Unindo paixão pela música à descontração, a radiojornalista conta sobre sua vida e carreira dos mais pequenos aos inesquecíveis detalhes
"Não venham me dirigir!", determinou Patricia Palumbo quando assumiu pela primeira vez o microfone na programação musical da 92,9 FM. Naquela sexta-feira, não tinha ninguém na rádio Eldorado para substituir o locutor que fora demitido sumariamente na noite anterior por ter repetido o dial errado no ar. "Ficamos enlouquecidos pensando em quem poderia fazer o horário dele, que era sábado e domingo das seis da manhã ao meio-dia". Sem opções, Patricia assumiu a mesa, com essa ressalva: não ser dirigida.
Às seis da manhã do sábado, lá estava ela, com os jornais do dia e o livro que estava lendo em seu colo, pronta para mudar o estilo da rádio. "Entrei no ar comentando a programação, coisa que na Eldorado, até aquele momento, era totalmente proibido - ninguém fazia. E mais: ainda comentando o que eu estava lendo!" O ineditismo de associar as notícias do dia às canções e mencionar algo sobre o produtor ou compositor daquela faixa foi aprovado. Foi assim que Patricia ganhou o programa que a faria ganhar o prêmio de melhor âncora e apresentadora da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) em 1999, A Hora do Rush. A organização a premiou também em 1998, como coordenadora de programação da Eldorado FM e, em 2000, pelo programa com o qual ela é mais conhecida, o Vozes do Brasil: o vitrolão que assumiu enquanto estava na Musical FM e deu "personalidade". Sua personalidade.
A jornalista, formada pela PUC, já havia trilhado um bom caminho até lá. Para quem nem pensava em prestar o curso, convencida pelos amigos, ela encontrou prazer na profissão. Ainda estudante, estreou na Cultura AM, onde teve seu primeiro programa. Com sua filha de um ano, voltou para sua cidade natal, São Sebastião, onde apresentava um programa aos finais de semana. Para pagar uma escola melhor à pequena Gabriela, tornou-se correspondente no litoral para a rádio Eldorado, até que um dia foi convidada pelo diretor-geral, João Lara Mesquita, para tornar-se coordenadora de programação.
Patricia ficava nos bastidores, até que o locutor errou "92,9" pela enésima vez. Depois do episódio, a jornalista ainda viveu muita coisa. Alcançou o sucesso com A Hora do Rush, foi para a Musical FM, voltou para a Eldorado com o Vozes do Brasil e tornou-se uma das jornalistas musicais mais respeitadas do país. Além do programa, hoje ela participa de diversos projetos de curadoria, como o Natura Musical e o Projeto Prata da Casa, do SESC Pompéia, fora a apresentação do Instrumental SESC Brasil no canal SESC TV.
Ela dá os créditos de sua sorte à generosidade da vida, mas a simpatia com certeza deve ter levado Patricia para muitos lugares. Em sua casa, ela dá a entrevista brincando com sua cadela Cacau, enquanto se prepara para sair correndo para a cerimônia Viva a Mata, no Ibirapuera. Conselheira da Fundação SOS Mata Atlântica, Patricia divide suas paixões entre a música e o meio-ambiente. Às vezes, como no programa Baleia Azul, que apresentou por cinco anos, nos finais de semana, em São Sebastião, ela junta ambos. A mesma união é possível de se verificar nos livros bem organizados em longas estantes de seu apartamento em São Paulo.
O imóvel é reflexo da jornalista: ao fundo toca um lançamento, Bárbaro, o novo CD do grupo paulistano Trupe Chá de Boldo. Isso mostra que a jornalista está sempre por dentro. "O Fino da Bossa" está sobre sua escrivaninha lotada de CDs, na parede escrito. Do outro lado, uma foto sua com Rita Lee. Acima da fotografia de uma criança brincando com um violão pequeno, uma imagem de Buda. Patricia é assim: tranqüila e simpática. Acha que o jornalista tem de estar preparado a qualquer hora e trata com muito respeito seus entrevistados, entre os quais estão nomes como Cássia Eller, Arnaldo Antunes, Elba Ramalho e, recentemente, Marisa Monte. Só toca o que gosta, mas, também, só gosta de coisa boa. É Patricia Palumbo quem, mesmo sem querer, determina os grandes novos artistas da música brasileira.
