A tecnologia entrou de vez nos lares brasileiros. Qual seu impacto na hora do consumidor colocar a mão no bolso? Apesar do crescimento dos serviços, preços ainda impedem universalização

Imagine um mundo em que não haja telejornal para lhe dar as primeiras notícias; a caminho do trabalho, nada de rádio ou jogos no celular para distrair; no escritório, as informações não estão “a um Google” de distância e nem é possível se divertir bisbilhotando a vida alheia no Orkut. Pasme, caro leitor cibernético do século XXI: isso não acontecia na pré-história. Há apenas poucas décadas, nossos pais e avós viviam assim. Em um curto período de tempo, o que era ficção científica passou a fazer parte inseparável do nosso cotidiano e, por consequência, do orçamento familiar. Cada vez mais as pessoas estão à procura de serviços e equipamentos de comunicação que facilitem suas vidas. No Brasil, esse cenário começou a ser expandido em meados do ano 2000, quando a “tecnologia da informação” (banda larga, telefonia móvel e TV por assinatura) se expandiu de forma irreversível.
Nas mãos do povo
Uma década depois, tal tecnologia deixou de ser privilégio exclusivo de uma pequena parcela da população e caiu nas mãos do “povão”. O que era luxo virou item essencial na “cesta básica” do brasileiro: “Antes eu achava que ter notebook era algo só para executivos. Hoje eu preciso dessa mobilidade para estudar e abrir meus e-mails do trabalho em qualquer lugar”, conta Thiago da Costa, 22, supervisor de telemarketing, que confessa também utilizar o equipamento para checar com maior frequência os recados das “gatinhas” no Orkut: “Isso também é se manter informado”, brinca. Com um rendimento mensal de R$ 1,3 mil, Costa adquiriu seu primeiro laptop graças às “suaves prestações” oferecidas pelas lojas. Parcelou a compra em doze vezes de R$ 125 no carnê. “E sem juros”, gaba-se. O supervisor ainda gasta R$ 30 para pagar o plano de banda larga de 2 megas, que também alimenta a internet no outro computador, um desktop, em sua casa.
O boom da classe C
Assim como Costa, milhões de brasileiros agora podem usufruir de tais tecnologias. Isso só foi possível por-que a renda da população aumentou. A chamada classe C, cujos ingressos variam de R$ 580 à R$ 1.100 ganhou mais integrantes: cerca de 31 milhões, apenas entre 2003 e 2008. O fenômeno, de acordo com o economista e professor da Cásper Líbero, Adalton Diniz, “não é independente e muito menos um evento natural nos qua-dros econômicos brasileiros”. Diniz salienta que a mudança é fruto direto das políticas econômicas e de um processo iniciado há décadas.
Fim da inflação
Entre 1980 e 1994, a economia brasileira viveu os estertores de um modelo de desenvolvimento vigente desde os anos 1930. A crise da dívida, que literalmente quebrou o país em 1982, e a persistência de um acelerado processo infl acionário resultaram em contração econômica, desemprego e falências de empresas. Aumentou a concentração de renda nas classes mais altas, e a parcela mais pobre da população foi atingida por duas recessões que eliminaram milhões de postos de trabalho.
Nos anos 1990, as assustadoras máquinas de remarcação de preços tiveram seu descanso com o fim da inflação durante o período FHC e o sucesso do Plano Real na estabilização da moeda. Preparado o terreno, o governo Lula e suas políticas econômicas envolvendo aumentos reais do salário mínimo (acima da inflação) e políticas de transferência de renda provocaram uma ascensão das classes C e D: “Indivíduos antes classificados como de baixa renda agora estão consumindo”, explica Diniz. “Até então, a classe C vivia um estado de consumo vegetativo”, diz Rodney de Souza Nascimento, publicitário e professor no curso de Publicidade e Propaganda da Cásper Líbero.Nesse cenário, as empresas reconheceram a possibilidade de explorar um novo nicho de mercado popular.
Criaram-se diferentes marcas para atender o perfil do novo consumidor, como explica Nascimento: “Os empresários preferem pulverizar o mercado a ter poucos compradores”, comenta. “Foi o que ocorreu com a TV a cabo, que agora oferece combos de TV, internet e telefone a preço mais acessível”. Diniz, por sua vez, lembra a importância desse processo para o consumidor: “A elite preza produtos singulares, o que faz com que as mercadorias destinadas a esses segmentos tenham pouca demanda e, assim, preços muito elevados. Por isso a criação de produtos similares com custo reduzido é im-portante para que as classes populares possam, de fato, encher suas sacolas no supermercado”.
