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06/08/2010 - 17h34 - Atualizado em 06/02/2012 - 12h00

"A ética é uma só"

Daniela Osvald Ramos

Alcinéa Cavalcante fala da história dos processos que sofreu por ter publicado uma foto de um muro pichado com a frase “Xô Sarney”, em 2006, e sobre jornalismo no Amapá

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Daniela Osvald Ramos
A jornalista Alcinéa Cavalcante

Tema de artigos e dissertações acadêmicas sobre blogs e liberdade de imprensa, Alcinéa Cavalcante (http://www.alcinea.com/) inaugurou a era do jornalismo político na blogosfera e demonstrou o quanto um processo judicial contra um blog pode ter o efeito contrário: ao invés de silenciar, ajudar a espalhar o que era para ser censurado.

Qual é sua relação com o Jornalismo e como a internet e os blogs entraram na sua vida?

Tenho 54 anos, no jornalismo eu comecei com 13. Naquela época já podia trabalhar. Meu pai era jornalista, então a minha casa era sempre freqüentada por jornalista, poeta, escritor... E foi aí que eu comecei. A primeira experiência foi em rádio, fazendo reportagem de rua. Também trabalhei em um jornalzinho do Grêmio Estudantil. Depois, quando surgiu aqui (Macapá)  primeiro jornal diário, no início dos anos 70,  o dono me chamou e disse “você vai trabalhar comigo”. Eu fiquei com medo. Eu disse “não, eu só tenho o ensino médio”, e nunca mais parei. Fiz de tudo, esporte, política, meio ambiente, qualquer matéria eu vou e faço.

Quando surgiu a internet, comecei a acessar a internet pagando interurbano, entrando por São Paulo. Quando foi montado aqui o primeiro provedor, em 1996/95, eu coloquei logo um site, nessa época não tinha recurso nenhum... Colocava uma foto e não dava para colocar o texto assim do lado, tinha que ser embaixo, aí ficava aquele clarão. E não parei aí. Acompanhei o ciclo. Eu entendo de internet, meus amigos dizem que eu entendo de internet porque acompanho desde o início. Quando montei meu primeiro blog, na verdade não era blog, era um site que tinha que fazer atualização por FTP. Nas eleições ficava muito congestionado, não conseguia atualizar. Eu já sabia do blog, mas ainda era aquela coisa muito de adolescente, mas resolvi testar. A intenção era ficar com o blog poucos dias só para resolver o problema da instabilidade. Mas gostei da interatividade, já não tinha mais que usar FTP, eu poderia atualizar de qualquer lugar que tivesse um computador e uma linha telefônica, então acabei abandonando o site e fiquei só com o blog.

Quando foi isso?

Nas eleições de 2002.

Você sempre se interessou por jornalismo político?

A única coisa que eu não gosto é de polícia, a não ser quando é um daqueles crimes que abalam. A política é forte aqui em Macapá. Gosto também de jornalismo cultural, fui durante muito tempo vice-presidente da Associação dos Escritores, sou da diretoria do Clube dos Poetas, fui membro titular do Conselho de Cultura.

Por que você foi processada pelo Sarney, como começou esta história?

Não dei nenhuma notícia nem boa nem ruim do Sarney ou de qualquer candidato. O meu blog focava mais nos candidatos a governador. Mas eu fiz uma brincadeira sobre um “adesivo perfeito” para carro, que tinha a seguinte frase: “o carro que mais combina comigo é o camburão da política”,  “pregue no vidro traseiro daquele candidato”. E todo candidato aqui em Macapá tem picape. E então foi esse post que gerou diversos comentários,  como “olha, é o adesivo perfeito para o Waldes Góes, para tal prefeito, para não sei quem”... cada um dava um nome de político e um disse “é um adesivo perfeito para o Sarney, que tem uma fazenda de burros no Amapá”. Aí veio o primeiro processo. No outro dia eu recebi a notificação, e falei “eu não fiz nada”.

No outro dia, passei por uma casa e tinha um muro pichado com “Xô Sarney”. Aí eu achei interessante, pensei “vou fotografar isso e por no meu blog”. Quando cheguei em casa, o Chico Terra, fotógrafo, já tinha visto o muro, fotografado e eu publiquei. Aí veio o segundo processo.

O primeiro post nem tinha o nome dele, só um comentário...
 
Só o comentário. Então ele entrou com essa ação. Quando veio o segundo processo dele, com a foto do muro pichado “Xô Sarney”,  foi quando o UOL também tirou meu blog do ar.  Disparei na mesma hora e-mail para o Cláudio Humberto, para o Noblat, para os amigos, sendo que eles repassaram, se espalhou, foi um viral.

Foi em 2006?

2006. O Sarney era candidato à reeleição. Todos os comentários ou matérias de outros veículos que eu reproduzia sobre o tema e publicava no blog era alvo de processo. A Cora Rónai fez um artigo, falou sobre o Amapá, que não era mais um lugar isolado, desconhecido, que com a internet basta ter um computador e uma linha telefônica, tá todo mundo ligado. Reproduzi, ele me processou.