Por que você escolheu jornalismo?
Foi meio que por acaso. Eu era muito menina ainda quando saí da minha cidade, São Sebastião, no litoral de São Paulo, e vim estudar [em São Paulo]. Na época que eu morava lá, minha vida era muito livre, então eu andava de bicicleta, saía para mergulhar, velejava, nadava - aquela coisa de vida de adolescente caiçara. Então, quando eu pensei em fazer faculdade, pensei em me formar professora rápido e voltar logo para a praia e dar meio período [de aula]. E, pronto, com 16 anos, na minha cabeça, achava que isto bastava para ser feliz. Aí quando cheguei no cursinho e fui fazer a inscrição, meus amigos vieram me dizer que eu precisava prestar outra coisa, que se não entrasse em uma, entrava em outra. "Então presta Jornalismo, que é a sua cara". Prestei e entrei nas duas faculdades. E, não fosse meu tio me tirar da cama, porque eu já estava de férias na casa da avó na praia, eu não teria nem feito a inscrição, porque já tinha entrado na USP.
Quando me dei conta, Jornalismo era tudo que eu queria, juntava as coisas todas pra mim. Eu sempre tive muita curiosidade com histórias de maneira geral e, por conta disso, achei que fazer faculdade de História ia me completar. Foi incrível [fazer o curso], me deu uma base maravilhosa. Mas eu sou virginiana e tenho este lado mais prático - a História é muito teórica. Fui me descobrindo muito mais jornalista do que historiadora, e logo entrei em rádio... Quer dizer, me apaixonei pela coisa, fiquei extremamente alucinada pela possibilidade de fazer programação para milhares de pessoas ouvirem, não só os amigos que dividiam fita cassete, o que eu já fazia há muito tempo. E foi isso, virou um vício.
E como que você começou na Cultura AM?
Comecei com um título daquela época, que era Apoio de Produção. Ganhava uma merreca por mês e fazia de tudo. Eu comecei atendendo telefone dentro do estúdio para o programa do Walter Silva, o Pica-Pau, que foi um cara importantíssimo na história da rádio e da música brasileria. Falava de música antiga no programa, tocava Custódio Mesquita, Orestes Barbosa... Ele foi me mostrando tudo aquilo e foi lindo pra mim. Eu atendia as velhinhas que pediam música pra ele e eu fui aprendendo, com um cara que fez rádio nos anos 40, 50 e 60, o que era a rádio bem feita, a interatividade com o ouvinte e o cuidado com a programação. E dali eu comecei a fazer, devagarzinho, programação musical e produção de programas, sempre atendendo telefone, carregando fita. Na época, a gente fazia com fita rolo que a gente editava na gilete e grudava, não tinha essa onda de computador. A gente batia programação numa máquina gigante, que demorou pra ser elétrica - era batendo mesmo a programação. Eu tive meu primeiro programa lá na rádio Cultura mesmo, o Radiografia.
Como foi?
Tinha aquela coisa de você estar em casa ouvindo música: eu comprava muitos LPs e, às vezes, eu entrava numas de pegar um artista e comprar tudo que eu podia dele. E mergulhava naquela obra. Fiz isso com Sylvia Telles, Dulce Quental, Cazuza... que era o grande amor da minha vida naquela época. E eu estava em casa ouvindo Renato Borghetti numa destas brincadeiras, um sanfoneiro gaúcho maravilhoso, e daí tinha no LP: 'Contatos', o telefone. Eu falei 'quer saber? Vou ligar pra esse cara e marcar uma entrevista'. Liguei, atendeu o irmão, que era o produtor: 'Oi, como vai? Eu sou Patricia Palumbo, trabalho aqui na rádio Cultura AM de São Paulo, queria fazer uma entrevista com o Borghettinho.' Ele falou: 'Bah, ótimo! Vem aqui, a gente toma um mate, come um churrasco, tu conversa com ele quando tu quiser!' Fiquei super empolgada e me imaginei já lá. No dia seguinte, chegando na Cultura, estava entrando na Fundação e encontrei o Roberto de Oliveira no caminho, diretor da rádio e da TV naquela época. Parei e disse: 'oi Roberto, como vai? Então, estou indo para Porto Alegre fazer uma entrevista com o Renato Borghetti, quer que eu faça pra rádio também?' Ele olhou e perguntou: 'mas você vai fazer pra quem?' 'Ah, estou fazendo uns freelas...' Inventei, joguei o maior blefe! [Risos] Ele falou: 'Vai, adoro o Renato Borghetti! Pede para a secretária te arrumar passagem, equipamento, vai lá e faz para mim.' Eu amei, né?
