João do Rio moldura o quadro social do homem carioca e sua fé
João Paulo Coelho Barreto, ou mais conhecido como João do Rio, é um afamado jornalista e cronista por conta de seu livro “Alma encantadora das ruas”. No entanto, sua consagração vem com a série de reportagens “As religiões do Rio”, publicada entre janeiro e março de 1904 no jornal Gazeta de Notícias. Conhecido como um dos maiores - senão o maior - flâneur da cidade maravilhosa, João do Rio traz na sua produção a grande sensibilidade de um sociólogo de rua, a aptidão para identificar características essenciais da cidade e seu povo.
Essas qualidades, somadas a bons atributos jornalísticos, repercutem em uma intensa investigação: só para escrever o primeiro capítulo de “As Religiões do Rio”, o autor conviveu meses com feiticeiros - O que exprime também que João possuía facilidade para obter a confiança dos entrevistados e a capacidade de se camuflar no ambiente. O que exprime também que João possuía facilidade para obter a confiança dos entrevistados e a capacidade de se camuflar no ambiente. Dessa forma, o resultado de seu trabalho é um texto informativo e humano, com uma visão profunda sobre o aspecto misterioso e sinistro das religiões.
Durante a apreciação do livro, o leitor entra em casas de candomblé e se depara com pais-de-santo reais e também falsos, participa de rituais de feitiçaria, entende a filosofia da igreja positivista, os dois lados do movimento evangélico e também conhece sacerdotisas do futuro, cultuadores do mar, amantes do Diabo e bebedores de sangue. Fazem parte dessa viagem o acompanhamento de uma cerimônia de um padre exorcista, histórias sobre judeus, espíritas, além de religiosos mais exóticos, como swendenborguianos (seguidores de Emanuel Swedenborg), fisiólatras e outros grupos que se embrenham pelas periferias de um Rio de Janeiro do início do século XX.
Tudo isso com a fluidez da escrita de João, que é recheada de diálogos com líderes que defendem a sua verdade única, com crentes revelando histórias fantásticas, além de descrições detalhadas dos templos e das figuras com as quais se depara o jornalista. Com o rigor que as faz, o autor nos permite ver através de seus olhos, como quando ele observa a diversidade de pessoas presentes em uma Igreja Evangélica Batista:
“Há senhoras que parecem da vizinhança, em cabelo e de matinée; crianças trêfegas; burgueses convictos, sérios e limpos; nas primeiras filas, operários, malandrins de tamancos de bico revirado, com o cabelo empastado de cheiros suspeitos, soldados de polícia, um bombeiro de cavanhaque, velhas pretas a dormir, [...] e, para o fim, na porta, gente que subitamente entra, olha e sai sem compreender.”
E não seria uma obra de João do Rio se não fosse perceptível, durante a leitura, a sua presença ativa e constante. Com algumas pitadas de ironia, ele traça um retrato antropológico da cidade em que vivia: apresenta sem receio as suas impressões, reflexões a respeito da relação de si mesmo com o exterior, e experiências espontâneas. “E com o hierofante à frente, todos deslizaram pelo corredor escuro. Eu os seguia como a sombra de seus mantos. De repente, pararam a um sinal seco e eu retive um grito”.
Ademais, ele arrisca colocar nitidamente seu traço espiritualizado na narração, deixando claro sua crença nas diversas e variadas verdades que ouviu. Ele chega até a elogiar o caráter de um chefe religioso: “Jovelino Camargo desapareceu na sombra, enquanto eu, olhando o céu, rendia graças a Deus por haver ainda neste tormentoso mundo quem, por seu amor, ame, respeite e seja honesto.”
Então, o jovem jornalista, na época com apenas 25 anos, preza pela exatidão das informações e, ao mesmo tempo, enche seu texto de estilo. Desenha um quadro social de uma época em que o estado fluminense se transformava. Revela ao leitor de jornal, pela primeira vez, o bom, o mal e o bizarro dos ritos e crenças, apresentando personagens que se encontram em um dos momentos mais íntimos que o homem pode estar.
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