Artista une opiniões pesadas e imagens fortes para chocar e discutir
Cores fortes, desenhos abstratos, homens sem face, sexo explícito e apelos sociopolíticos gritantes. Da vontade de expor a arte coletiva, Keith Haring viu nos painéis publicitários vazios dos metrôs de Nova York do começo dos anos 80 o início de sua carreira pública. O anseio do artista de tornar conhecidas suas opiniões políticas, sexuais e culturais fomentaram a composição de um acervo nada ingênuo - na análise de suas obras, nada parece ser despretensioso. A vida particular dele e o momento sociopolítico vivido pelos EUA de então foram, pois, essenciais para a temática de suas composições.
Haring apresenta, por exemplo, em Apocalypse (obra de 1988, em conjunto com o poeta William Burroughs) uma clara revolta feita com colagens e pinturas contra padrões religiosos, culturais e sociais - como distorções em imagens de Jesus Cristo e de Mona Lisa. Já em The Story of Red and Blue, que não finalizada pelo artista devido a sua morte em 1990, apresenta litografias encomendadas para os filhos de um galerista. Mas, mesmo com sua finalidade infantil, a observação menos ingênua permite identificar os temas sexuais propositais de Keith.
O sexo era, então, tema frequente: Haring viveu em Nova York nos anos 80, auge da promiscuidade sexual. O preconceito sofrido devido à homossexualidade e sua luta contra a AIDS - revelada publicamente à revista Rolling Stones - fomentaram uma de suas obras mais impactantes, Silence = Death – um desenho de homens cobrindo bocas, olhos e ouvido sobre um triângulo rosa, símbolo usado como identidade dos homossexuais judeus nos campos de concentração nazistas e transformado, nas décadas de 70 e 80, como símbolo do orgulho gay.
São 94 obras de Haring que estão expostas na Caixa Cultural, na Galeria Vitrine da Avenida Paulista, de 30 de Julho à 5 de Setembro. Além de obras litográficas, gravuras e desenhos inéditos, há fotografias de sua passagem por Ilhéus, vídeos e artigos pessoais. É um convite a uma grande viagem ao imaginário dos anos 80 de um estadunidense incompreendido pela “moral e pelos bons costumes” de sua geração.
O público que entra no salão é atraído pelas cores extravagantes e envolvido pelo tom obsceno e político das obras, sendo obrigado a refletir do porquê da utilização frequente do sexo e da rebeldia, já que, em certos momentos, o artista se contradiz, como em obras infantis com tons eróticos. A percepção sinestésica une os sons dos visitantes, o vídeo explicativo no segundo andar e os apelos visuais das intenções de Keith. A compreensão integral de suas propostas talvez seja difícil, entretanto não há nada de ingênuo e apolítico em suas criações extraordinariamente inquietas e visivelmente complicadas.
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