Cara, deu super certo. Aí eu me armei de um gravador de rolo arcaico, que tinha de quinze naquela época - era o portátil da gente, um negócio deste tamanho [mostra, com as mãos, o tamanho de uma caixa grande, de uns 30 centímetros] e fui-me embora para Porto Alegre. Gravei uma entrevista imensa com o Borghetti, trouxe um material gigante e comecei a trabalhar o que seria o Radiografia. Gravei uma entrevista com o [instrumentalista] Sivuca e uma com o [João Carlos] Botezelli Pelão, produtor de música de raiz. Fui abrindo um monte de arquivinhos. Ninguém tinha realmente encomendado este programa, então eu tinha todo o tempo do mundo pra fazer o que eu quisesse.
Caprichou?
Caprichei muito. Eu lembro que no primeiro programa que coloquei no ar, eu lia o que escrevia [risos]. Hoje em dia, eu nem que a vaca tussa leio alguma coisa, de jeito nenhum! Mas foi muito emocionante. Daí virou uma série de programas que estão lá na Rede Cultura, até hoje arquivados.
Quantos anos você tinha então?
Eu não tinha nem minha filha ainda. Eu comecei na Cultura com 17 anos, fiz o Radiografia com 19, 20 ou 21, por aí.
Como era fazer o programa jovem? Porque jovens tem gostos diferentes...
Mas eu sempre fui uma garota com gosto diferente. Fui jovem nos anos 80 e, naquela época, era o rock brasileiro: Titãs, Paralamas [do Sucesso], aquele povo todo de Brasília. E destes roqueiros todos de quem eu gostava mesmo era o Cazuza, porque eu achava que as letras eram mais legais - me identificava mais com a temática. Gostava muito de jazz norte-americano, dos standards de jazz e dos clássicos da música brasileira que minha mãe cantava em casa e nem sabia que eram os clássicos. Minha mãe era muito festeira. Ela contava causos, fez nosso bloco de carnaval lá em São Sebastião durante muitos anos. Era ela quem escrevia o samba-enredo. Então eu achava que "Chiquita Bacana", por exemplo, era uma invenção dela. Meu repertório foi formado muito por isso, pelos clássicos, através da minha mãe, e pelo pop do meu pai, um carioca da tijuca, que foi amigo de Erasmo Carlos, gostava de Tim Maia e Roberto. E meu pai, que também era viciado em rádio, foi ator de rádio-novela no Rio de Janeiro por um tempo. Ele que me ensinou o que era zapear um dial, ouvir ondas curtas. Até hoje a gente divide essa mania de ter vários equipamentos.
E depois do Radiografia, que rumo você tomou?
Eu fiquei bastante tempo na Cultura AM, até que eu me tornei diretora de programas, um cargo bacana que tinha logo depois da direção. Eu era bastante jovem, tinha uns 25 anos, mas tive minha filha e fiquei cansada de São Paulo. Me separei do pai dela um ano depois que ela nasceu e resolvi voltar para a praia. Aquela ideia de dar aula meio período virou fazer um programa de rádio aos finais de semana, e, no resto de tempo, eu cuidava da minha filha, ia para a praia com ela. Virei uma caiçara de novo. Deixei o cabelo comprido até a cintura, andava de bicicleta. Virei o que eu era antes. E aí fiz um programa de rádio muito bacana chamado Baleia Azul, que era um programa de música e meio ambiente, pioneiro no tema, no rádio - em São Sebastião mais ainda. A moçada se juntava para fumar uma e ouvir o programa, porque eu colocava o canto da baleia Jubarte junto com o som do Alpha Blondy e juntava com Itamar Assumpção, que nunca ninguém tinha ouvido lá. Tocava umas coisas bem malucas e fazia o programa ao vivo, toda semana. Levava meus LPs numa sacola de praia e as gravações das reportagens que eu fazia andando pela Mata Atlântica ou saindo de barco. Gravava tudo num cassete e soltava no microfone, porque não tinha muito como editar. Era uma delícia de fazer. Eu que mexia na mesa. Fazia o programa todo em pé, era uma hora que eu fazia um show, dançava...
