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24/09/2010 - 16h07 - Atualizado em 21/05/2012 - 02h44

"Eu não escolhi o Jornalismo: fui escolhido"

Isabella D'Ercole, 3º ano de jornalismo

Ricardo Franca Cruz, editor-chefe da revista Rolling Stone Brasil, conta como foi parar da publicidade ao jornalismo e como a música tem influência na sua vida

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Ricardo Franca Cruz, 40, tem um dos cargos mais invejados do país: editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Mas ele avisa: ao mesmo tempo em que há glória, há um fardo a carregar. Colecionador de revistas “Realidade”, Ricardo brinca que foi escolhido pelo Jornalismo e não o contrário. Ele me recebeu em sua casa para uma hora e meia de entrevista, na qual conversamos sobre sua trajetória, sua família e seus sonhos. Confira:

Isabella: Como foi sua escolha pelo Jornalismo?

Ricardo: Na verdade, eu não escolhi o Jornalismo: fui escolhido, eu brinco. Comecei a fazer faculdade de Publicidade porque meus amigos faziam. Eu já freqüentava o bar da faculdade muito antes de pensar em cursar. Durante o curso, fui um cara muito tímido, até o dia em que uma menina muito legal me chamou pra fazer um trabalho com ela. Ela fazia a parte mais visual e eu cuidava de todo o texto. Uma vez ela olhou pra mim e disse: “Você escreve bem. Você gosta de escrever?”. Eu disse que sim. Desde quando era moleque, já dobrava folha de sulfite pra fazer fanzine. Desenhava, escrevia, falava sobre música. Bom, ela me perguntou se eu não queria um estágio numa revista chamada Trip. Nem sabia direito o que era estágio, muito menos revista. Eu lia revista de música, mas nada nacional. Então, fui lá, conversei e comecei a fazer o estágio de graça, sem receber nada. Isso foi em 1990, mais ou menos. No geral, fiquei sete anos na Trip. Entrei como estagiário e saí como diretor de redação e fui crescendo. Foi lá que tomei gosto pelo Jornalismo, pela reportagem, por investigação, denúncias, por perfis. Porque, a princípio, eu gostava só de música. 

I: E a música ainda é sua preferência?

R: Não. O que eu mais gosto de fazer é contar histórias. Gosto de descobrir uma história, um personagem, fazer perfis. Música permeia minha existência como ser humano, mais do que como jornalista.

I: O seu primeiro emprego jornalístico foi na Trip. Mas antes disso, o que você fez?

R: Ah, fiz de tudo. Trabalhei em locadora [de vídeo], tentei trabalhar em banco, fiz contato pra agências publicitárias menores...

I: Qual o ponto mais marcante da sua carreira?

R: Um ponto alto? Hoje em dia, eu acredito estar numa espécie de auge. Sou editor-chefe de uma das revistas mais legais que são vendidas nas bancas do Brasil, na minha modesta opinião. Mas acho que os pontos altos foram fazer grandes reportagens. Com a Rolling Stone, o destaque foi fazer a primeira edição, vê-la nas bancas. E depois a gente fez a edição com o Fausto Silva, que não fala com ninguém. Recentemente, fiz um perfil do Fernando Gabeira, o qual me deixou muito feliz com o resultado, ele nem tanto - mas a vida é dura. A gente também conseguiu falar com o Rodrigo Santoro e fazer uma capa. Quando você passa a editar, o legal da história, o gol, não acontece só quando você consegue falar com o personagem ou quando você consegue aquele depoimento, mas quando você consegue montar o quebra-cabeça que é a revista.

A revista é como um jantar, ela é composta de vários pratos: a entrada, a salada, o prato principal, uma bebida. O que eu acabo gostando mais é quando eu vejo a coisa inteira pronta. Uma vez fiquei quarenta dias trabalhando como cobrador de ônibus para escrever uma matéria de como era esse mundo. Quando trabalhei com Marcelo Tas no “Vitrine”, da TV Cultura, fizemos uma coisa incrível. Ele foi pra Austrália e eu fiquei aqui e fizemos o programa ao vivo. Eu no estúdio, ele através da banda larga. Foi um ponto alto também.