A expansão do crédito ao consumidor é outro fator que alavanca as vendas. “É impossível juntar dinheiro para comprar à vista, tem que apelar para o carnê’”, conta o supervisor de telemarketing Thiago Costa. Foi graças ao crédito estendido que sua família adquiriu uma TV LCD de 42 polegadas que será quitada em 18meses. O preço do aparelho é quase três vezes o salário de Thiago. “Mas valeu a pena, a gente se aperta e paga em parcelinhas até perder de vista”.
A preço de banana
Fez-se um levantamento nas principais lojas populares e constatou que a maioria dos itens cujo valor ultrapasse R$ 100 pode ser parcelado em no mínimo dez vezes. Tentação para qualquer consumidor convicto. Menos de dois salários mínimos já são suficientes para se adquirir um computador. Com R$ 799 é possível levar o equipamento para casa, com 160 Gb de HD e 1Gb de memória.
Já os consumidores de melhor renda não poupam dinheiro para ter o que há de mais moderno na informática. Thaís Fontes, 19, é dona de um poderoso Apple MacBook Pro, que custou R$ 3,8 mil com o desconto educacional do fabricante. “Eu precisava de uma máquina que não travasse enquanto uso o Photoshop”, explica a estudante de fotografia. O potente processador de dois núcleos parece não ser suficiente para a entusiasta das novas tecnologias, que ainda utiliza um smartphone com o plano de dados ilimitado. “Não é barato [R$99], mas compensa. Posso até ‘twitar’ de qualquer lugar!”, exemplifica. De última geração ou não, o fato é que o computador chegou para valer na maior parte das casas brasileiras. O país possuía, em setembro de 2009, cerca de 45% dos 95,6 milhões de computadores na América Latina, de acordo com a consultoria Everis, voltada para negócios em tecnologia da informação.
Conexão a toda velocidade
Haja banda larga para “turbinar” tantas máquinas! São 15 milhões de assinaturas em todo o país. Contudo, há uma década o cenário era diferente. Para se ter idéia do crescimento do serviço, segundo dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), em 2000 existiam apenas 124 mil conexões. À medida que os serviços se popularizavam, os preços caíram. Atualmente, cada mega de velocidade custa R$ 25,50, - valor inimaginável há alguns anos. Existem planos e valores para todos os tipos de gosto e bolso, desde pacotes básicos que saem por R$ 29 aos mais robustos, que esbanjam 12 megas de velocidade por R$ 219. Vale lembrar que até meados de 2005, o cliente deveria optar por comprar ou alugar o modem, que não saía por menos de R$ 100. Hoje o aparelho é fornecido gratuitamente pelas operadoras de telefonia.
Ainda há a possibilidade de aproveitar promoções e planos oferecidos pelas empresas. Na tentativa de salvar o bolso, vale até mesmo negociar um precinho camarada: “Eu sempre reclamo que está muito caro e peço descontos. Acabo pagando menos ou ganhando mais velocidade. Para se ter uma ideia, nem pago mais provedor”, confessa Thiago Costa, que desembolsa R$ 30 pela conexão de dois megas.
Para quem deseja mais entretenimento e economia, vale apostar nos combos, que oferecem TV, banda larga e telefone. Os planos vão de R$ 39,90 a R$ 499,90. O consumidor também tem a possibilidade de montar um pacote personalizado de acordo com suas necessidades e interesses.
Alô, alô!
Dizer que todo brasileiro tem celular não é mais exagero. Em 2009, havia 1,1 celular para cada brasileiro, superando a telefonia fixa, com cerca de 3 pessoas por linha. Por outro lado, falar ao celular é mais caro que em um telefone convencional. Paga-se no fixo, em São Paulo, a média de R$ 0,29 por minuto contra R$ 1,02 no móvel, apesar de existirem planos de operadoras com tarifas menores. Para economizar, a dica é optar por planos pós pagos, nos quais a média da minutagem é de R$ 0,89. “Uso um plano de mil minutos. A vantagem é que posso dividi-los entre os quatros celulares na minha família. Se for ver, no final sai mais em conta”, diz Thaís Fontes.
Promoções
Tais promoções, explica o publicitário Rodney Nascimento, não só fazem com que o consumidor encare o valor de recarga como compromisso no orçamento mensal, mas impulsionam também a compra de novos aparelhos: “Não é raro encontrar pessoas que têm dois, três celulares, um de cada companhia. Com um ele aproveita o bônus para falar com a namorada, com o outro ele fala com o amigo, e assim vai”. O mercado não convencional, com os ditos xing lings (produtos importados da Chi-na), tornou-se opção para esse consumidor quando trouxe os celulares que comportam dois chips, além de reunirem uma infinidade de recursos atrativos a um custo muito baixo. Enquanto pagamos no mínimo R$ 700 em um celular com MP3, rádio, TV, câmera fotográfica e filmadora no mercado tradicional, um xing ling com os mesmos dispositivos e com o benefício dos dois chips integrados custa R$ 250.