Ficava brincando de DJ.
Brincando de DJ! [risos] E passando o recado do meio ambiente e informação sobre música. Virou um entreposto ecológico. Fazia festas com a música do Baleia Azul, os meninos que pegavam onda andavam com "Atleta Baleia Azul" [mostra escrito de camiseta] e um monte de baleia diferente nas roupas. Foi uma viagem! Fiquei cinco anos lá até que acabou a grana, minha filha estava com seis anos e eu pensando que queria colocar ela numa escola bacana. Passei a ligar para os amigos de São Paulo e dizer 'quero voltar'. Aí me disseram: 'vai para [a rádio] Eldorado que é a sua cara'. Eu trouxe o projeto do Baleia Azul. Eles não quiseram o programa, mas me quiseram. Então eu virei repórter de meio-ambiente. Foi muito divertido, porque eu passei uma temporada como correspondente no litoral.
Foi pouco tempo, seis meses, mas foi uma farra, porque eu comecei a ganhar como se ganhava em São Paulo, mas na praia! Então eu ia para a praia com o namorado à tarde, jogava uma raquetinha. "Opa, três da tarde: eu tenho de entrar no ar". Ia para um orelhão e ligava. [Faz voz mais narrada] 'Olá, aqui é Patricia Palumbo em São Sebastião. Hoje a gente vai falar sobre as canoas de voga que existiam aqui há não sei quantos anos e piriri e pororo...' E nesta altura, eu já tinha uma cancha do ao vivo, então ficava pensando nas coisas e na hora de ligar já tinha tudo pronto. Era uma farra.
Até que eu fiz uma reportagem especial sobre uma plataforma de petróleo e tive que editar na rádio. Passei uma semana trabalhando em São Paulo e aconteceu do coordenador de programação ser demitido. Aí o João [Lara Mesquita, diretor-geral da rádio Eldorado] passou no corredor e me perguntou: 'vem cá, o que você conhece de música?' [risos] Eu falei: 'ah, João, isso não é coisa que se pergunte no corredor, né?' 'Não, mas você já trabalhou com música?' 'Já, você sabe disso, fiz programação na Cultura' 'Não, mas você gosta de música, gosta de jazz?' 'Sim!' 'Música clássica?' 'Sim!' 'Quer ser a coordenadora de programação aqui da rádio?' 'Meu, preciso pensar!' [rindo] 'Tá bom, você tem o feriado de 7 de setembro, quando você voltar, me diz'. Aí fui para a Serra da Bocaina fazer um especial. Passei sete dias acampando lá, voltei e falei: 'vou, né? Imagina... dizer 'não' para um negócio destes?'
E você aceitou.
Voltei e comecei a fazer a programação da Eldorado e, além disso, comecei a fazer algumas entrevistas para o Canta Brasil. Até que aconteceu uma coisa [pausa]... A vida tem sido muito generosa comigo, porque tudo meio que acontece, assim, e vai dando certo. Bem, era uma quinta-feira à noite e o locutor do horário foi demitido sumariamente porque disse pela décima quinta vez o dial errado no ar. [Conta a história de como assumiu a locução comentando as músicas e as notícias do dia.] Então falava: 'Estou aqui com o Caderno 2 [suplemento de cultura do Estadão] na mão e saiu uma matéria sobre o Federico García Lorca, poeta incrível que estudou guitarra flamenca. Falando nisso, vamos logo tocar o sax de Lucia' [provavelmente referindo-se ao instrumento na canção "Paco de Lucia"] e entrava a programação [risos].
