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27/08/2010 - 16h16 - Atualizado em 18/05/2013 - 03h12

Cibercultura como arte, ativismo e informação

Lidia Zuin

Primeiro encontro do Laboratório de Tecnologia em Comunicação e Mídias Digitais reúne diferentes profissionais

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Organizado por Daniela Osvald Ramos, Magaly Prado e Rodrigo Esteves de Lima, o primeiro encontro do Laboratório de Tecnologia em Comunicação e Mídias Digitais, do Centro Interdisciplinar de Pesquisa (CIP), trouxe para debate assuntos variados que cabem no contexto da cibercultura. Como primeiro palestrante, foi escolhido o Prof. Dr. Luís Carlos Petry, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), o qual tratou das “Novas fronteiras do ciberespaço: da hipermídia aos games, uma abordagem ontológica”.

Sua fala iniciou a partir do dilema entre a ciência e a arte, que, por coincidência, esteve presente em sua vida. Conforme ele revelava sua trajetória pela psicologia, filosofia e psicanálise, Petry afirmou sua apreciação pela arte e pela tecnologia, que, enfim, foi unir mais tarde, quando a internet começou a se desenvolver e foi fundado o consórcio W3C (World Wide Web Consortium), por Tim Berners-Lee. Assim, ele trouxe aos slides uma série de referências teóricas estrangeiras, como M. Heim, Heidegger, S. Turkle, J. Murray e L. Manovich, e nacionais, como Ernildo Stein e Lucia Santaella.

Petry explicou brevemente um dos significados da palavra ontologia, relacionando-a ao contexto da internet. “Cientistas da computação precisam saber, além do fundamento dos processos computacionais, as consistências lógico-filosóficas também”. Assim, ele deslocou para o assunto das inteligências artificiais. “No caso das IAs, nós chamamos de comportamento inteligente quando ele parece ser inteligente. Uma entidade sintética pode ter um comportamento responsivo ou ativo que aparenta ter inteligência, quando, na verdade, existem níveis dela”, explicou. Isso significa que quando uma inteligência artificial possui uma consciência senciente (capaz de ter sensações, mas não auto-consciente), há uma nova concepção de hipermídia, de construção de mundos digitais interativos.

Mas antes de parecer utópico, Petry traz Heidegger como fundamento à crítica cibernética. “Precisamos tomar cuidado, porque quando a técnica escapa da realização do homem, ela se torna ditatorial”, disse, emendando seu discurso com o outro lado da moeda, citando a Teoria da Interface, de Manovich, o qual corrige o pensar apocalíptico de Heidegger e toma o computador como prótese das capacidades humanas. “O iPad, por exemplo, é uma grande revolução. É um deslocamento do artista, que sai do papel e vai desenhar, escrever, pesquisar e colorir sem precisar de canetas coloridas”, comentou.

Os usuários não precisam se tornar dependentes da ferramenta. O professor, criador do curso de Tecnologia Superior em Jogos Digitais da PUC SP, explica que não se importa muito com a plataforma. “Eu não gosto de ser escravo da tecnologia. Quero que ela trabalhe para mim. Eu desenho em qualquer superfície, não faz diferença para mim.” Isto é, qualquer superfície que faça sentido, que proporcione uma narrativa e que se insira na cultura, senão, é indiferente. “Me envolva e me comprometa”, concluiu Petry, em relação à narrativa, fazendo referência a Janet Murray, professora do Instituto de Tecnologia da Geórgia. “O sujeito presente no ciberespaço precisa de uma narrativa para se localizar, por isso os fãs de ficção científica foram de grande ajuda aos fundadores do ciberespaço.”

E é nessa narrativa em que se insere o “eu” tratado por Sherry Turkle, em “A vida na tela” (no original Life on the Screen), seu livro publicado pela editora da Massachusetts Institute of Technology (MIT). Mas é um “eu” projetado, um novo sujeito para a interface, seja nos MUDs (Multi-user Dungeon) ou nos RPGs (Role-playing game). “O humano muda, é mutável e mutante, é pós-humano. Assumimos múltiplas personalidades, somos uma pessoa diferente para cada pessoa, assumimos personas”, concluiu Petry pouco antes de finalizar sua apresentação com jogos programados por ele e em conjunto em projetos que podem ser conferidos em seu site, Topo Filosofia.

