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05/10/2010 - 13h37 - Atualizado em 19/05/2012 - 10h16

Documentário e palestra marcam o encontro de seleção de inscritos no 9° Curso de Informação sobre Jornalismo em Situações de Conflito

Mayara Moraes, 2º ano de Jornalismo

Direitos humanos e atuação de jornalistas na cobertura de áreas de conflito foram os assuntos mais discutidos durante a confraternização

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Estudantes de jornalismo de todos os cantos do Brasil compareceram ao encontro de confraternização e seleção do 9° Curso de Informação sobre Jornalismo em Situações de Conflito Armado e outras Situações de Violência, do módulo do Projeto Repórter do Futuro, em parceria com a ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Durante a ocasião, iniciada às 10h do dia 25 de setembro, na Matilha Cultural, os inscritos foram recebidos pelo coordenador do Projeto Repórter do Futuro, Sérgio Gomes, e assistiram a um documentário feito pelos estudantes do 5° semestre do curso de jornalismo da Universidade do Espírito Santo. A obra fazia homenagem ao jornalista José Hamilton Ribeiro, eleito recentemente o melhor repórter do século, por conta das várias vezes em que ganhou o prêmio Esso de jornalismo.

O documentário sobre Ribeiro, que já trabalhou na Revista Realidade, é recheado de entrevistas com personalidades da comunicação, como os jornalistas Moacir Longo e Ricardo Kotscho, além do fotógrafo Walter Firmo. Do alto de sua vasta experiência como jornalista - são quase cinquenta anos de carreira -,  Hamilton, de forma bem humorada, dá dicas preciosas aos focas. “Um bom texto deve ter um bom começo e um bom final. No meio, é necessário trabalho, talento e potência”, brinca.

Segundo ele, vaidade, aventura, ambição profissional e falta de juízo são os fatores que motivam o jornalista a fazer cobertura de conflitos armados. Para quem não se recorda, Hamilton perdeu uma perna durante a cobertura da Guerra do Vietnã e escreveu um livro sobre essa experiência, O Gosto da Guerra - A Guerra do Vietnã (Objetiva, 2005).

Após ser introduzido o tema do curso, os inscritos, que concorrem a 25 vagas, assistiram a um documentário do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), o qual deu a deixa para o Chefe da Delegação Regional do CICV na Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, Felipe Donoso, iniciar uma palestra sobre a organização. Durante sua fala, fez esclarecimentos, mencionou os princípios e os aspectos históricos pertinentes ao CICV, explicou sua missão e comentou sobre o trabalho do jornalista que atua em áreas de conflito armado.

Ao final de sua exposição, Donoso participou de uma sessão de perguntas, na qual tirou as dúvidas dos estudantes.

A missão

Felipe Donoso foi enfático ao enumerar o objetivo e os princípios que regem o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Segundo ele, a organização, que existe há 50 anos, não é uma ONG (organização não-governamental), uma entidade médica ou uma instituição de caridade.

A instituição, que tem sua sede na Suíça e possui 100 milhões de colaboradores e voluntários, também não tem as mesmas metas que a Organização das Nações Unidas (ONU), que são as de impedir a eclosão de guerras e pôr fim nos conflitos armados já existentes. “O CICV é uma organização de direito privado, mas com mandato internacional. Nosso objetivo é proteger a vida e a dignidade das vítimas dos conflitos armados e de outras situações de violência - como México, Nigéria e Guatemala, assim como prestar-lhes assistência”, esclareceu Donoso.

Iraque, Sudão, Paquistão, Afeganistão, Israel, República Democrática do Congo, Somália, Colômbia, Sri Lanka e Chade são os países onde atua o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Nessas regiões, colaboradores e voluntários visitam cerca de 500 mil detidos de segurança (presos políticos), restabelecem contatos de familiares através da busca de pessoas desaparecidas, além de fornecerem 900 mil toneladas de alimentos, água, abrigo, saneamento básico e serviços de saúde aos civis.

Dentre os princípios defendidos pelo CICV - humanidade, imparcialidade, unidade e universalidade -, a neutralidade e a independência são suas principais bandeiras.  "Para garantir a independência aos interesses políticos, o CICV não é conectado a ONU”, afirmou o chefe da delegação. Segundo ele, é procurando manter essa independência e neutralidade que o CICV impõe condições aos Estados e pessoas que contribuem para o financiamento do comitê. O valor concedido não pode ultrapassar 25% da renda do doador. “Governos financiam as operações, mas não põem condições na utilização do dinheiro”, garantiu Donoso.

Entre os doadores, estão países da Europa e os Estados Unidos, que correspondem juntos a 50% do financiamento do CICV. Fazem parte desse orçamento as doações brasileiras que, de acordo com Donoso, têm tido um papel crescente na comunidade internacional. “O Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, entregou um milhão de dólares ao CICV da última vez”, lembrou. 

O CICV no Rio de Janeiro

Em 2008, foi aberto um escritório do CICV na cidade do Rio de Janeiro.  O trabalho humanitário passou a ser realizado nas comunidades da Maré, Vigário Geral, Cidade de Deus, Vidigal, Pavão e Pavãozinho.  Donoso qualificou os conflitos entre a polícia e os traficantes dos morros cariocas como um contexto de guerra: “É uma situação crônica que não vai ter uma solução amanhã”.

A instalação dos escritórios, no entanto, não foi tarefa fácil. “É o resultado de anos de negociação e reflexão com o Ministério da Justiça e da Defesa, com executivos, jornalistas e a sociedade civil”, afirmou Donoso. Ainda segundo ele, “é da qualidade do repórter a aproximação com o ser humano. Mas, diante de falhas na cobertura de conflitos do gênero, é necessário conhecer os atores, as vítimas, as dinâmicas, e as instituições envolvidas nos conflitos armados e não analisar apenas os aspectos políticos”.

Ao criticar a falta de cobertura da mídia no conflito armado que se estende há 40 anos, nas Filipinas, Donoso fez um a: “Acima de tudo, é necessário escrever bem sem esquecer os esquecidos”.

A lista dos 25 aprovados sai no dia 5 de outubro, terça-feira, no site www.obore.com. O curso acontecerá nos dias 16 e 23 de outubro, e a cerimônia de encerramento será realizada no dia 13 de novembro. Nesses dias os estudantes participarão de entrevistas coletivas com o assessor jurídico do CICV, Gabriel Valladares, o Coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e assessor do CICV, André Vianna, o ouvidor geral das Polícias do Estado de São Paulo, Luiz Gonzaga Dantas e a repórter especial de O Estado de S.Paulo, Patrícia Campos Mello.



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