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21/09/2010 - 14h24 - Atualizado em 21/05/2012 - 17h45

Ferreira Gullar define seu uso político da poesia como “obrigação de cidadão”

Por Bruno Conde, Caio Azevedo, Gisela Anauate, Rodrigo Antonio, Rodrigo Turrer e Fábio Salem, do 2º ano de Jornalismo de 2004


Reprodução

“Minha participação política sempre ocorreu motivada pelas circunstâncias, não por vocação”, confessa Ferreira Gullar. Nesta entrevista realizada em 2004, o poeta explica por que deixou o Brasil durante o regime militar. “Fui obrigado a optar pelo exílio, porque não dava para continuar nas condições em que vivia”.

Gullar também comenta a sua obra Poema Sujo, produzida durante a ditadura. “Ele pode ser visto como uma forma de resistência ao regime porque contém nele a afirmação da liberdade, da vida, da existência, das coisas necessárias à vida normal de qualquer cidadão”.

Sua atuação política e sua criação literária estão interligadas? Quando houve a junção de ambas?

Quando comecei a escrever, nunca pensei em ter atuação política. O interesse era pela literatura. Minha participação política sempre ocorreu motivada pelas circunstâncias, não por vocação. Tenho consciência de minhas responsabilidades como cidadão. Diante de determinadas circunstâncias, sou obrigado a participar e tentar influir nos acontecimentos. Isso ocorreu em 62, quando entrei para o Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Por que a necessidade de integrar o CPC?

Com a renúncia de Jânio Quadros e a posse de João Goulart, iniciou-se no país um período de agitação social, de reivindicação e luta, no campo e na cidade, pela reforma agrária, reforma urbana, pelas reformas de base, como se dizia na época. Fui convidado por alguns companheiros que já estavam no CPC a me integrar nessa atividade. Achei que seria um momento oportuno de participar.

Heloísa Buarque de Hollanda cita o filósofo alemão Walter Benjamin ao dizer que “o engajamento político contém uma opção literária”. O que pensa disso?

No caso dos escritores, é quase sempre uma coisa ligada à outra. No meu caso, sim, sobretudo porque antes de participar politicamente, era um poeta ligado à vanguarda literária, poética, artística. Tinha chegado a um ponto limite da minha experiência como poeta de vanguarda. Exatamente no momento em que fiquei um pouco sem rumo, a situação política no Brasil tornou o momento propício para me integrar na atividade política.

Em certo momento de sua carreira, o senhor se dedicou à poesia de cordel. Como avalia essa fase?

Não escrevi esses poemas achando que estava fazendo literatura. Tinha obrigação de usar meus recursos de poeta para contribuir para conscientização das pessoas, do povo mal-informado, que não sabia o que estava acontecendo. Havia muito mais um objetivo político do que literário.

O senhor ficou clandestino no Brasil e depois passou anos no exílio. Existe uma diferença entre essas condições, no sentido de estar alijado de sua própria vida?

Existe muita diferença entre estar clandestino e estar no exílio. A vida na clandestinidade é terrível, é quase uma prisão, nas condições em que fiquei.
Passei 8 meses trancado num quarto, depois tive que me mudar para outro esconderijo. Essa insegurança que a clandestinidade provoca em casos como o meu torna a vida bastante desagradável. É uma tensão permanente, porque você não sabe até que ponto está realmente protegido e até que ponto está exposto à repressão.
Fui obrigado a optar pelo exílio, porque não dava para continuar nas condições em que eu vivia. Quando atravessei a fronteira do Brasil e cheguei no outro lado, o uruguaio, senti um grande alívio, pois infelizmente estava livre. Podia ser eu mesmo e andar pela rua sem estar apavorado.

Pode-se dizer que o senhor foi para o exílio para, de certa forma, poder existir?

Não propriamente isso. Fui para o exílio para escapar da prisão e das consequências, que naquela época podiam ser até a tortura e a morte. Eu estava na verdade procurando salvar minha vida. Mas em seguida começou o outro problema, que é o de viver uma vida que não é sua, fora do seu país, distante da família, dos filhos, dos amigos, da sua cultura. Para mim foi também um grande sofrimento.