Ciberativismo

O segundo palestrante foi Hernani Dimantas, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCom) da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Ele começou sua apresentação comentando sobre meados da década de 1990, quando ele começou a usar a internet para trabalhar com ativismo – desde aquela época seu interesse estava definido.

Mais para o fim da década, com a bolha da internet, a rede começou a ser repensada, tomar formas que até então hoje possui, a qual propõe uma ética hacker. “As pessoas começaram a habitar a internet, em listas de discussões e mais tarde em blogs também. Foi com o Google e a história do beta permanente que começou a experimentação”, conta. Nessa época também, Dimantas começou a fazer o blog  Marketing Hacker, publicando textos em sites como o Nova E. “A gente tem que seguir uma idéia defendida pelo Manifesto Cluetrain: ‘falar é fácil e o silêncio é mortal’. Se expressar na internet é muito simples. Se você não fizer isso, você não existe na rede.”

Seguindo a ética hacker, que envolve desde a programação e uso de softwares livres até a formação de comunidades, Dimantas criou o Metareciclagem, em que são desenvolvidos projetos de políticas públicas. “No Brasil, a mídia tática é fruto de colaboração, de sobrevivência. Na Europa é diferente, é tudo muito pronto”, afirma. Foi assim que o doutorando começou a incentivar oficinas de customização e montagem de computadores. “Nós queremos transformar a interface numa obra de arte, já que os computadores são velhos e dão pouca acessibilidade”, explica, fazendo menção a projetos de inclusão digital que.

Mas não é só isso. Inclusão digital para Dimantas não é só ter acesso a internet, mas é também conhecer ela mais a fundo, a parte em que há as redes humanizadas, a formação de grupos de acordo como uma angústia em comum, como o projeto Ficha Limpa contra a corrupção entre os políticos. “As pessoas, para estar na internet, precisam estar preparados, precisam gastar tempo fortalecendo seus contatos, atualizando e melhorando o design do blog, por exemplo”, diz.

O projeto Lixo Eletrônico também foi pauta do palestrante, que explicou as preocupações com os computadores que são descartados. Isso vai de encontro com o ciberativismo que interessa ao próprio governo, quanto às políticas públicas de saneamento, tendo em vista que certos materiais das placas podem ser prejudiciais. “A gente fazia jóias e acessórios com as peças, mas existem alguns componentes que são tóxicos. Por isso, é preciso ter cuidado e saber com o que está lidando”, concluiu Dimantas.

Projeto de portal Cásper Líbero

Daniela Osvald Ramos, organizadora do evento, professora de Novas Tecnologias da Comunicação e coordenadora do portal da Faculdade, apresentou sua pesquisa desenvolvida no Centro Interdisciplinar de Pesquisa da Faculdade, CIP, a qual une a teoria com a prática. Seu trabalho é refletido no próprio site da Cásper, que foi reformulado em janeiro deste ano.

Ainda sem concluir o estudo, Daniela indica que é necessário fazer uma espécie de manual de redação para que o portal se uniformize por meio de tags. “Às vezes, você procura uma matéria do site da Cásper no Google e acha, mas no próprio sistema de busca do portal, não”, disse. Por isso, ela explica que é preciso repensar as palavras chave, saber quais são as melhores a serem usadas para facilitar a pesquisa. “Por exemplo, num site de beleza o usuário pode procurar por uma matéria sobre emagrecimento digitando ‘regime’ ou ‘dieta’, se eu só pôr ‘dieta’ e procurarem por ‘regime’, o texto não aparece.”

O evento contou com a participação de alunos da graduação, do mestrado e de professores pesquisadores do Centro Interdisciplinar de Pesquisa.