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23/08/2010 - 14h55 - Atualizado em 21/05/2012 - 14h48

Sobre a desinformação do excesso de informação

Prof. Carlos Costa


Produzido praticamente no último ano antes que a internet se tornasse acessível ao grande público, o filme Denise Está Chamando, de 1995, ficou datado. Dirigido por Hal Salwen, apresenta um grupo de “amigos” que se relaciona por telefone. O filme começa com a decepção de um dos personagens, que preparara uma festa a que nenhum dos convidados compareceu. Depois, todos se justicam por telefone. Há, ao longo dos 80 minutos da película, uma série de encontros marcados a que ninguém vai, pois as relações se dão no mundo pré-virtual das conversas telefônicas. A Denise, que dá o nome ao filme, fez inseminação articial por meio de um banco de sêmen – e consegue descobrir quem é o pai do bebê. A conexão da personagem título com o restante do grupo se dá por intermédio desse fornecedor de espermatozóides. Até o parto dela é acompanhando, via telefone, por todos, que dão “a maior força”. Cercados de fax e telefones, diz o release do lme, eles se relacionam apenas por meio de aparatos eletrônicos e a desculpa para não se encontrar é sempre a mesma: excesso de trabalho

De algum modo, lembra a cantora Ivete Sangalo, quinze anos depois, ando no twitter a partida para a maternidade... “Crianças, agora vou parar de twitar porque acho que chegou a hora de ter meu baby. Obrigada pelo carinho de todos. Um bju enorme”, postou a melhor amiga da Xuxa.

O pesquisador argentino Daniel Ivoskus, em seu livro Vivir Conectados, aborda esse tema da vida vicária que hoje vivem os “viciados em internet”. Segundo ele, possuir um iPhone ou seu congênere o Blackberry representa adicionar duas horas diárias às rotinas de trabalho. Basta circular pela Avenida Paulista ou observar as salas de espera de aeroportos: ninguém mais folheia revistas ou preenche palavras cruzadas. Todos falam ao celular, anotam dados no computador ou chateiam. Recentemente, a revista Veja publicou (24 de março) reportagem sobre os viciados em blogs e sites de relacionamento, com um teste para medir se “você tem uma relação saudável com a web?”

Esta edição inaugural da revista Cásper traz como tema de capa os custos de viver antenado hoje. Um tema atual. Há sete anos, o falecido Gilberto Dupas, que presidia o Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais e coordenava o Grupo de Conjuntura Internacional da USP, citou, em entrevista à revista Diálogos&Debates, pesquisa que mostrava que “a dona de casa de classe média de São Paulo, que dispunha de R$ 530 por mês para despesas de alimentação em supermercados, gasta hoje R$ 430 para poder pagar o celular dela e das crianças. Está comendo menos para ter o celular”.

Ivoskus discorre sobre a verdadeira síndrome de “crack-berry” que ataca os “antenados”: supõem ouvir um celular que não tocou, chegam em casa e imediatamente ligam o computador para checar mensagens de e-mail, numa corri-da contra o tempo para estar informados. Ivoskus conta que o editor da revista Forbes, Dennis Kneale, perdeu um desafio o proposto pela rede de TV NBC: o repto era car 168 horas (uma semana) sem acesso às ferramentas digitais. Kneale não conseguiu ultrapassar a marca das 48 horas, implorando para falar com a filha pelo celular.

Em seu livro Ansiedade da Informação, Richard Saul Wurman escreve que “Uma edição do The New York Times em um dia da semana contém mais informação do que o comum dos mortais poderia receber durante toda a vida na Inglaterra do século XVII...” Em outro trecho, ele diz: “Quando eu era criança, em Filadélfia, meu pai me disse que eu não precisava decorar a Enciclopédia Britânica; só precisava saber como encontrar o que ela contém...” Uma bela lição. Informação demais é desinformação. Como diz outra argentina, Beatriz Sarlo, “Sabemos de tudo e, ao mesmo tempo, não sabemos o que precisamos saber”. Fica a proposta para uma boa reflexão – de preferência longe dos gadgets eletrônicos.