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01/09/2010 - 16h37 - Atualizado em 19/06/2013 - 07h18

A trindade unificada

Lidia Zuin, 3º ano de Jornalismo

Prof. Dr. Thomas Bauer, da Universidade de Viena, mostra em seu discurso como a tríade comunicação, sociedade e cultura é interdependente

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Danielle Denny
Membros do Grupo de Pesquisa Comunicação e Cultura do Ouvir junto do palestrante Prof. Dr. Thomas Bauer. Da esquerda para direita: Irineu Guerrini, Maria Helena Charro, Magaly Prado, Luis Fernando Vitral, Sérgio Pinheiro, José Eugênio Menezes, Rodrigo Fonseca, Thomas Bauer e Eliane Calixto

Nesta terça-feira, 31, esteve presente na Faculdade o Prof. Dr. Thomas Bauer, da Universidade de Viena. Antes de ministrar a conferência Media Literacy, Bauer apresentou suas pesquisas em educação midiática e educomunicação, feitas na Europa, para o Grupo de Pesquisa Comunicação e Cultura do Ouvir, coordenado pelo Prof. Dr. José Eugênio Menezes.

Bauer iniciou seu discurso fazendo comparação entre como a comunicação é vista na Europa e no Brasil. “Os brasileiros vêem a mídia de uma maneira cultural, como um meio de cultura e de vida, enquanto nós somos mais tecnicistas e analíticos”, diz. No entanto, o professor prova que, em sua visão, não é possível desassociar cultura de sociedade e de comunicação. Isto é, Bauer defende que a comunicação serve como uma forma de ajudar o indivíduo a se entender dentro do coletivo, inserindo-o na sociedade. “Entendo a mim mesmo para entender o outro. Eu vejo um espelho no outro, mas não me vejo nele. Quando me olho no espelho, vejo a forma como me enxergo, não como sou”, explica.

Significa que, se o indivíduo olha para si mesmo e se entende, este também é capaz de compreender a sociedade. Para Bauer, esta é uma das funções da ciência da comunicação. “Ela funciona como um open source das pessoas que tentam encontrar uma situação para definir. É como na teologia, em que os humanos procuram saber quem eles são, de onde eles vieram”, compara. Até porque, a definição dos sentidos é variável de acordo com uma decisão cultural, do conhecimento de uma sociedade. “Dependendo de nossa bagagem, podemos dizer que o louco é saudável e o saudável é louco. Tudo depende de um sistema de referências que possui variáveis como nação ou etnia, por exemplo. Mas são fatores analisáveis, mensuráveis.” A comunicação por si, Bauer diz, não possui uma nação.

Assim, a esfera pública, além de necessária, é também algo pautado pelas instituições, pela mídia. A educação midiática visa mostrar o caminho de implantação das idéias. Uma das experiências de Bauer foi feita numa pequena cidade da Áustria, tendo como questionamento o efeito da mídia sobre as pessoas. “A gente queria que as pessoas se sentissem pesquisadoras também. Por isso, pedimos para que elas fizessem um filme da maneira que achassem interessante para nós”, conta. Acostumados com uma cultura televisiva, romantizada, os participantes da pesquisa queriam que os outros vissem o lado bom de suas vidas, como na TV. “Quando eles viram um programa em que as pessoas eram filmadas apenas por uma câmera parada, numa única dimensão, a emissora começou a receber telefonemas com reclamações de que era insuportável assistir àquilo. Mas aquela era a vida de verdade.” Isso só provava como os moradores da cidade não possuíam muita noção sobre as lógicas da mídia. Por isso, eles começaram a incentivar as escolas a implantar a comunicação midiática.

O vídeo como um meio de consciência

Para Bauer, o vídeo – logo, também a televisão – dá às pessoas a chance de serem jornalistas mais facilmente. Quando se entende o processo de produção de um vídeo, compreende-se também o que há por trás da mídia, como funciona o corte, a montagem, o roteiro. “Percebe-se a realidade construída, a realidade mediada, midiatizada. Assim, a pessoa deixa de ser uma vítima”, diz o professor.

Para pôr isso em prática, Bauer precisava fazer com que as pessoas, em comunidades, produzissem vídeos e, por conseguinte, compreendessem as estruturas da mídia. Numa experiência, na qual havia jovens imigrantes turcos e iugoslavos, os semelhantes se aproximavam e produziam imagens a respeito de suas vidas. “O interessante é que, em seu cotidiano, estas personagens não eram muito ligadas às tradições étnicas. Mas, nos vídeos, eles mostravam músicas tradicionais, por exemplo, porque se sentiam conectados dessa maneira”, comenta.

Foi assim que a pesquisa do austríaco se deslocou dos estudos de mídia para uma análise de tópicos transversais como religião, cultura e tradição. “A vida é feita pelo discurso, por uma representação veiculada pela mídia. A sociedade só é aquilo que falamos sobre ela. É uma figura gerada pela comunicação, que é o ambiente da sociabilidade”, explica Bauer.

E para saber o que se anda falando da sociedade, Bauer investigou, na Universidade de Viena, como a TV e a rádio universitárias trabalhariam os discursos midiáticos de acordo com os interesses da sociedade, como os legitimariam. “A TV e o rádio são veículos autoritários, porque você não pode responder. Existe uma hierarquia e um discurso teatral”, disse o professor, fazendo referência a Foucault e Vilém Flusser, respectivamente.

Para entender o impacto do discurso midiático, Bauer cita a Okto TV, que é um grupo de 96 comunidades produzindo TV durante 24 horas por dia, com o diferencial de que ninguém ali é jornalista. Financiados, também, pela Universidade de Viena, os funcionários da Okto não recebem salário. “Se nós pagássemos, voltaríamos a propor o sistema vigente. E não é isso que queremos”, afirma o professor. Dentro dessas comunidades, existem grupos que se aproximam de acordo com etnia, função e ideologia.

Lá é discutido o valor-notícia e, para isso, as próprias notícias são transformadas em notícia: pessoas são questionadas a respeito da importância e do significado que as matérias jornalísticas têm para elas. Dessa forma, é possível de se verificar o que há de novo na concepção de notícia e ainda reforçar a sensação de que os entrevistados também fazem parte da pesquisa. “As notícias existem porque elas são surpreendentes ou interessantes, mas a TV funciona de acordo com um padrão, técnica, sensibilidade para com o banal e também sensacionalismo. É preciso desfetichizar o processo”, diz Bauer.

Além de tudo isso, a mídia trabalha com a teoria dos papéis sociais para buscar a sociabilidade, a identidade através da congruência. “E há uma expectativa de completude, que na verdade, é autoritária. Eu tento encaixar o outro numa identidade não para ajudá-lo a se identificar. Eu faço isso para mim mesmo, para eu simplificá-lo e entendê-lo”, explica Bauer.

Ao fim da apresentação, o professor respondeu a algumas perguntas feitas pelos participantes do grupo de pesquisa. Algumas, mais específicas, foram respondidas durante sua apresentação feita à noite, na sala Aloysio Biondi, sob o título de Media Literacy. Bauer continuará no Brasil por mais um tempo e será entrevistado para a próxima edição da revista eletrônica COMtempo, publicação gerenciada pelo Programa de Pós Graduação da Faculdade Cásper Líbero.