Os caras adoraram, acharam uma delícia e mudou o estilo de programação da Eldorado a partir daquele momento. Eu ganhei A Hora do Rush para fazer. Foi a primeira FM a prestar serviços sobre o trânsito no final da tarde. Um programa que eu fazia atendendo o telefone, pondo música no ar, falando com o ouvinte, com o helicóptero. Começou com uma hora, duas horas, três horas... E foi um sucesso, a Eldorado bombou de audiência naquela época. A gente estourou, foi o pico. Era todo dia ao vivo, o programa mais forte que tinha. Os amigos das outras rádios começaram a me ligar para dizer que iriam copiar o programa, e assim rolou, todo mundo hoje faz um final de tarde com prestação de serviço e interatividade.
E daí como foi até o Vozes do Brasil?
Eu estava dirigindo a rádio, fazendo A Hora do Rush, o maior sucesso, tudo incrível. Eu saí de férias com todo mundo me amando e, quando voltei, alguma coisa muito louca tinha acontecido para que as vontades virassem ali. Essa coisa esquisita não serviu pra mim, não queria ficar. Percebi que não ia mais rolar. Liguei para alguns amigos que na época estavam dirigindo a Musical FM e outros que estavam dirigindo a ESPN Brasil e perguntei se tinha algum lugar pra mim lá e falaram: 'claro, vem aqui amanhã!' Naquela tarde, eu quebrei um pau na rádio e saí. Fui pra Musical e fui fazer esportes radicais na ESPN Brasil. Foi uma delícia, fiz viagens incríveis! E na Musical, eu assumi o horário que eu tinha na A Hora do Rush, [num programa] que chamava Vozes do Brasil, por conta de um bordão que eles tinham lá que era no lugar de A Voz do Brasil, Vozes do Brasil. Só que era um vitrolão, uma programação corrida sem locutor, sem nada. Eu peguei este horário e transformei num programa de personalidade, num programa com comentário e entrevista feita ao vivo quando eu não estava viajando para escalar montanha... [risos].
Só que eu peguei o último ano da Musical, que foi arrendada por um grupo religioso. O diretor da Eldorado me chamou de volta, porque aqueles 50 mil ouvintes por minuto se transformaram em 19 mil logo depois que eu saí. Mas em rádio você não recupera audiência tão rápido como quando ganha. Ganhar audiência é um fenômeno, quando perde, para recuperar de novo, leva bem uns dez anos. É quase como se rompesse um contrato de fidelidade: o ouvinte está acostumado com aquilo ali, é aquilo que ele consome, aquilo que ouve, tem intimidade com aquele negócio, de um dia para o outro, bumba, nego vai embora e não volta nunca mais. Aí eu voltei para A Hora do Rush, e com o Vozes do Brasil. E lá estou há doze anos desde então. O Vozes já teve vários formatos diferentes e hoje, além de estar na Eldorado, está em quatro rádios no país. Então eu fiz uma pequena rede do programa [Salvador, Educadora; Curitiba, Lumen, Belo Horizonte, Inconfidência; e Santos, Litoral FM].
Como você escolhe os convidados?
Eu escolho muito pelo que estou gostando de ouvir naquele momento. Estava até conversando com o Luiz Tatit um tempo atrás, falando da transformação que a gente viu na música brasileira nos últimos dez anos e que eu vi acontecer ali. Porque, quando eu comecei no Vozes do Brasil, o pessoal que estava despontando são os que hoje são considerados já meio velhos, quase ultrapassados: Lenine, Chico César, Zélia Duncan, a Cássia... A Cássia não será ultrapassada nunca, que isso fique muito claro [risos]! Mas eu vi uma transformação gigante acontecer na música. Primeiro o fim das gravadoras, o jabá cada vez mais fraco, a música independente cada vez mais forte, o acesso ao estúdio, à gravação e ao suporte do disco cada vez mais fácil. Hoje uma qualidade inacreditável de boa música sendo feita. Só neste começo de ano, a gente está em maio, já posso dizer dez discos bons para caramba de música brasileira jovem, contemporânea.
Quais?
Karina Buhr, por exemplo. Um disco espetacular. Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, o disco novo do Maquinado, do Lúcio Maia, Patricia Polayne lá de Sergipe, que é bom pra cacete, que mais... Ah! Gente pra burro e só coisa boa!
