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21/09/2010 - 19h37 - Atualizado em 22/05/2012 - 07h35

Sérgio Vaz, criador da Cooperifa

Guilherme Assen, 3º ano de jornalismo

Um agitador cultural equipado com armas de mais de 400 páginas transforma a realidade da periferia

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Divulgação
De office-boy a poeta, Sérgio Vaz é criador da Cooperifa
e afirma que prefere que os políticos estejam desligados
da cultura. "Saindo das minhas mãos, garanto que será
bem feito”, diz.

Mineiro, nasceu em 26 de junho de 1964 , praticamente, três meses após o Golpe Militar. Ainda criança, saiu de Belo Horizonte para morar em Taboão da Serra, município pobre da região metropolitana de São Paulo, que é considerado, por muitos, um bairro da periferia paulistana.

Cresceu envolto por livros, mas estudou pouco.  Sérgio Vaz não chegou a cursar o colegial. Aos 15 anos de idade, começou a trabalhar como office-boy para uma agência bancária e teve que largar os estudos. Lembra, no entanto, que nos natais e em seus aniversários sempre ganhava livros como presente. “Desde sempre meu pai me comprava livros. Eram livros de sebo, baratos, judiados, mas que guardo com carinho por saber a importância que tinham para o meu velho”, relembra Vaz.

E então foram anos arranjando bicos para sobreviver entre uma leitura e outra. Vendedor, auxiliar de escritório, auxiliar de cobrança, feirante e outros tantos cargos em uma rotina de pontos de ônibus e cartões batidos, tudo muito distante de seu atual dia a dia. "Eu praticamente não existia. Saía para trabalhar como se estivesse indo para a forca”, responde o poeta ao ser questionado sobre sua vida antes e depois da escrita.

Aos trinta anos de idade, conseguiu economizar parte de seu salário para editar seu primeiro livro de poemas, intitulado simplesmente de “Livro de Poemas”. Poucos exemplares foram impressos e, então, distribuídos para familiares e amigos. Com o tempo, Sérgio Vaz foi deixando de ser um “faz-tudo” para se tornar escritor.
 
Cinco anos após seu “Livro de Poemas”, Vaz reuniu alguns amigos e, no dia 11 de fevereiro, inaugurou a primeira Semana de Arte Moderna da Periferia. Ela aconteceu na mesma data em que Mario de Andrade, Manuel Bandeira, Villa-Lobos e outros tantos artistas se exibiram para quebrar os tabus da arte passadista, na chamada Semana de Arte Moderna. E assim como os artistas do passado, Vaz e seus companheiros se uniram para criar o que seria a Cooperativa Cultural da Periferia, a Cooperifa.

As reuniões eram feitas em uma fábrica abandonada em Taboão da Serra. Sem organização prévia, o grupo se encontrava todas as quintas-feiras para recitar suas próprias poesias. Não havia censura: os poetas poderiam falar sobre tudo, desde que as discussões fossem através de rimas. Com o tempo, a cooperativa ficou conhecida por Taboão e chegou a reunir em torno de 100 pessoas para o debate lírico. Todo esse destaque chegou na imprensa e, logo que a prefeitura ficou sabendo da invasão cultural na fábrica abandonada, os agitadores foram expulsos. “Viramos o movimento dos sem-palco”, brinca Vaz.

O grupo passou a se reunir em botecos, até que se fixaram no Bar do Zé Batidão, propriedade do pai de Sérgio Vaz, no bairro da Piraporinha. “Na periferia, espaço público ou é igreja ou é bar”, conclui o poeta. Os artistas passaram, então, a se reunir todas as quartas para conversar e recitar seus versos.

Como um líder, Vaz sempre senta ao lado de onde as apresentações acontecem, em um palco improvisado no canto do boteco. Ele saboreia o escondidinho do Zé e bebe duas ou três latinhas de cerveja. E é assim que Vaz define sua própria poesia: “maloqueira e periférica, toma cerveja e só fala o que não agrada”. Tem tanto carinho pela Cooperifa, que ele próprio desenhou o símbolo dela, um garoto empinando uma pipa. O logo fez tanto sucesso entre os idealizadores que todos eles tatuaram “Cooperifa” seguida do menino brincando com o “papagaio”. Tatuagem esta que Vaz faz questão de deixar exposta em seu braço direito.

O esforço

Suas convicções e seus projetos conseguem criar oportunidades onde não há nada além de espaço. Sem teatros, cinemas e até mesmo escolas, Vaz se esforça para abrir caminho para que a arte possa se mostrar como alternativa às drogas e à violência. “Nunca vi Taboão tão violenta. Outro dia, cruzei com um garoto que carregava uma arma com mais de quatrocentas páginas. Tem até adulto traficando conto”, diz Vaz entre gargalhadas.

Atualmente, o poeta trabalha a hora que bem entende, apenas escrevendo e produzindo projetos culturais. No entanto, afirma que nunca trabalhou tanto e que usa sua insônia e seu vício em café como aliados para escrever cada vez mais. Não bate cartão e, raramente, sai de casa. Vaz mora no próprio bairro de Piraporinha, em Taboão da Serra, na mesma rua na qual acontecem os saraus. É casado há quase 20 anos com Sônia e é pai de Mariana, uma garota de 15 anos pouco interessada por livros, mas apaixonada por música.

Reconhecimento

Vira-lata da literatura, como se autodefine, o poeta marginal tem colecionado elogios. Seus textos e seus projetos extravasam a periferia e ganham a aprovação dos meios acadêmicos e dos grandes veículos de comunicação. Antonio Vicente Pietroforte, poeta e lingüista pesquisador da Universidade de São Paulo, considera o líder da Cooperifa um herói. “Vaz está fazendo o que aluno nenhum de Letras se preocupa em fazer. Promove a leitura e a escrita, não importa onde, não importa a condição”, afirma o pesquisador. Pietroforte já chegou a, inclusive, dividir alguns recitais com Vaz e diz que ainda o fará participar das atuais altas rodas literárias.

Vaz não se preocupa com isso. Diz preferir os moleques do morro aos professores universitários. No entanto, reconhece a importância da amizade com o lingüista afirmando que o quer cada vez mais perto de seus projetos. O poeta marginal já publicou seis livros, sendo os dois últimos – O Colecionador de Pedras (Global, 2007) e Cooperifa: Antropofagia Periférica (Aeroplano, 2008), editados e comentados por Heloísa Buarque de Hollanda, aclamada ensaísta e crítica literária brasileira.

Entre pedras e leituras, Vaz culpa a má administração pública pela ausência da cultura na periferia. O poeta já assumiu por diversas vezes discursos panfletários de ataque e revolta. Hoje prefere escrever e se movimentar. “Já não podemos esperar mais nada desses engravatados (políticos). Até prefiro assim. Saindo das minhas mãos, garanto que será bem feito.”



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