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14/10/2010 - 12h00 - Atualizado em 22/05/2012 - 10h03

O valor do chorume

Por Rodrigo Oliveira, Editor do site

"O Cheiro do Ralo" destaca o lado negro do ser humano

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Reprodução
Os atores Paula Braun e Selton Mello

Propostas que envolvem quantias em dinheiro não muito convidativas, aglutinadas com mau humor, reações hostis e diálogos intempestivos. O longa O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, em meio a barganhas e pensamentos esquálidos do protagonista, convida o espectador a conviver durante 100 minutos com a personagem Lourenço, encarnado por Selton Mello, 'figurinha carimbada' - inclusive em produções de baixo custo, como essa - do cinema nacional.

Dono de uma loja que compra produtos usados e itens raros, Lourenço acha que assim como os objetos, as pessoas também tem um preço, estipulado conforme o seu temperamento no momento do acordo financeiro. Em diversos fragmentos da história, nota-se a personalidade cáustica do protagonista, principalmente quando vai comer na lanchonete próxima ao seu estabelecimento. Ele deseja possuir as ancas da garçonete, vivida por Paula Braun, moça simples e ingênua, que trava diálogos impagáveis com ele.

Através da personagem Lourenço, o filme gera reflexão, pois notamos que todo ser humano, em algum momento, tem comportamentos que não condizem com o seu código de ética e princípios. Na película de Dhalia isso está exposto de modo exacerbado, pois é um papel, que nesse aspecto, não exige sutilezas para quem o representa.

A presença de Lourenço Mutarelli - autor do livro homônimo - interpretando o segurança da loja é indispensável. Em uma das cenas mais memoráveis, trava uma conversa com Lourenço, onde um dos temas recorrentes é o lixo. Nesse instante percebemos que Mutarelli é utilizado como um 'escada' no longa, porque a partir dessa sequência fica evidente que o jeito indelicado da personagem de Mello está impregnado em toda a história, pois é assim até com seu funcionário e não apenas com os frequentadores de sua loja.

A direção de arte de Guta Carvalho é impecável, por criar uma metáfora com o título do filme. No ralo encontramos odores, dejetos. O figurino de Selton e as cores da mobília e objetos de cena lembram as de excrementos, devido ao grande número de peças marrons que veste e tons de verde musgo e mostarda presentes ao longo da história.

O bom roteiro adaptado por Marçal Aquino e pelo próprio diretor Heitor Dhalia, a atuação marcante de Selton Mello, como um homem frio e de comportamento obsessivo, tornando-o figura crível e a direção de arte que remete ao escatológico são os fatores para um filme de baixo orçamento como este se firmar. Além, é claro, da ousadia de seu mote, que propõe revisão de nossos atos e conduta, ao optar por destacar o lado negro do ser humano.



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