Como você tem acesso a estas novidades?
Antes eu recebia pela rádio, agora como eu tenho feito o programa aqui em casa mesmo, tenho recebido aqui. Onde me encontram, me dão CD. É muito difícil eu voltar para casa de um lugar onde eu vá sem algum CD na bolsa. E por recomendação de amigos, compositores e desse pessoal mais velho que tem o pessoal da banda começando a fazer trabalho novo.
Quando assumiu a programação na Eldorado, você disse "não me dirige". Não dá para falar do que você não curtiu?
Não, eu não gosto. Se eu não gosto da música, eu prefiro não tocar do que colocar no ar e dizer que não está bom. Porque eu sei qual é o trabalho que dá fazer um disco e sei que cada universo é muito verdadeiro. Neguinho está fazendo aquilo acreditando naquilo, gostando daquilo: é a vida dele, o gosto dele, o jeito dele se expressar. Quem sou eu para detonar o cara? Dizer o que é bom, o que é ruim, 'não ouça': não! Cada um ouve o que quer ouvir. O que eu ouço, eu coloco no ar. E aí é esse filtro. Eu não tenho formação musical formal nenhuma, nunca fui muito persistente no estudo da música. No entanto, eu ouço música e trabalho com música há muitos anos. Tenho um filtro qualquer aqui que serve para dizer: 'este aqui é bom'.
Então tem como passar informação dessa forma? Expor um trabalho artístico e aí está também o jornalístico?
Claro, sem dúvida. Porque o meu filtro são os meus parâmetros. Para mim, a boa música conversa com o que já foi feito, mas que traz alguma coisa de original. É muito difícil. A gente tá ainda em 2010, pelo amor de Deus, é muito difícil você ouvir alguma coisa que nunca, jamais, em tempo algum você tenha ouvido, de uma originalidade que te cause estranhamento. Mas é desejável que o novo venha com algum frescor, com alguma informação diferente. Nem que seja na maneira de misturar aquilo que todo mundo já misturou. O tropicalismo aqui no Brasil deu o tom que a gente ouve até hoje no que tem de bom e de brasileiro. O brasileiro é misturador, é antropofágico, é inventor, vai no jeito, vai na gambiarra. O [guitarrista da banda Cidadão Instigado, Fernando] Catatau estava falando 'eu toco de um jeito diferente por que eu tenho muita dificuldade de tocar do jeito certo'. Então acaba saindo um negócio que ninguém mais faz.
Assim como ele, são inúmeros: o violão do Nelson Cavaquinho, por exemplo. É um violão espetacular, mas é sujo. O violão do Lenine: mesma coisa. O violão do Nando Reis, ele quase que arrebenta aquilo lá para tocar - muito maluco. A gente tem uma informalidade no trato com a música, uma dessacralização que acaba fazendo com que a gente seja, de maneira geral, muito original. E eu sempre procuro, quando ouço alguma coisa, também além do trato original, ‘cadê as referências?’. Porque você não pode fazer um negócio completamente desconectado do lugar de onde você veio. Quando você ouve uma música e não abre janelinha nenhuma, nada te leva pra lugar nenhum, é porque aquilo ali foi montado, é fake, é falso, você percebe a diferença entre um negócio que tem raízes, consistência, e uma outra coisa que é: ‘ah, vou fazer essa baladinha aqui que eu quero que toque na novela’.
E qual é a diferença entre as suas atuações? Você participou, por exemplo, do Conversa Afinada [programa da TVE Brasil]...
Eu não faço mais o Conversa Afinada e ele foi uma experiência diferente para mim, que eu falei 'não vão me dirigir' - eu tenho essa prerrogativa há muitos anos. Não sei nem como eu consegui, mas ninguém me dirige. E no Conversa Afinada, eu não fazia pauta. Foi o único programa que eu fiz na vida que eu não mexi na pauta. Então eu entrevistei artistas de universos muito distantes do meu. E foi aí que eu tive essa experiência: cada universo é um universo. Eu não toco no meu programa, mas eu respeito a criação. Agora, nos meus programas de rádio, no Vozes do Brasil, por conta das circunstâncias e de eu ter trabalhado sempre em rádio que nunca aceitou jabá, sempre tive liberdade. E sempre fui muito peituda: ‘eu vou tocar isso aqui’. ‘Mas por que você vai tocar isso? A gente não toca isso.’ ‘Tem que tocar porque tem qualidade’.
