O uso da tecnologia na educação coloca professores e alunos diante de novas questões. Quais os limites para seu uso? Qual o novo papel do professor?

A tecnologia digital chegou à sala de aula. A convivência do giz, da lousa, do papel e da caneta com notebooks, celulares e outros dispositivos mudará o processo pedagógico ou tudo não passa de um deslumbramento com ferramentas de última geração? A questão não é fácil de responder. Colégios particulares, faculdades e até escolas públicas concordam em um ponto: O uso das tecnologias em classe é irreversível.
Alguns educadores não consideram quadro-negro e giz como itens primordiais no sistema de ensino. “A lousa não é insubstituível. Fica mais fácil fazer apresentações em PowerPoint ou usar o material didático presente no YouTube para deixar o conteúdo mais claro”, afirma Mário Abbondati, coordenador de Tecnologia Educacional do Colégio Bandeirantes. A questão é o papel que exercem essas ferramentas.
A revista Cásper ouviu professores de vários estabelecimentos sobre o uso crescente de laptops, câmeras e celulares no dia a dia das atividades escolares. Todos os entrevistados foram unânimes em dizer que a tecnologia não significa achar que ela é um fim em si mesma.
“Vivemos em um mundo virtual. Portanto, é inconcebível alguém hoje entrar no mercado de trabalho sem habilidade tecnológica. Os pais cada vez mais se preocupam com o que as escolas oferecem nestes termos para seus filhos”, afirma Márcia Maria Deotto, gerente de Tecnologias de Aprendizagem Interativa da Faculdade Insper-Ibmec.
Sonia Bertocchi, professora de Língua Portuguesa e coordenadora de projetos do EducaRede (portal educativo voltado ao uso de novas tecnologias), crê que o principal aspecto positivo do uso da tecnologia na sala de aula é a integração. “Se ela está na vida do cidadão, por que não pode estar na sala de aula?”, questiona. Não existe polêmica sobre a necessidade de as instituições de ensino utilizarem todo tipo de ferramenta colocada à disposição dos alunos. Para Abbondati, o professor tem de repensar suas atividades, para permitir ao aluno buscar informação e construir conhecimento.
Já a professora Valdenice de Cerqueira, coordenadora do Departamento de Tecnologia Educacional do Colégio Dante Alighieri, afirma: “Os alunos já são muito tecnológicos. Os professores aprendem com eles através de trocas e apropriações. Porém isso não significa que fazem melhor. É preciso unir a experiência do professor à expertise do aluno”.
O Colégio Bandeirantes começou a aplicar neste ano uma ferramenta à disciplina de Matemática. Trata-se do Adobe Connect, que possibilita a realização de videoconferências entre professores e alunos para aulas de reforço. A outra aposta do colégio é a sala virtual, um espaço que disponibiliza conteúdo para os trabalhos de casa e material complementar. Além disso, programas de compartilhamento como o Google Docs tem o uso estimulado. “Todos estes recursos não dispensam o professor. É ele é quem faz a mediação”, conta o coordenador.
Professor é fundamental
Os alunos do Colégio Dante Alighieri desfrutam de uma infraestrutura hightech. As salas contam com lousa digital, deck para notebooks, laboratórios com laptops, câmeras filmadoras, aulas de robótica, oficinas de games,? revista digital, webjornal, além de rede wireless e uma infinidade de ferramentas em seu site. “Estes recursos incentivam o aluno que acaba gostando mais de aprender”, relata a professora Valdenice.
A escola tem preferência por programas gratuitos. Através do Skype, o Dante proporciona uma conversa com os cientistas na base brasileira da Antártida. “Tudo a custo zero. Procuramos usar o máximo de programas gratuitos para que os alunos tenham acesso em casa, sem utilizar a pirataria”, explica Valdenice.
Rede pública
Alguns estabelecimentos conceituados justificam a atualização pedagógica. “Ser tradicional não significa evitar o uso de novas tecnologias. Os valores morais podem partir até da instrução aos alunos de como utilizar tais recursos de maneira ética e conscienciosa”, afirma Kenia Amazonita, responsável pedagógica pelo Portal da Educação Adventista, site que reúne informações sobre rede adventista de escolas.
Muitas instituições sofrem com a falta de verba para investir em novidades. É o caso da Escola Estadual Arlindo Aquino de Oliveira, um colégio público rural de Mogi das Cruzes, que atende o ensino fundamental. Segundo Francesli Aparecida Patrocínio, coordenadora pedagógica, a unidade dispõe de uma sala de informática com dez computadores para uso dos alunos durante o período de aula ou eventuais pesquisas. “Apesar das dificuldades com manutenção, feita pela Secretaria de Educação, nossos professores têm se mostrado abertos à utilização da tecnologia como aliada da pedagogia”. Ela conta que as verbas enviadas pelo governo do Estado são pequenas, pois toda a distribuição gira em torno da quantidade de alunos pertencentes a cada unidade escolar.
