A autobiografia de Marcelo Rubens Paiva

Durante um passeio, tomado pela vontade de se aventurar aproveitando o momento de descontração, um jovem chama atenção daqueles que o acompanham. No auge dos 20 anos, prepara-se para dar um pulo “estilo Tio Patinhas” em um lago. Mergulho interrompido pelo barulho da moedinha e a agonia de não conseguir voltar à superfície. Assim começam os relatos autobiográficos de Marcelo Rubens Paiva em Feliz Ano Velho, publicado em 1982.
A cena segue mostrando a preocupação dos amigos, correndo para socorrê-lo até a entrada no hospital. Momento que cessa devido a uma breve descrição da infância e adolescência do autor. A narrativa não-linear intercala o cotidiano do escritor durante hospitalização com os momentos vividos até o dia do acidente, contando cada parte do tratamento - da elevação da maca, que se dá aos poucos para não prejudicar a coluna lesada, até a volta para casa.
Sem saber se os movimentos do corpo voltariam, fala sobre o desespero sentido e tédio proporcionado pela monotonia do hospital. A todo instante, porém, contava com a ajuda de pessoas que o visitavam durante o processo de recuperação - familiares, amigos e ex-namoradas. Os bons momentos do tratamento não são deixados de lado, como a primeira vez em que contempla a vista da janela em uma das elevações da maca e a “organização” dos amigos que o levam para um passeio de carro.
As histórias vividas por Marcelo Rubens Paiva antes da tragédia evidenciam o quanto aproveitou cada instante de sua vida. Universitário, estudante de Engenharia Agrícola na UNICAMP, fala sobre as festas com os amigos, a relação com a música e os vários “namoricos” – como ele mesmo diz em uma passagem da obra: “Dei sorte na Unicamp, com um sorriso bonito e esse meu machismo liberal”. Apesar de todo bom humor que ambienta as descrições do dia a dia, o escritor carregava um trauma de infância, relatado no livro. O pai, Rubens Paiva, vítima da Ditadura Militar, foi tirado de casa, na frente da esposa e filhos.
Feliz Ano Velho oscila entre momentos de otimismo e pessimismo. O tom informal empregado proporciona uma leitura descontraída - embora o tema não seja feliz - como se fosse um relato de um amigo próximo. Em nenhum momento, o autor se coloca na posição de vítima - não quer ser mais um exemplo de superação. Embora não seja a intenção, a obra passa uma lição de vida, como se aconselhasse o leitor a valorizar os momentos, mesmo se o resultado de uma aventura arriscada terminar mal.
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