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03/09/2010 - 16h02 - Atualizado em 20/05/2012 - 14h57

Rebelde e transgressor

Guilherme Peres, 3º ano de Jornalismo

Claudio Willer, um dos "novíssimos" dos anos 60, fala sobre a crítica brasileira e a postura do jornalismo

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Divulgação
Claudio Willer diz não ser saudosista e assume que os antigos
críticos cometeram tantos erros quanto os atuais

Desde os anos 50 o cenário da literatura paulistana – mais precisamente o da poesia – estava imerso no movimento concretista. A revista Noigandres, idealizada pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, juntamente com Decio Pignatari e José Lino Grunewaldt, era o auge desse movimento que execrava o acaso e a abstração lírica. Defendendo a valorização da forma sobre o conteúdo no pressuposto de criar uma nova linguagem, os concretistas tiveram como adeptos nomes grandes da poesia brasileira como Ferreira Gullar, seu precursor, e o curitibano Paulo Leminski.

A população, por sua vez, começava a absorver influências vindas do exterior, as quais marcariam o jeito de ser de toda uma geração. O estilo do rock italiano e americano faria, mais tarde, a Jovem Guarda explodir e marcar a vida dos brasileiros. Esta era também época do auge da industrialização, com o fim da era Vargas e o período político agitado que levaria aos “50 anos em 5” de Jucelino Kubitschek. Em meio a tudo isso, havia um pedaço da juventude que não se encaixava muito bem nos moldes estabelecidos e procurava, de uma maneira ou de outra, se encontrar, nem que, para isso, eles precisassem se perder de alguma forma.

É nesse contexto que se inicia a produção intelectual de Claudio Willer. Influenciado pelas obras de Arthur Rimbaud, Allen Ginsberg e Jack Kerouac, o espírito beat fez com que sua literatura – e também a de seus colegas Roberto Piva, Luiz Costa Lima e Décio Bar – se tornasse parte da produção que ficou conhecida como a “poesia maldita”, opondo-se ao formalismo e à estética do concretismo. O quarteto se encontrava em bares ou praças e liam seus trabalhos em voz alta, principalmente para os colegas, mas também para quem quisesse ouvir.

Beirando o movimento de contracultura que surgiria a seguir (década de 1960), os poetas novíssimos mantinham-se influenciados pelo surrealismo e fundaram uma escola própria, como afirma o próprio Willer em matéria da Revista Agulha:

“Nem éramos formalistas, nem conteudistas, nem militantes ortodoxos, nem trancafiados em torres de marfim; além disso não adotamos a direção nacionalista e a busca da especificidade brasileira: na dualidade regional/universal, tomamos o partido do universal e tivemos uma postura coerente de cosmopolitismo, poetas que eram de uma metrópole emergente, afirmando seus valores em recitais onde não faltava a crítica radical à burguesia, com poemas de inspiração neo-romântica e marxista, reformista ou revolucionária”.

Nascido em 1940, Claudio Willer é poeta, ensaísta, crítico e tradutor. É graduado em Ciências Sociais e Políticas pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e em Psicologia da Universidade de São Paulo. Doutor em Letras, Willer trabalha desde 2008 em seu pós-doutorado. Entre os diversos cargos públicos que ocupou, relacionados à cultura, foi também presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), de 1988 a 1992, e novamente de 2000 a 2004.

 Ao longo de sua vida, Willer publicou oito livros envolvendo prosa (Volta, 1996), poesia (Anotações para um Apocalipse, 1964; Dias Circulares, 1976; Jardins da Provocação, 1981; Estranhas Experiências e outros poemas, 2004 e Poemas para se leer en voz alta, 2007) e ensaios (Geração Beat, 2009 e Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia moderna, 2010). O fato de entender cinco línguas, além do português, auxiliou na tradução e organização de autores como Lautréamont, Antonin Artaud e Allen Ginsberg.

Sua colaboração na mídia começou em 1978, na revista de resistência à ditadura Versus. Depois passou pelos jornais Folha de São Paulo, Correio Braziliense, Jornal do Brasil e Jornal da Tarde, além das revistas Isto É e Cult. Foi a partir dessa experiência em crítica e literatura que, de seu apartamento na Rua Peixoto Gomide, Claudio Jorge Willer comentou sobre a atual crítica literária brasileira e a postura do jornalismo.

 

O senhor acompanha a crítica literária nos meios de comunicação impressos (jornais, revistas etc.)? Qual sua impressão dessa crítica? Qual foi grande diferencial da Revista Agulha, do seu ponto de vista, em relação aos veículos da grande mídia?

Sim, vejo o que sai em jornais diários e revistas semanais. Impressão geral é de que se trata de uma pobre coisinha medíocre, aleatória, sem parâmetros, oscilando entre o interesse para o mercado e o valor literário, mas com uma oscilação arbitrária. Um problema é a redução de espaço para a crítica, concomitante ao crescimento do número de títulos publicados.

Arrumando papéis, achei exemplares da Isto É na qual colaborava em 1987: davam cinco a sete livros por semana, entregues a críticos qualificados. Hoje, na mesma Isto É, não tem nada. Acabaram bons cadernos de leitura e critica, como aquele do Jornal da Tarde. Outros encolheram. Já a Revista Agulha parou de sair. Sobrecarregava-nos, a Floriano Martins e a mim. Mas os exemplares publicados continuam disponíveis na internet.