A poesia, como diz Alfredo Bosi, é também uma forma de resistência, já que a ditadura anula o indivíduo?

É verdade. Muita gente ficou no Brasil porque estava em condições diferentes e sem as mesmas implicações que eu tinha, mas manteve sua luta de resistência através da atividade cultural, escrevendo seus poemas, peças de teatro ou música; enfim, exercendo uma atividade artística como forma de resistir.

O Poema Sujo (1975) entra nesse contexto?

O Poema Sujo foi escrito nas condições do exílio. Ele pode ser visto como uma forma de resistência ao regime porque contém nele a afirmação da liberdade, da vida, da existência, das coisas necessárias à vida normal de qualquer cidadão. Sob esse aspecto, além de outras questões que estão envolvidas no poema, como o resgate da memória, do tempo e outras mais complexas, ele tem também esse aspecto de reivindicação social.

Ainda no campo da poesia como forma de resistência, do outro lado, a esquerda tem também seus esquemas rígidos. Em Rabo de Foguete, nota-se um certo ressentimento com alguns acontecimentos da URSS, como a reunião em que, na posição de representante, foi impedido de criticar a atuação do PC (Partido Comunista) no Brasil. Sua experiência de exílio mudou sua maneira de ver a poesia como forma de atuação política?

Não foi a experiência do exílio que mudou. Tenho plena convicção de que estava na posição correta e os próprios companheiros que naquela ocasião me criticaram, mais tarde voltaram atrás e reconheceram que tinham se equivocado. Essas atitudes são uma tendência da esquerda ao sectarismo. Nem sempre é o próprio partido, que em muitas ocasiões se mostrou flexível, mas sobretudo os membros mais jovens, menos experientes, que sentem obrigação de se mostrar fiéis até o último fio de cabelo. São atitudes ingênuas e imaturas, em vez de olhar a realidade objetivamente, de ter visão crítica e saber conduzir as coisas.
Existia um oba-oba com relação ao comunismo e ao partido soviético, as pessoas achavam que não se podia fazer crítica nenhuma. A maioria nem via nada, fazia questão de fechar os olhos. Eu não. No próprio livro conto outros episódios em que discordei de coisas absurdas que ocorriam lá, mas os confrontos de opiniões entre o sectarismo e a flexibilidade são muito frequentes na luta revolucionária.

Paulo Martins, personagem do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha diz que “a poesia e a política são demais para um só homem”. Você concorda?

(risos) Não concordo muito com isso, acho que nem sempre é assim. Por exemplo, Pablo Neruda foi poeta e militante do partido comunista. Até que para mim pode caber, mas para outros não. Mas entendo que Glauber tenha posto isso na boca do personagem.

Por que a frase se aplica a você?

Não sou um político. As atividades políticas, as reuniões, os debates, são uma coisa muito cansativa. É preciso ter nascido para aquilo. Meu interesse é com a poesia. Se houver necessidade, volto a usá-la politicamente, porque acho que a minha obrigação de cidadão é importante. Se achar que aminha poesia pode ajudar em alguma coisa, não hesitarei em usá-la, mas não acho que seja obrigatório fazer poesia política. Mesmo que as circunstâncias mudem, nem todos os poetas têm que fazer isso. Cada poeta tem sua necessidade, seu arbítrio para fazer o que quiser.

Um de seus poemas, Cantada, termina com estes versos:

você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana

(Ferreira Gullar, “Cantada”, Dentro da noite veloz, 1962 – 1975)

A revolução era bonita demais ou a moça não era tão bonita assim?

(risos) A moça era muito bonita, não tenha dúvida. Ela era tão bonita que a comparei à Revolução Cubana, que para mim, pelo menos naquela época, era a coisa mais bonita que existia. Ela transcendia a beleza pessoal para ganhar outro significado, que só a Revolução podia ter. Era realmente muito bonita, a moça.



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