Mesmo assim, o Estado investe em programas de incentivo a inclusão digital, como é o caso do Acessa Escola, que pretende chegar a 3.572 instituições de ensino da rede pública. O objetivo é prover salas de informática abertas o dia inteiro com banda larga, manutenção e monitores que, no caso de 2010, serão 13.086 estagiários provenientes do Ensino Médio. Segundo a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, já foram investidos mais de R$ 75,8 milhões para a ampliação da capacidade de atendimento e manutenção do projeto. “Estamos colaborando para que nossos estudantes possam se preparar para o mercado de trabalho com o acesso às tecnologias digitais, que hoje são indispensáveis para qualquer profissional”, afirma Paulo Renato Souza, secretário de educação do Estado de São Paulo.
Ensino a distância
As ferramentas de ensino à distância, mesmo nos cursos presenciais, apresentam uma facilidade: acessar conteúdos relacionados ao curso a qualquer hora e em qualquer lugar. Universidades, como a Anhembi Morumbi e a Metodista, utilizam softwares para promoverem aulas semi-presenciais em suas grades.
Apesar da grande adesão, aspectos negativos devem ser levados em conta. A banalização dos recursos da web, a mera transposição do analógico para o digital e a resistência dos educadores são alguns dos problemas enfrentados, segundo Sonia Bertocchi, do EducaRede.
“O mau uso da internet, principalmente em casa, é uma preocupação. São riscos potenciais como a superexposição. Procuramos orientar os professores para também realizar atividades com outros materiais sempre que possível”, diz Valdenice de Cerqueira, do Colégio Dante Alighieri.
Márcia Maria, do Insper/Ibmec, concorda: “Um aspecto negativo é encher a sala de aula com recursos tecnológicos sem ter um objetivo a ser alcançado. Isto causa uma impressão no aluno que o professor está “matando” o tempo em sala de aula. O aluno é esperto e percebe quando o professor domina ou não a tecnologia e o conteúdo”.
Dentro da sala
Além disso, existe a questão do uso de laptops e celulares dentro das salas. Eles são ferramenta ou objeto de distração? “Os alunos cada vez mais começam a trazer seus dispositivos. No caso dos celulares, fica difícil a proibição. Estes aparelhos estão tão integrados que não funcionam apenas como comunicadores, mas também para funções básicas como a de relógio”, afirma Valdenice.
Porém, há outros pontos a se considerar. Segundo Cláudio Arantes, coordenador de Cultura Geral da Faculdade Cásper Líbero, “Temos conhecido uma pressão do corpo discente. É impossível proibir laptops”. Para ele, não há como saber o conteúdo que o aluno está acessando. “Não é o papel do professor”, afirma. Ele cita casos em que estudantes ajudaram o professor com pesquisas feitas em aula e também de alunos que atrapalham fotografando a lousa, sem contar o uso indevido de imagens gravadas em sala e divulgadas de forma descontextualizada. “É preciso bom senso para o uso de tudo isso, já que os laptops funcionam como caderno de anotações e para pesquisas pontuais a fim de melhorar a aula”, conclui.
Outro problema são os casos de plágios e o trabalho extra que a tecnologia acarreta ao professor. “A fraude aumentou através das trocas de conteúdo e do vício de colagem durante pesquisas e elaborações. Além disso, o professor não é pago para tirar dúvidas nem responder e-mails dos alunos ou incluir as notas e faltas no sistema”, diz Arantes. “A internet virou Deus e a sociedade não discute isso. Vale mais o desempenho do que os meios”, acrescenta.
Aula interessante
O uso de tecnologia na sala de aula é inevitável para Daniela Ramos, professora de Novas Tecnologias da Comunicação da Cásper Líbero. “Não vejo nenhuma grande inovação em se usar ferramentas com o PowerPoint. Nada ainda é melhor do que ler. As ferramentas são um apoio e podem fazer a diferença, mas sem preparação ninguém faz nada com isso”, afirma a professora. “Sou a favor dos laptops na sala e os alunos já usam o celular. Cabe ao professor estimular todos a prestarem atenção, preparando uma aula interessante. O resto é responsabilidade de cada um. Já a fraude é um ato do homem, a tecnologia só permite que seja feita mais rapidamente”, conclui.