Usufruir da tecnologia no Brasil é tarefa mais cara que em outros lugares do mundo. De acordo com pesquisa feita pela consultoria Bernstein Research, estamos entre os três países com as tarifas de celular mais altas do mundo, com média de US$ 0,24 por minuto, ao lado da África do Sul, com US$ 0,26 e Nigéria, US$ 0,23. Na Índia, onde o PIB é próximo ao do Brasil, o valor despenca para US$ 0,01. Nos Estados Unidos e Reino Unido o custo é, respectivamente, de US$ 0,05 e US$ 0,14. A explicação, ainda segundo a consultoria europeia, seria a alta taxa de interconexão, conhecida como VUM (Valor de Uso Móvel), que uma operadora paga para a outra pelo uso de suas redes em áreas em que uma delas não tem concessão. Estima-se que 35% da receita das empresas de telefonia móvel se origina na taxa. O resultado é que 82% dos usuários de celulares optam planos pré-pagos. Assim, o aparelho torna-se o famoso “pai de santo”: só recebe.
Com a banda larga não é diferente. O preço do serviço coloca o Brasil na 77ª posição de um ranking com 154 países realizado pela UIT (União Internacional para as Telecomunicações) que relacionou o custo da conexão veloz à renda per capita. Nas terras tupiniquins, devemos desembolsar 9,6% da renda por habitante para assinar o serviço, enquanto nos EUA compromete-se apenas 0,4%; em países emergentes como Argentina e México, os valores são, respectivamente, de 7,6% e 5,3%.
Em debate realizado em janeiro deste ano, na Campus Party, evento anual no qual se discutem tecnologia e comunicação, o presidente da Telefônica Antonio Carlos Valente declarou: “O Brasil sempre aparece como um país em que os serviços de telecomunicações, como a banda a larga, são um dos mais caros do mundo. Mas não se fala que a carga tributária é altíssima. No caso do modem, por exemplo, 75% do preço é tornado por imposto”. Além dos impostos nas alturas, o consumidor ainda esbarra com a falta de diversi-dade de concorrência entre empresas e com o fato de que, para ter acesso ao serviço, é preciso também pagar um provedor.
Mesmo descontados os impostos, as tarifas brasileiras seguiriam nas alturas. A banda larga, no final de 2009, só era acessível para cerca de 6,25% da população, de acordo com o documento “Alternativas de políticas públicas para banda larga”, publicado pela Câmara dos Deputados. Embora os números apontem um crescimento animador e bastante significativo no acesso à tecnologia, existe ainda uma imensa parcela da população que vive a chamada exclusão digital.
Preços altos e serviços irregulares das operadoras privadas estão levando o governo federal a planejar o oferecimento de conexões mais baratas e de melhor qualidade. O Estado trabalha em um Plano Nacional de Banda Larga. Definida no início de maio, a medida deve quadriplicar o número de domicílios em todo o país com acesso ao serviço. Atualmente, cerca de 12 milhões de moradias usufruem da internet rápida.
As pesquisadoras Lisa Gunn e Estela Guerrini, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo em 31 de janeiro último, afirmam que “os números apresentados pelo Comitê Gestor da Internet (CGi) relativos a 2008 indicam que só 18% dos domicílios têm acesso à internet – na área urbana, a porcentagem de acesso é de 20%, e na área rural, de 4%”. Segundo elas, “a não inclusão dos cidadãos no novo ambiente digital reproduz e aumenta a já inaceitável desigualdade socioeconômica existente no Brasil”.
Consumo democratizado
A emergente classe C ainda não usufrui plenamente dos serviços disponíveis: “É uma classe que tem o produto, mas muitas vezes não consegue pagar o serviço. Como é o caso de quem tem um televisor de plasma sem TV a cabo”, diz o professor Rodney Nascimento. “Não adianta possuir uma parafernália de equipamentos se não há acesso aos serviços. É preciso dar condições efetivas para que haja esse acesso”, completa Nascimento.
O publicitário acredita no potencial educacional da tecnologia: “O uso da internet para essa classe, por exemplo, ainda está muito ligado às redes sociais. Precisamos mostrar o valor educacional contido no serviço”, diz. “Mas as pessoas já estão percebendo isso e valorizando a educação”, continua.
Um Brasil para todos os bolsos é a situação com a qual o professor sonha: “O maior acesso à tecnologia é um processo extremamente positivo, que vai se acentuar muito. No entanto, o consumo deve ser democrático. Os bens devem estar ao alcance de todos, pois antes de sermos consumidores, somos cidadãos”, finaliza ele.