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05/08/2010 - 16h54 - Atualizado em 07/02/2012 - 09h49

Sobre o Wikileaks e o jornalismo multimídia

Lidia Zuin, monitora do site de jornalismo

Em alta, bancos de dados solicitam novas habilidades aos comunicadores

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O site possui mais de
90 mil documentos,
sendo que 75 mil são
sobre os Estados Unidos

No dia 25 de julho, o site Wikileaks outra vez chamou a atenção dos jornalistas: mais de 90 mil documentos secretos sobre operações militares dos Estados Unidos no Afeganistão, realizadas entre os anos de 2004 e 2009, foram publicados no portal colaborativo. Nesses relatórios, os detalhes revelados explicam porque o governo de George W. Bush chegou a gastar mais de 300 bilhões de dólares na chamada “guerra contra o terrorismo”.

O New York Times, Guardian e Der Spiegel receberam as informações antecipadamente, nos formatos de arquivo KML (linguagem que permite a visualização de dados geográficos, tais quais mapas em 2D e navegadores terrestres em 3D), CSV (dados tabelados) e SQl (usado em bancos de dados relacional por facilitar a variação de abordagens do conteúdo). A exclusividade foi feita justamente para que os veículos tivessem tempo de analisar as informações, checá-las e apresentá-las de maneira mais acessível e interessante aos leitores. Isso indica que cada vez mais os jornalistas devem se preparar para lidar com uma nova forma de fazer notícias, que é a questão do jornalismo de dados, vertente que une a função de programador ao jornalismo.

Enquanto o portal Guardian preferiu produzir um infográfico interativo em forma de mapa, o NYTimes compôs uma grande reportagem destacando os mais polêmicos casos, deixando links diretos para a checagem dos documentos originais já disponibilizados no Wikileaks. A revista Der Spingel também buscou fazer a visualização de dados a partir de um infográfico, além de ter se referido aos outros dois veículos que receberam antecipadamente os arquivos.

Wikileaks

O site funciona desde 2006, quando foi criado por Julian Assange, hacker e ativista da transparência pública na Austrália. Construído com base em vários pacotes de software, como MediaWiki (originalmente escrito pelo programador alemão Magnus Manske, para o Wikipédia), Freenet, Tor e PGP, o Wikileaks está disponível em 14 línguas, incluindo português. Sem fins lucrativos, o site publica postagens de fontes anônimas (qualquer um pode contribuir e não ter sua identidade revelada), documentos, fotos e informações confidenciais que tenham vazado de algum governo ou empresa, os quais tendem a abordar assuntos de grande complexidade e interesse internacional. Todas essas colaborações são analisadas por uma equipe fixa composta por jornalistas, matemáticos e dissidentes chineses.

Foto de Andreas Gaufer
Julian Assange, criador do Wikileaks

Uma das grandes contribuições feitas pelo Wikileaks foi justamente uma denúncia através do vídeo da morte dos jornalistas da Reuters, no Iraque. Ainda assim, segundo o editor do portal da revista Atlantic, Alexis Madrigal, o site ainda é um objeto difícil de julgar. Acredita-se que a proposta é justamente de interesse público e não político, então, seguindo a nova maneira de se tornar a informação livre, com o acesso permitido a qualquer pessoa tenha acesso a ela.

Acontece que nem todos possuem tempo para interpretar grandes quantidades de informação disponibilizadas de forma bruta. Afinal, são milhares de planilhas, números e tabelas. E é para esse tipo de trabalho que os jornalistas devem se preparar. Responsáveis pela “digestão” do conteúdo, os jornalistas acabam criando a necessidade de unir a aptidão comunicadora às habilidades da programação para que a checagem, análise, mescla e visualização dos dados se tornem não apenas possíveis como também ágeis e facilitadas.

Daí são produzidos tanto formatos multimídia de notícia e de reportagem (a partir de infográficos, newsgames e aplicativos, por exemplo) quanto através da forma textual. Cada vez mais os jornalistas devem estar preparados a lidar não apenas com frases, mas também com linhas gráficas e de comando. Segundo o jornalista Tiago Doria, em um post sobre a recente polêmica do Wikileaks, a imprensa está incumbida de traduzir essas grandes quantidades de dados, mas que, para isso, “serão exigidas ‘novas’ habilidades das equipes de jornalismo, como noções de scraping (raspagem de dados), programação e uso de banco de dados”.



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