva da filosofia do absurdo.

No início da obra, quando a personagem comparece ao enterro da mãe, não demonstra tristeza, permanece inalterado sentimentalmente. Quando Maria Cardona, sua namorada, pergunta se ele gosta dela, Meursault responde que não, pois isso não faz diferença. Ele expressa indiferença em relação à vida e, assim, não sofre nem sente prazer.

Na segunda parte do livro, o protagonista é julgado por assassinar, sem motivo algum, um árabe. O cenário agora é a prisão, na qual também não se abala, apenas sente tédio. Mas é no julgamento de Meursault que Camus explicita enfaticamente a inutilidade da vida, na visão do protagonista. Ao ouvir o advogado, ele permanece inalterado, chega até mesmo a prestar mais atenção nos sons da rua; tudo o que quer é voltar para a cela e descansar, pois para ele nada importa. Isso mostra que criamos sentidos postiços para a vida, o que nos faz suportar o absurdo; tudo para não nos tornarmos estrangeiros sem terra aonde ir nem para onde voltar.

Meursault é um estrangeiro no sentido denotativo e conotativo. É um francês radicado na Argélia e, além disso, um forasteiro em relação à vida. Coloca-se fora da realidade humana, já que não faz questão de estar incluído na mesma. Não encontra consolo na religião, explicação na ciência, nem escape na arte. O protagonista é coadjuvante da própria vida, ou nem mesmo isso.  Por ser assim, é completamente livre, sem vínculos emocionais ou deveres sociais, fazendo o que tem vontade. Mas o que fazer com essa liberdade que o coloca à parte das próprias emoções, que acaba se tornando seu cárcere?

A sociedade em que vivemos muitas vezes nos leva a ser estrangeiros também, assim como a personagem do escritor argelino. E então, não produzindo mais o significado da vida, os acontecimentos passam a não nos afetar com intensidade, aplicando a indiferença em nossa conduta. As emoções se tornam “fabricadas” e artificiais, ou excessivas e demasiadas, nos levando a refletir que o  homem contemporâneo está à beira de ser como Meursault, não falta muito para que se torne automático e inabalável diante dos fatos, fechado no seu mundo de pressa.

Albert Camus foi influenciado por filósofos existencialistas como Jean-Paul Sartre e Martin Heidegger para escrever O Estrangeiro. O livro foi traduzido para quarenta línguas e adaptado ao cinema pelo diretor italiano Luchino Visconti, em 1967. Em 2010, o romance ganhou os palcos, e está em cartaz no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Com direção de Vera Holtz e Guilherme Leme, o espetáculo vai até dia 21 de novembro, sextas e sábados, às 21h, e domingos, às 19h.



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