Também tem o Instrumental SESC...
Ainda trabalho. O Instrumental SESC Brasil é um projeto que eu adoro e está no ar no SESC. É o maior de maior audiência da SESC TV e gente incrível, como Edu Lobo, assiste à gente, sabe? Tem sempre esses depoimentos. São muito legais. E eu adoro fazer, porque eu acho que a música instrumental no Brasil é riquíssima e tem pouquíssimos espaços com essa liberdade de palco e de variedades que a gente tem no SESC. É um programa incrível, eu adoro. Eu sugiro algumas coisas ali, mas não tem muito conflito na pauta. O pessoal é bem ligado.
O que você lê?
Eu leio tudo. Leio dois jornais todo dia. Folha e Estadão, leio O Globo quando eu estou no Rio, leio O Estado de Minas quando estou em Belo Horizonte... Eu leio loucamente. Eu tenho uma compulsão: sou do tipo que põe o jornal pro cachorrinho fazer xixi e fala: ‘opa essa aqui eu não tinha lido ainda’ e fica ali agachada na área de serviço. Revistas, muito: adoro ler revistas. Revista feminina, a Trip, TPM, Rolling Stone, Bravo!, Veja, IstoÉ e Época... Eu leio quase compulsivamente. Leio todas as biografias que caem na minha mão: de Chet Baker e Cole Porter à Elizeth Cardoso, Elza Soares e Mário Reis. [Patricia tem um móvel onde guarda revistas e jornais na sala. Lotado, o objeto conta somente com revistas e jornais do dia e mês, os mais atuais possíveis.]
Fora do trabalho, você ouve música por prazer?
Ah, claro, por prazer total. O meu trabalho me dá muito prazer.
Não satura?
Olha, o que às vezes me cansa e, isso eu devo confessar, é ir em show sem parar. Eu tenho que ir em muitos shows. E tem temporadas que eu não consigo. Eu já fiz a seleção do Vozes, já fiz a seleção do Natura e eu tô trabalhando no release de não sem quem, sou curadora do Prata da Casa, faço consultoria da Enciclopédia de Música Brasileira do Itaú Cultural. Daí chega uma hora que acabou tudo, agora são 8 da noite, às 9 eu tenho que estar no SESC Pompéia pra assistir o show de não sei quem, eu falo: ‘Nãaaao. [risos] Não vou!' Já teve ocasião de eu ir em 3 shows na mesma noite. Então é bravo.
E o seu relacionamento com os entrevistados?
Essa coisa da entrevista começou comigo antes mesmo do Borghettinho, quando eu fui numa coletiva do Cazuza e eu fui carregando equipamento para a repórter com a promessa de não abrir a boca. Aí chegou lá no meio da entrevista, chata pra cacete, todo mundo falando umas coisas pentelhas. E eu com aquele monte de coisas na cabeça para perguntar para o Cazuza, chegou uma hora e eu levantei a mão, ele olhou pra mim e achou já bonitinha, divertida... [risos] E eu perguntei aquela história [se tinha influência na música dele] da Dolores Duran e do Lupicínio Rodrigues. Ele amou a pergunta e passou a conversar só comigo, até o final da entrevista [risos]. Foi delicioso. Saí de lá nas nuvens. Pensando que era isso que eu queria fazer da minha vida, chegar nessas pessoas que eu adoro, descobrir se é isso mesmo que eu estou pensando, se eu estou viajando, sabe? Essa primeira entrevista informal com o Cazuza me deu o tom das coisas. Quando você vai fazer uma entrevista e você mostra pro cara que você tem intimidade com a obra dele, ele se desarma imediatamente. E aquilo cria uma cumplicidade quase instantânea.
Quais entrevistas que te marcaram?