I: Qual a melhor entrevista que você já fez, aquela que você mais gosta?

R: A melhor é sempre a mais recente, no caso com Fernando Gabeira. Mas fiz outras muito legais. Em 1995 ou 96, fiz uma entrevista com um cara que se chama Daminhão Experiença. Ele faz uma música experimental alucinada. É um cara que vive em outro planeta - inclusive ele dá o nome de Planeta Lamma. Eu fui com um fotógrafo até o apartamento do cara e parecia um lugar de mendigo, assim, louquíssimo. Também entrevistei o Bezerra da Silva, antes de ele virar esse “da juventude”, que o Barão Vermelho gravou. Em janeiro de 2007, conseguimos na Rolling Stone uma capa com Rodrigo Santoro. Foram mais de quarenta dias trocando emails quase diariamente para explicar a proposta da entrevista e tal. Ele estava voltando do Havaí, tinha gravado sua temporada de “Lost” e, em poucos meses, ia estrear “300”, filme que ele fez um papel muito importante. A experiência legal nessa matéria foi conseguir a entrevista naquele momento tão importante, montar o cardápio inteiro.

I: Como editor da Rolling Stone, há uma preocupação em formação da crítica no país?

R: A Rolling Stone é, antes de mais nada, uma revista de entretenimento. Ainda que ela seja uma publicação que discuta muita política e alguns aspectos do Brasil pouco explorados pela mídia geral, ela é uma revista de entretenimento. É um produto para vender na banca. Não é um manual, uma apostila de curso. Ao mesmo tempo, com o nome Rolling Stone, vem um certo peso, um certo fardo que é ter um jornalismo mais profundo, em todos os aspectos. Em cada nota que a gente escreve, existe a necessidade de se avaliar aquilo jornalisticamente, se é relevante, se faz sentido no momento histórico e no momento que a gente está vivendo. Tudo isso tem a ver como projeto da revista.

Com essa adaptação, veio uma obrigatoriedade, uma noção de responsabilidade de ser fiel ao que é o peso Rolling Stone no mundo inteiro. São quase vinte revistas, incluindo países como França, Alemanha, Espanha, Indonésia, Austrália, Índia, Turquia, Argentina, Chile, Venezuela. O que a gente tem é a obrigação de informar corretamente, entreter corretamente, entreter da maneira mais legal e divertida possível. Muita gente acha que todos os meios de comunicação têm obrigações sociais. Eu acho que talvez a televisão e o rádio tenham isso, mas as revistas, eu acho que não. A revista é uma coisa particular, que não depende de nenhuma concessão federal ou política para operar, como dependem canais de televisão e emissoras de rádio e que, ao meu ver, são produtos comerciais. Se o produto comercial é legal e te informa, melhor. Se ele só te entretém, tudo bem. Se ele não te informa, não te entretém e ainda tem informação errada, aí é ruim. O que está longe de ser o nosso caso. 

I: Há pressão para criar história da revista em âmbito nacional, assim como na polêmica Rolling Stone americana?

R: Super! Uma pressão nossa, interna. Junto com a glória que é ser Rolling Stone, ser conhecido internacionalmente, tem um peso jornalístico. Com isso, tem também um fardo. A gente tem 40 anos de arquivo da Rolling Stone pra nadar e fazer matérias mil. Ao mesmo tempo, são 40 anos que a gente tem que cuidar com muita atenção, com muito cuidado.  

I: Há compra de matérias na revista por bandas/artistas?

R: Foge de cogitação totalmente. Já recusamos várias vezes. Super acontece, mas quando o cara é artista amador. Uma banda boa nunca vai te oferecer isso, sabe que isso vai gerar uma matéria negativa muito grande. A gente não vende espaço editorial, só espaço comercial. Jamais na Rolling Stone você vai ver uma opinião editorial sobre uma coisa comprada. 

I: De todos os veículos nos quais você trabalhou, em qual você teve mais liberdade?