Creio que o diferencial era uma postura voltada mais a ensaios que propriamente à crítica que acompanhasse lançamentos, novas publicações. Há outras revistas no meio digital, como a Germina e a Cronópios – com alguma crítica de qualidade. Além de revistas literárias com tiragens menores no exemplo da Cult.

 

O senhor acha que esse encurtamento e desaparecimento das seções de críticas nos jornais e revistas ocorreu por qual motivo? O senhor acha que essa redução pode desestimular novas produções literárias?

Motivo econômico, principalmente. Jornal da Tarde, por exemplo, tinha um bom caderno de leituras, mas foi diminuindo, diminuindo... Até acabar, na década de 2000, com reformulação do jornal, que era deficitário. É uma questão de mercado. No show business rola mais grana. E aparenta dar mais Ibope. Mas tudo caiu de qualidade – matérias sobre shows, programas de TV a cabo etc., também são pobres.

Não acho que vá desestimular. Está cheio de gente escrevendo – e publicando onde dá – cada vez mais. E crítica jornalística nunca deu bem a nova produção, sempre prestou mais atenção ao que vinha das grandes editoras.

 

O que caracteriza uma boa crítica literária e o que a pessoa precisa ter de conhecimento para fazê-la?

Tem que saber do que está falando. Dou um exemplo: certa vez uma editora me pediu parecer sobre uma biografia de Kerouac, se eu achava que deveriam publicá-la aqui ou não. Acompanhavam-na duas resenhas na imprensa norte-americana: uma era de Joyce Johnson, que foi namorada de Kerouac e autora de Minor characters, livro improtante sobre a beat. A outra, de um autor de obra improtante sobre boemia literária do período. Lá, é assim – meios de comunicação tem um elenco de especialistas em cada área.

Aqui, cada vez mais, vão distribuindo pautas para recém-saídos da faculdade, recém-chegados à redação. A moça do JB me entrevistando sobre Ginsberg: “Ih, não deu tempo de ler...” (referindo-se à minha tradução de Ginsberg) – claro que assim fica difícil sair algo aproveitável. O que tem de erros de tradução evidentes, que passam batido... Antes, muito crítico trabalhava em cima do caderno de releases mandado pela editora; agora, aproveitam o que conseguem catar no Google.

 

Qual sua impressão da literatura atual, incluindo a produção poética, em especial a brasileira? Existe falta de produção de qualidade ou de leitores?

Não tenho condição de avaliar “a literatura atual”, assim genericamente, Sei que tem muito poeta novo de qualidade. Mas sou um leitor muito especializado – não seria capaz de fazer balanços gerais. Tirei o corpo fora, este ano, de um desses grandes concursos literários por esse motivo: não estou acompanhando tudo o que sai.

 

Onde escritores têm pecado e acertado em relação à produção literária? E a crítica? Onde tem errado e acertado?

Dizer onde erraram ou acertaram é genérico. Não dá para julgar “os escritores”. Literatura é plural, tem que achar o que interessa. Idem com relação á crítica: responsabilidade não é exclusiva dos que escrevem crítica sem qualidade, porém das empresas jornalísticas e de seus editores.

Mas um adendo importante: não sou saudosista. Não estou dizendo que crítica do passado era necessariamente melhor. Críticos escrevem besteira desde o início da crítica jornalística, como Sainte-Beuve, que não levou Baudelaire a sério. Aqui, desde Silvio Romero fazer restrições a Machado de Assis até Romero, junto com José Veríssimo, execrarem Cruz e Souza e o simbolismo.

 

 Como era o trabalho e a formação desse crítico do passado?

Eclética, mesma de hoje em dia. Se bem que hoje existem menos colaboradores externos e mais seres humanos da redação, para economizar pagamento de colaborações.

Publiquei bastante resenhas na Isto É, de 1986 a 89 – outras matérias eram assinadas por Silviano Santiago, professor e crítico, Augusto Massi, idem, Sonia Goldfeder, jornalista, Marco Aurélio Garcia, professor e cientista político, Regis Bonvicino, poeta e por aí vai.

 

Enquanto publicava resenhas e críticas, que postura o senhor adotava na hora de escrever sobre os livros e autores? Antonio Candido falava de uma "crítica funcionalista". O senhor tem algum método na hora de escrever?

Método? Não sei... Acho que algum leitor ou estudioso deveria verificar isso, examinar o que publiquei e verificar se há método. Em resenhas não há muito o que fazer, a não ser ler o texto da obra resenhada atentamente. Em ensaios, tenho notoriamente um viés surrealista, mas sempre defendi a pluralidade de paradigmas.

Eu ainda publico quando me pedem, desde que interesse. Ultimamente, mais em revistas no exterior, em países da América Latina. Mas acredito que livro é muito mais importante – permanece. Pelo mesmo motivo tenho encaminhado muita coisa para publicação no meio digital: ficam à disposição do leitor, indefinidamente.

 

Atualmente o senhor passou a ministrar palestras e oficinas literárias. Como são estas palestras e oficinas? Quais tópicos o senhor aborda e como os desenvolve? Onde são ministradas? Existem parcerias ou colaborações?

A didática é mais uma conversa com os participantes, recomendando e comentando leituras. Tem havido resultados ótimos, no sentido de estimular a criar e a ler.  São todas ministradas em casas de cultura, bibliotecas etc – claro que com apoio de instituições, secretarias de cultura – se não, como seria possível?



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