Festa Literária em Paraty terminou mais cedo pela falta do convidado Lou Reed
A oitava Festa Literária Internacional de Paraty ocorrida esse ano, de 4 a 8 de agosto, contou com a participação de 147 autores que discutiram temas como as mudanças do livro, do impresso ao digital, e sobre suas próprias obras. Estava entre os participantes, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quem abriu a noite de quarta-feira e a FLIP.
O homenageado do ano foi o sociólogo, antropólogo e escritor Gilberto Freyre, autor do clássico “Casa Grande e Senzala”. Portanto, logo na abertura, FHC discutiu a obra e a criticou do ponto de vista sociológico. Seu discurso durou cerca de uma hora e meia, as quais se seguiram com certa descontração.
Após a primeira mesa, que iniciou às 19hrs, bares e restaurantes foram lotados pelos turistas vindos do Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e também de outros países – estrangeiros que foram visitar Paraty e acabaram descobrindo a FLIP. Segundo freqüentadores que vão à festa pelo terceiro ano consecutivo, a primeira noite costuma ser a mais vazia, entretanto, nesse ano, ela estava bem movimentada.
No centro histórico de Paraty ficaram distribuídas tendas que comportaram toda a programação da FLIP. De um lado do rio ficava a Tenda dos Autores, onde se pôde assistir a palestras de escritores por R$40. A entrada, além de ter sido um pouco mais cara que o esperado, também estava difícil de adquirir, já que as mesas mais procuradas tiveram os ingressos esgotados em menos de uma hora. Na outra margem, foi instalada a Tenda do Telão, em que foi possível conferir os espaços de editoras, uma loja e os livros por R$10.
Porém, comprar ingressos não foi a única opção de quem queria ver e ouvir o autor esperado. A tenda do telão, que era vazada, permitia que os visitantes se sentassem e assistissem aos palestrantes seguindo tradução simultânea. Além disso, para aqueles que não quisessem se sentar no chão, tendo em vista que a maior parte dos visitantes estava acima dos 50 anos, a solução foram bancos de papelão disponibilizados pela agência bancária patrocinadora, a Itaú.
Ao final do dia e das mesas, o que movimentou a cidade, fora os bares próximos à Praça da Matriz, foram as festas exclusivas das editoras. Nelas foi possível observar os escritores em momentos de descontração, como a família de Salman Rushdie arriscando passos de dança, ao som de sambas clássicos.
Os assuntos em pauta
De assuntos sobre casos pessoais, como o de Isabel Allende, até a temática controversa do Irã que já carregava uma rixa entre os escritores Terry Eagleton e Salman Rushdie: os debatedores conversaram até mesmo sobre o futuro do livro como formato.
Uma das discussões mais pertinentes do evento, iniciada na mesa de Peter Burke e Robert Darnton, era justamente sobre o futuro do livro na era digital. No entanto, a conversa foi fragmentada em duas mesas. A primeira, mais como uma apresentação dos autores, foi mediada pela antropóloga Lilia Schwarcz. Neste momento, foram introduzidos ao público os temas que foram debatidos nas obras de cada autor.
Na mesa seguinte, a abordagem foi mais centrada no papel, suas formas e o futuro. Ambos autores, Burke e Darnton, não acreditam no fim do livro e alegaram que a morte dele é prevista desde sua invenção. Contudo, eles explicaram acreditar que livros didáticos se tornariam melhores se disponibilizados em suportes digitais.
Salman Rushdie é outro que mostrou acreditar que o livro de papel não terá fim. Mas o fato em que ele acredita é que a memória de um livro é infinita, diferente da de um aparelho digital, que se cair no chão, quebra e é irrecuperável. Já o livro sobrevive com alguns amassados. O escritor até brincou durante a mesa e contou um episódio no qual derrubou, sem querer, um copo de Coca-Cola em cima de um computador e acabou perdendo tudo, o que, ele lembra, não aconteceria se fosse com um livro. “Matei um computador com uma coca”, concluiu o escritor de “Luka e o Fogo da Vida” (Cia das Letras, 208 pág.). Rushdie assumiu se dar bem com as novidades tecnológicas, até com o iPad que seu filho possui.
No fim da festa
Cerca de 20 mil pessoas passaram pela edição 2010 da FLIP. O domingo ficou bem tranqüilo: muitos deixaram Paraty na noite de sábado, já que o esperado convidado do ano, o cantor Lou Reed, havia cancelado semanas antes a sua participação.
A mesa que substituiu o horário, às 19hrs do sábado, foi a do divertido Robert Crumb e do calado Gilbert Shelton. Com a participação da mulher de Crumb, que roubou metade do horário da mesa com conversas que eram pouco interessantes para os literatos presentes, muitos participantes deixaram aos poucos a tenda e a FLIP.
Domingo, como era dia dos pais, o movimento caiu mais ainda. Sendo assim, foi possível conseguir mesas em restaurantes rapidamente, diferentemente dos outros dias. Logo, todos já sentiam que o clima era de partida, apesar da vontade de continuar um pouco mais.
Saiba mais
Além do site oficial da FLIP, que comenta um pouco mais sobre as mesas e os participantes, o evento também possui um perfil no Facebook, no Twitter e um blog oficial. A Companhia das Letras também utilizou seu blog para comentar sobre a festa.
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