A entrevista que eu fiz com a Cássia [Eller] para o livro Vozes do Brasil [vol. 1, Patricia publicou dois livros com reportagens levando o nome do programa] foi muito importante para mim, porque a Cássia... sou fã total dela, admiro ela pra caramba. Acho que ela é uma das maiores intérpretes que a gente já teve de todos os tempos aqui no Brasil. A entrevista que Itamar Assumpção me deu também foi maravilhosa. Itamar tinha uma coisa comigo. No começo, eu tinha medo dele e, no fim, era a única jornalista que ele recebia. Então foi muito bacana.
Todas as entrevistas que eu fiz para o Vol. 1 do Vozes do Brasil foram muito transformadoras. Pelo motivo mesmo que eu estava lá, por estar fazendo o meu primeiro livro. Tudo isso era muito impactante e, por conta da escolha das pessoas, dos artistas que tavam ali, que eram todos muito próximos, foram escolhas muito afetivas. Outra entrevista que eu fiz e que pra mim foi muito marcante, foi uma entrevista que fiz quando era muito menina ainda, com o Cauby Peixoto. Ele deu uma entrevista pra mim na rádio e eu levei todos os LPs dele pro estúdio. Ele ficou muito feliz com aquilo e me deu uma entrevista muito bacana, mas tinha momentos que ele se voltava pro microfone e falava para as fãs dele - uma coisa dos tempos de Rádio Nacional. Aquilo foi muito emocionante pra mim. A dona Edith do Prato, conhecer uma mulher como ela foi incrível.
Tem alguém que não deu pra entrevistar e você queria?
Ah, uma coisa divertida de alguém que não deu é a Marisa Monte. Em 20 e tantos anos de carreira, a primeira entrevista que eu fiz com ela foi no final do ano passado, porque eu estou fazendo um projeto para Natura que patrocina ela. Antes disso, nunca consegui. Sei lá eu porque [risos].
E seu projeto com a Natura, o que é?
A Natura é um projeto que eu levei pra eles faz uns três anos, mais ou menos. Eu sou conselheira da SOS Mata Atlântica e o Pedro Passos, que é um dos presidentes da Natura, também é. E aí, a gente tomando um café e ele: ‘a gente tá querendo fazer rádio’ e eu: ‘se for fazer rádio, tem que fazer comigo’, brincando com ele, tomando um café, e saí andando. Uma semana depois, a secretária dele me liga para a gente ter uma reunião [risos]. E aí eu inventei essa coisa de fazer um programa que falasse sobre a composição e eles desenvolveram a ideia com profissionais de imagem e conteúdo. Eles têm um monte de profissionais envolvidos na marca Natura Musical. E saiu esse formato que está no ar agora, que são boletins pequenos e um programa mensal de meia-hora. E tem todo o portal, que o conteúdo que gero para a rádio acaba indo para o portal também, mas eu só faço a parte de rádio.
E daqui pra frente? Você tem mais planos?
Ah, tenho. Eu quero continuar o Vozes, o projeto do livro, eu quero fazer o Vol. 3. Tenho a ideia de fazer uma biografia. Como eu consumo muito as biografias de música, quero fazer uma também. Uma não, várias, né? Mas eu acho que agora eu não vou conseguir parar para escrever, porque eu estou, realmente, fazendo muita coisa. Programa de música instrumental, programa de rádio que vai para um monte de emissoras, o blog da internet que dá trabalho também [risos], o programa com a Natura, essa coisa da curadoria pra um monte de coisas, que toda hora me chamam, um release que toda hora eu escrevo. Então não tenho tido muito tempo pra parar e escrever.
Quem seria o biografado?
Ah, meu, não sei ainda. Eu estou com algumas ideias na cabeça, mas... [risos] uma hora eu conto!
Comentários Postados
Originalmente publicado em http://vitroleiros.org/geral/patricia-palumbo-vozes-do-brasil-radio-eldorado-musica-jornalismo/.
Olá! gostaria muito de saber se poderia levar uma pessoa sua fã que gostaria de conhecer vc e a radio, mas antes precisaria da resposta para pedir autorização, pois ela tem problema mas sabe tudo do seu programa.Somos de Vitoria-ES.Tirei a foto da arvore natal da Gazeta, mas ela queria ir a radio.Obrigada
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