A iluminação caiu e as pessoas começaram a aparecer em Paraty. Quase todas elas com uma câmera na mão – “Canons” e “Nikons”, as fachadas da colonial cidade. A tarde estava tímida e a luz convidava a uma caminhada fotográfica. Talvez o motivo fosse o vazio. Além do mais, eles estavam lá e não aqui, em São Paulo. Estavam nas pedras tortuosas que configuram e dão vida aos casarões e casebres.
A quinta-feira, ou o segundo dia do evento Paraty em Foco estava assim, calmo e organizado, com várias exposições nas casas, palestras e workshops. A cidade respirava fotografia. Não se falava em outra coisa pelos cantos: o diafragma tal, a objetiva tal, a frase tal, a foto tal.
À palestra da inglesa Maureen Bisilliat, ministrada na Casa da Cultura, chego atrasado e sem ingresso – estavam todos esgotados. Mas a sorte me permitiu entrar de última hora, pelas mãos de Iatã Canabrava, organizador do evento. Sem me conhecer, embora tivesse batido um papo com eles horas antes, ele me ofereceu um convite que estava sobrando. E assim, na segunda fila, tive uma aula sobre amor à arte de fotografar, sobre a vida, as pessoas, o respeito pelo tempo e por todos os indivíduos que envolvem o processo da criação e execução de uma exposição fotográfica.
Um vídeo sobre a exposição que saiu de cartaz recentemente do prédio do SESI/FIESP, na Avenida Paulista, abriu a palestra. A platéia se emocionou com a edição e com a linda música que nos guiou pelas salas do SESI. Serena e muito aplaudida, Maureen subiu ao palco para ensinar e aprender, como ela mesma afirma: “Aquele que ensina, recebe muito”.
Então, só silencio. Se estivesse com minha câmera na mão, teria feito uma foto de Maureen que, estática e emocionada, olhava para a grande tela a iluminar levemente o seu rosto. Ela estava de preto, com um cachecol azul Ives Klein no pescoço. Na foto, apareceria somente a sua face, quase uma penumbra, um vulto. Ficou na memória.
O vídeo terminou e Maureen disse o quão importante é a equipe que faz a criação e montagem do espaço da exposição, a qual no início questionou muito sobre alguns detalhes do ambiente, que o cenário não retratava o espírito da foto. Porém, quando a exposição ficou pronta, o encanto e a magia se fizeram presentes. Tudo se encaixou.
Durante quase duas horas, Maureen encantou a platéia com sua simplicidade e simpatia. Aos poucos, ela desvendou os seus mistérios, o olhar e o pensar que fazem dela uma grande fotógrafa e estrangeira. Como o fotógrafo e etnólogo parisiense, Pierre Verger, ela também compreende a alma do Brasil. Impressionante.
O que se viu e ouviu foi a história da imprensa brasileira numa época em que fotógrafos e jornalistas saíam a campo para o trabalho, em que a câmera usada era a que tinha na editora ou na revista (Abril, Realidade, Quatro Rodas). Isso sem contar que, às vezes, tinha que fazer uma reportagem com apenas um filme de 36 fotogramas – e fazíamos. Os filmes eram “muitos”: ou o plu-x ou o tri-x. Risos da platéia.
Nos últimos vinte minutos da palestra, quando o calor abafado do espaço começou a incomodar a platéia, Maureen fechou a noite dizendo que o fotógrafo precisa saber chegar ao espaço onde irá trabalhar. Ele precisa saber quando é o momento de falar, de ouvir, de ver e de fotografar. Entender que o índio já sabe quem você é, antes mesmo de você se apresentar.
Leia resenha da palestra de Alfredo de Stefano
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