O trabalho do fotógrafo Alfredo de Stefano leva o olhar do espectador a uma profunda reflexão. Suas fotos – herméticas – buscam trazer à tona uma grande discussão sobre tempo, a força da natureza, do que aconteceu há séculos passados, do homem das cavernas, das grandes destruições, da falta de água, do efeito estufa.
A inquietude de suas imagens provoca agonia e insegurança, apesar do lindo cenário do deserto do Atacama, Saara, Austrália, Egito e tantos outros. Movem o espectador para o seu próprio deserto, o interior calado, um espaço silencioso e adormecido.
Nuvens, céu azulado, fim de tarde, sol do meio dia: este é o cenário onde o artista trabalha com pequenas intervenções. São pedras, ossos de dinossauros, lanternas escondidas, escadas, algodões. Sua mente nos leva a um universo de beleza e agonia – afinal, elas andam juntas na vida do homem.
Em uma conversa com a platéia, no Paraty em Foco, o fotógrafo abre as portas de suas idéias e diz que uma paisagem sem uma intervenção não diz nada, não leva o homem à reflexão. O que ele busca é cutucar o espectador e tentar tirá-lo do seu estado de letargia. O belo da natureza deve se contrastar com a força de suas instalações – um precisa do outro, como em tudo na vida, pois se existe o branco, existe o preto, se há água, há fogo. Amor e ódio.
Infelizmente a platéia se preocupa em perguntar quais os truques, a técnica utilizada para acender uma árvore, por exemplo, como faz para que as pegadas desapareçam. Tudo isso quando há tanto a questionar. O que espanta é que os fotógrafos que estão na sala também se mantêm em silêncio. Eles, que tanto pesquisam, que entendem de fotografia, de estética e linguagem, não contribuem para que a entrevista se torne ainda mais interessante e instigante. O que será que acontece? O que este silêncio significa?
A letargia da sala pode ser um reflexo do que está acontecendo hoje no mundo, no Brasil. Estamos em um momento de decisão política, de transformações, de Tiriricas e agressões/Netinho, da quebra de sigilo fiscal. E, mesmo assim, eles serão eleitos. É o que diz a pesquisa. Ninguém grita. Pelo contrário: todos dormem o sono dos anjos, como se não estivesse na hora.
O que teremos é a continuação da fome, da pobreza. Triste daquele que pensa que está melhor com uma bolsa família.
Ao observar as fotos de Stefano, no telão da Casa da Cultura em Paraty, e o silêncio da maioria que está ali – inclusive o meu –, percebe-se o deserto que há em nós nesse momento. Talvez no mundo. E as instalações criadas por ele representam metaforicamente a figura do homem.
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