Mas ele nunca foi processar o Noblat, por exemplo. Fui indiciada pela Polícia Federal. Era um absurdo. Um leitor deixou no blog um comentário dizendo “A família Sarney fede”, não, “O Sarney fede, fede muito”, aí esse comentário foi pra Polícia Federal. Na época fiz um dossiê provando que o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) do Amapá estava a serviço do Sarney. E isso eu já tinha dito nas várias entrevistas que eu dei para a revista Imprensa, para a rádio Cultura, Observatório da Imprensa...

Fiz inclusive alguns testes, com a juíza que me condenava, que toda vez era a mesma. O tio dela era candidato a deputado estadual na coligação do Sarney. Ela dizia que eu estava atrapalhando o candidato e que isso era proibido por lei e tal, e explicava um monte de coisa. Aí eu fiz uma brincadeira. Peguei um artigo que saiu na Folha do Amapá sobre a Cristina Almeida, que era candidata ao senado, e fazia oposição ao Sarney. Este artigo mostrava as qualidades da Cristina. A juíza tinha dito que fazer propaganda favorável podia, mas propaganda desfavorável não... então publiquei esse artigo – a Cristina não era minha candidata. Ela me condenou. Aí eu fiz o post, mas entre aspas reproduzi parte do relatório dela, onde dizia que eu podia fazer propaganda favorável, e no outro dia,  dizia que não. Disse que ela não entendia nada de internet, porque ela argumentava que a internet era uma rua e que pra ir pra qualquer lugar, pra qualquer site, o internauta tinha que passar pelo meu blog. Ela vai pro Globo, pro Estadão, pra Folha e tem que passar por aqui...

É ignorância...

A minha briga não era exatamente com o Sarney, a minha questão era entender a liberdade de expressão, o direito que eu tenho de me manifestar, e o direito que a sociedade tem de se manifestar, o direito que a sociedade tem à informação correta. Então era essa a minha briga.

É que coincidentemente agora a família Sarney também processou o jornal Estadão.

É, o Estadão está sob censura há mais de 300 dias. É muito complicado. Estes processos não foram só contra o meu blog, o meu foi mais visado talvez porque dizem que eu sou mais rebelde... chegou a um ponto que o Sarney mandou me procurar, ele retiraria as ações e eu não colocaria mais nada dele e nem permitiria nenhum comentário que citasse o nome dele. Eu disse “não, de jeito nenhum”.

Foi o Sarney que inaugurou essa era de processos aos blogueiros, porque até então, só tinha um blog processado que foi o Imprensa Marrom, se eu não me engano. E foi por uma empresa, não tinha nada a ver com política. Acho que o TRE daqui agiu de má fé, porque a lei não atingia a internet. A referência da internet era quando se tratava de empresas de rádio e televisão, as empresas de rádio e televisão que tivessem sites na internet teriam que seguir aquela lei, ou seja, horário eleitoral, não poderia haver propaganda fora do horário eleitoral, e eu dizia “eu não sou rádio, eu não sou televisão”.

Todo mundo aqui no Amapá tem medo do Sarney e eu não sei porque . O jornalista nunca pode se abaixar para um político, para uma autoridade qualquer. Tem que olhar no mesmo nível.

Como você vê as tentativas de legislar para blogs e regulamentar a internet?

Eu acho que ter uma legislação para blog é praticamente impossível, porque é impossível controlar a internet. Eu posso abrir um blog em qualquer lugar, hospedar no exterior, até com nome falso. Acho que é tolice, perda de tempo, tentar controlar a internet. Mas prefiro mil vezes mostrar minha cara e dizer “sou eu e não concordo com isso” do que abrir um blog com outro nome e falar o que me impedem de falar como Alcinea.

Cada blogueiro tem que ter consciência, tem que ter ética acima de tudo. Não divido “ética do jornalista, ética não sei do quê”, eu acho que ética é uma só: ou você tem ou você não tem. Essa é a questão. Eu nunca ataquei pessoas no meu blog. Modero comentários que possam ser ofensivos à família do político. Acho que é para criticar, pra ter idéia, não pra entrar na vida particular de ninguém.. E tem gente que dizia, “porque fulano tem amante”... Eu pergunto, ele  abriu o cofre do Estado para a amante? A amante está viajando com dinheiro público? Enquanto a amante dele não estiver interferindo (no Estado), não tem problema.

Aqui no Amapá é muito complicado porque político  não aceita crítica. Aqui tem um patrulhamento. Então é uma história de fato muito complicada.

Você acha que de alguma forma esse mecanismo no Amapá traduz um pouco sobre o que  é o jornalismo político Brasil, em menor escala?

Eu acho que é um pouco amordaçado sim, patrulhado, agora aqui a coisa é muito mais visível por se tratar de um Estado tão pequeno e onde a política é o forte. Por exemplo, a minha secretária, ela é do Maranhão, diz que se falassem de política só na época de política, tudo bem, mas não, aqui é todo dia. Ela diz que qualquer lugar de Macapá só se fala disso. Hoje os políticos dominam o carnaval, já estão dominando o futebol. O nosso futebol que já teve grandes craques dos times do sul, como Bira, que foi do Internacional, Aldo, que foi do Fluminense e quase vai para a seleção brasileira se não tivesse quebrado a perna, e tantos outros. É político na presidência da confederação, é político na presidência dos clubes e em vez de crescer, não cresce, cai.