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22/10/2010 - 17h11 - Atualizado em 20/05/2012 - 00h45

Francesco Zizola ministra workshop de fotografia

Lidia Zuin, 3º ano de jornalismo

O fotógrafo italiano, conhecido por suas imagens feitas em situações de conflito armado, contou sobre suas experiências aos alunos no primeiro evento do Fórum de Jornalismo 2010

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Guilherme Corbo
Para Zizola, "os jornais não gostam de matérias
incômodas, mas elas são necessárias"

O Fórum de Jornalismo 2010 contou com a presença de Francesco Zizola, fotógrafo italiano convidado pela professora de fotojornalismo Simonetta Persichetti a ministrar um workshop de fotografia. Às 8h30, estavam ambos reunidos na sala Aloysio Biondi junto de Carlos Costa, coordenador do curso de Jornalismo, que abriu a mesa cumprimentando os convidados e participantes do evento. Seu lugar foi, mais tarde, ocupado por Ari Vicentini, professor de fotojornalismo.

Junto de mais outros nove fotógrafos, Zizola faz parte do NOOR, grupo sediado em Amsterdã, na Holanda, que tem como foco o questionamento da condição humana. “Nós fazemos um convite a prestar atenção no mundo que estamos construindo. E digo isso de modo negativo”, disse Zizola. O fotojornalista, que também é formado em antropologia, já cobriu guerras como a da Iugoslávia, Golfo, Iraque e Afeganistão. Sobre isso, Simonetta retoma uma pergunta feita pelo próprio italiano: vale a pena continuar indo a esses lugares?

Zizola assume não saber a resposta para tal questão, mas o que lhe traz desconforto quanto à profissão é que muitas pessoas se mantêm indiferentes às cenas registradas em suas fotos. “Isso acontece, sobretudo, nos países ocidentais, os ditos países ricos. As pessoas estão sempre afastadas umas das outras, ilhadas, sendo que não existe sociedade em que se possa viver sozinho. Ser egoísta é muito perigoso”, complementa.

Assim, o fotojornalista indica que sua profissão representa o mote da comunicação, que é o de ligar pessoas. “Os fotógrafos são olhos emprestados, são testemunhas. Eu oferto olhares aos cidadãos, despertando interesse por uma temática tão longe”, comenta. E, apesar de ter declarado seu pessimismo quanto aos efeitos das fotografias, Zizola relembra uma vez em que estava no sul da Itália, numa farmácia. “Quando dei o cartão de crédito para fazer o pagamento, a farmacêutica viu meu nome e chamou o marido para me contar que eles adotaram uma criança após terem visto uma reportagem minha.”

A escolha

Questionado por Simonetta sobre ter preferido fotografar situações de conflito, Zizola explica que nem sempre foi por escolha própria, mas por pedido. No começo, foi ele quem decidiu tirar fotos como as que fez do Muro de Berlim, em 1989, e em Moscou. Somente depois o fotógrafo resolveu casar as imagens de guerra com um projeto que não era propriamente relacionado a isso. Há anos, Zizola trabalha com a temática da infância. “É interessante observar as crianças, porque elas não podem ser protagonistas num mundo dirigido por adultos. Contar sobre o mundo a partir de histórias de crianças é contar o mundo de amanhã, do futuro próximo. Unir a foto à crônica de um fato real levanta diferentes níveis simbólicos”, diz.

Na verdade, o foco na temática nasceu quando ele estava na capital russa, fazendo um trabalho para a revista italiana Panorama. O veículo havia pedido a Zizola que fotografasse um local em que se realizavam casamentos civis, o qual era justamente próximo a uma região de conflito. “Foi ali que conheci um garoto. Eu estava com um intérprete, que me ajudou a conhecer a história da criança. Isso me fez pensar na relação entre a realidade e o jornalismo, num jeito melhor de se contar uma grande mudança na história”, lembra o fotógrafo, explicando que a revista havia pedido outro parecer daquela região, o qual fugisse da guerra e focasse no cotidiano das pessoas.

O papel jornalístico

Entre a ética e o jornalismo, Zizola afirmou: “Os jornais não gostam de matérias incômodas, mas elas são necessárias.” Para o fotógrafo, o jornalista possui um papel na sociedade, que é o de fazer algo conhecido às pessoas para que elas possam manejá-lo. “Existem pontos críticos. Se ocultados, eles põe a sociedade em risco. Mesmo nos países ricos, por exemplo, há regiões pobres e isso não pode ser escondido”, explica.

Mas até onde é correto o jornalista ir? A ética, para os cidadãos comuns, são as regras que permitem o bom convívio, enquanto, no fotojornalismo, trata-se do comportamento que permite aos leitores de acreditar na foto como linguagem capaz de comunicar feitos. “O bom jornalismo tenta dar conta dos fatos e não construir realidades, como fazem escritores e atores”, comenta Zizola. Segundo ele, os fotógrafos trabalham com o registro de realidades visuais, as que são visíveis pela luz. “Nós mexemos com o concreto, com a luz. O texto jornalístico é mais um trabalho da mente”, opina.

A função do fotojornalismo, então, seria a de quebrar preconceitos, mostrar uma realidade maior. “Isso inclui pedir para a pessoa fazer uma determinada pose, mas não pode deixar virar um teatro ou mudar a realidade: é aí que entra a ética”, a Zizola. Ele cita Eugene Smith, lembrando que o fotógrafo sempre ministrava palestras tomando uma garrafa de whisky. “Na verdade, não era whisky que ele bebia, mas suco. As aparências enganam.”

E nesse contexto, Zizola perguntou aos participantes até que ponto a fotografia é a realidade. Como ele indica, uma foto num documento representa um traço da identidade que se fixa, apesar das pessoas mudarem durante os anos. A realidade também se apresenta em forma de fotografia na ciência, em que uma imagem pode comprovar se um experimentou deu certo ou não, bem como na área judicial, registrando delitos.

Os minutos finais foram abertos às perguntas da platéia, majoritariamente composta por estudantes de jornalismo. As questões giraram em torno da subjetividade da fotografia, a relação entre a formação em antropologia e o trabalho de Zizola, além de questões jurídicas quanto ao uso de suas fotos. O evento foi encerrado por volta das 11h15.



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