Exposição "Ouros de Eldorado" reúne cerca de 300 artefatos de sociedades pré-hispânicas

Ainda hoje é corrente a visão de que a Amazônia é um território onde impera o primitivismo. Sessenta e dois anos depois de Lévi-Strauss ter levado a público Raça e História, texto em que questiona as visões tradicionais de progresso, ainda há quem enxergue sociedades habitantes da floresta como atrasadas e pouco complexas. Organizada pelo Museo del Oro del Banco de la República de Bogotá, Colômbia, a exposição Ouros de Eldorado, em exibição na Pinacoteca do Estado desde 29 de maio, pretende romper esse paradigma. O estudo dos artefatos atesta que a maioria deles tinha função religiosa ou de evidenciar hierarquia, demonstrando que essas sociedades possuíam grande complexidade estrutural.
As peças estão dispostas ao longo de sete salas e organizadas em seis módulos, de acordo com o tema de que tratam: figuras humanas, em A gente dourada; animais possivelmente sagrados em Animais fantásticos; figuras que misturam seres humanos e animais, ou antropozoomórficas em O homem animal; artefatos que misturam figuras abstratas com outras que possuem vínculo direto com a realidade em Abstração e realidade; objetos que exibem padrões geométricos em O universo das formas; detalhes sobre as técnicas de manufatura do ouro utilizadas pelas sociedades que habitavam o atual território da Colômbia antes da chegada do colonizador espanhol em A metalurgia e as sociedades pré-hispânicas.
Para essas sociedades, que se organizavam em cacicados - algo como, grosso modo, um município dentro de uma república, como compara a guia da exposição Adriana Martins – eram os animais que estabeleciam as conexões humanas com os planos sobrenaturais. Daí a recorrência da imagem dos pássaros, dentro deste contexto, a figura mais sagrada, que por transitarem da terra ao céu, eram vistos como auxiliares dos xamãs na comunicação com as entidades espirituais lá presentes. A mesma lógica se aplica a outros animais, como a cobra, que por cavar túneis sob o solo, era considerada uma mensageira do submundo. Já as figuras antropozoomórficas representavam as transformações sofridas pelo xamã em seu transe, nas quais ele explicava e organizava o cosmos.
Ao chegar aos territórios ocupados por esses povos, o colonizador espanhol encontrou-se embasbacado diante de tamanha ostentação de ouro, assim como não compreendia a relação dos nativos com o metal. A lógica mercantilista de acumulação do europeu não o permitia compreender que para a população local, o ouro não tinha valor comercial, mas sim simbólico e religioso, por possuir a mesma cor do Sol, entidade espiritual suprema para grande parte dos povos ameríndios. Isso pode ser constatado, por exemplo, na diferenciação de cor entre os artefatos - os mais avermelhados eram feitos com a chamada Tumbaga, liga de ouro e cobre -, brilho, e quantidade de objetos sagrados feitos desse material. “O ouro vale o quanto ele brilha”, diz Adriana, explicando que o que mais importava nesses objetos era a aparência e não o peso - critério utilizado pelos europeus.
A exposição convida o visitante a relativizar suas visões de desenvolvimento; não pelo fato de que os povos pré-hispânicos da Colômbia detivessem grande desenvolvimento técnico, pois este é um critério ocidental para medir o progresso de forma linear, mas sim porque essas sociedades se organizavam dentro de estruturas complexas, onde muitas vezes havia inclusive especialização de funções.
O Eldorado como o lugar repleto de riquezas acumuláveis que habitava o imaginário europeu da época nunca chegou a ser encontrado. O valor que esses artefatos carregam é cultural, e ajuda a entender como funcionava o pensamento dos habitantes nativos de nosso continente. Ele não é o paraíso de ganância de um só homem; é um patrimônio de toda a humanidade.
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