R: Logo no começo da internet, ninguém entendia direito como aquilo funcionava, então eu tinha mais liberdade pra fazer o que eu quisesse. Quando a Revista MTV deixou de ser vendida em bancas, eu podia criar capas mais loucas. A gente fez capas tão livres e tão autorais que os assinantes adoravam. 

I: Sobre a mídia atual: há veículos que mereçam destaque?

R: Hoje em dia, nós temos duas grandes editoras, ou seja, um “bipólio”. Mas fora desse circuito, certamente tem várias revistas que valem a pena ser lidas. O problema é o público perder o preconceito e tentar entender as publicações. Talvez ela não seja pra você. A Veja é anti-Lula. Se você é PT, não vai ler a Veja pra se informar. Vai ler pra ver o que eles estão falando. 

I: Do que você planejava para seu futuro e de onde você se encontra hoje, qual a diferença?

R: Quando eu comecei, lá nos anos 90, eu não me imaginava em revista. Eu me imaginava fazendo outra coisa. Mas eu já fiz isso: já fiz televisão, internet, rádio, publicidade - fiz um monte de histórias. Mas eu sempre acabo caindo em revista. 

I: Algum objetivo pessoal não alcançado ou meta não realizada?

R: Ah, muitas coisas. Eu queria fazer uma viagem incrível pra Amazônia que eu não fiz ainda. Queria montar um estúdio, porque eu gosto de tocar - não sei direito, mas gosto - e ainda não montei. Queria fazer um filme, levar minha família pra Disney e ainda não consegui. Mas nem por isso sou infeliz, só sou um cara com muitas vontades.

I: E no seu tempo livre, o que você gosta de fazer?

R: Churrasco (Risos). Eu gosto de fazer nada, ficar “relax”. 

I: Um hobby?

R: Música, gosto de tocar, ouvir. Gosto de videogame, televisão, filme. Eu gosto muito de ler, mas quando eu tenho tempo livre, eu não faço. Como eu faço isso muito no dia-a-dia, fica muito cansativo. Escrever é uma coisa que eu não faço mais por hobby também. Eu não tenho blog, nem fotolog, não sou DJ. (Risos). 

I: Mas você canta...

R: Eu me divirto. É uma coisa de moleque. Eu já cantava, tinha banda muito antes de pensar em faculdade. Quando você coloca isso frente à profissão, você vê que é só uma curtição. Mas quando você está lá cantando ao vivo, você acha que o mundo é aquilo. O que eu gosto de fazer, na real, é estar com minha família, meus amigos. É o que mais me dar prazer: fazer nada em conjunto. Um nada coletivo.



Comentários Comentários Postados
Cinthia[02/10/2010 - 22:21]

Muito bacana a entrevista!

Juliana[06/10/2010 - 15:29]

Adorei, ótimas perguntas.

Danilo Nunes[13/10/2010 - 16:37]

Parabéns ao entrevistador. Perguntas pertinentes. Sou estudante de Administração, mas confesso que tenho uma "caída" por jornalismo. Quando terminar, vou fazer Jornalismo!

Renato[14/10/2010 - 21:17]

Muito boa a entrevista porém, deveria ter falado sobre as bandas que ele gosta..

Bruna[27/09/2010 - 16:37]

Nossa, muita boa a entrevista! Assim como o Ricardo eu também amo música, mas ao contrário dele, eu pretendo fazer jornalismo e quem sabe, no futuro, poder juntar as duas coisas.

Nathan[01/10/2010 - 13:55]

Muito boa mesmo a entrevista. Parabéns!

Fernanda[28/10/2010 - 16:31]

interessante! Por ele ser o editor-chefe de uma revista importante de entretenimento do Brasil, ele não perdeu a humildade. É muito importante para cargos de grande peso, como o dele. E vale ressaltar que a entrevista ficou maravilhosa, foi como se eu estivesse lá conversando com ele, e mais, como se nós fôssemos amigos. Parabéns Isabella D'Ercole!

Danielle[27/09/2011 - 13:01]

Ótima entrevista!

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