Como as mulheres conseguiram modificar a cena rock, dominada pelos marmanjos
No início, elas só eram as garotinhas que gritavam para os seus ídolos na beira do palco. Com sorte, conseguiriam arrancar um pedaço de roupa ou uns fios de cabelo. Foi preciso uma menina, eleita como o “cara mais feio” da sua escola, subir no palco, pegar um pedestal, um microfone e começar a cantar, com o vozeirão rouco e cheio de blues. Esta foi Janis Joplin, a primeira de muitas que se encantaram por uma guitarra, um baixo e uma bateria e não se contentaram mais em ficar fora dos holofotes.
Na década de 70, veio a confirmação de que as mulheres entrariam no cenário para ficar. Prova disso é a baixista e cantora Suzi Quatro e as meninas do The Runaways. Claramente com um apelo comercial, mas não menos talentosas, Joan Jett, Cherie Curry, Lita Ford e Sandy West formaram a primeira banda feminina a ter sucesso mundial, apesar da sobrevivência curta, de apenas cinco anos. Depois da separação, Jett seguiu carreira solo e foi a mais bem sucedida das integrantes, emplacando músicas como I Love Rock and Roll e Bad Reputation.
Na mesma época, os graves da loira Debbie Harry comandavam as melodias do Blondie. O grande êxito de músicas como Heart of Glass e One Way or Another fez a banda se tornar um expoente do new age e elevar Debbie como a mais importante front woman do rock. Nomeada pela revista Rolling Stones como a banda revelação de 1980, o The Pretenders tem a guitarrista e cantora Chrissie Hynde no centro das atenções. E mesmo com um dos integrantes falecendo em 1982, Hynde afirmou que eles não parariam de tocar, o que prova o seu controle perante a banda, estando unidos até hoje.
Enquanto o furor feminino acontecia nos EUA e Europa, o Brasil não ficava para trás. Surpreendentemente, a primeira gravação de uma música de rock foi feita pela cantora Nora Ney, em 1958, ao regravar Rock Around the Clock. Porém, o estouro veio com o rock açucarado feito pela Wanderléa, Cely Campelo e Vanusa na Jovem Guarda. Elas eram lindas e tinham vozes angelicais, só que não tiveram chance diante da ruiva Rita Lee, junto com os Mutantes. Com uma personalidade forte, não deixou barato a sua expulsão do grupo, na qual foi alegado que ela não apresentava virtuosismo o bastante para continuar na empreitada, e continuou a sua carreira fixando vários hits, como Lança Perfume e Esse Tal de Roque Enrow.
Aproveitando a época comercial do glam no Hard Rock dos anos 80 - na qual o excesso de maquiagem e roupas extravagantes faziam até homens parecer mulheres -, a banda Vixen, composta, na sua formação original, por Janet Gardner nos vocais, Jan Kuehnemund na guitarra, Share Pedersen no baixo e Roxy Petrucci na bateria, vendeu milhões de cópias e abriu shows para grandes bandas da época, como Bon Jovi e Scorpions. O metal, principalmente a sua vertente melódica, também teve uma invasão feminina. Com vozes agudas e impostação próxima do canto lírico, Tarja Turnen (ex-Nightwish), Shanon Den Adel (Within Temptation) e Simone Simmons (Epica) carregam uma legião de fãs. Porém, o título de ”rainha do metal” pertence à Doro Pesch. A alemã começou a carreira como vocalista do grupo Warlock e, depois de desavenças com antigos integrantes e gravadoras, comanda hoje a banda que leva o seu nome Doro.
O começo dos anos 90 foi das meninas sujas do grunge. As riot girls do L7, Biquini Kill e Hole faziam companhia às camisas flaneladas de Nirvana e Pearl Jam. As más línguas dizem que o Hole era mais do Kurt Cobain do que da própria Courtney Love, devido ao grande número de músicas compostas por ele. E quando o guitarrista do Nirvana bateu as botas, Courtney apoiou a sobrevivência de sua banda em Billy Corgan, líder dos Smashing Pumpinks, e suas composições. Billy também confiava em uma mulher, mas para as linhas de baixo. D’Arcy Wretzky foi a integrante feminina do Smashing até 1999, substituída por Melissa Auf der Maur, baixista do Hole. Outras bandas que contam com mulheres na sua formação são o Sonic Youth, com Kim Gordon, e o Pixies, contando com Kim Deal, também integrante do Breeders, referência para o rock alternativo feminino.
Nessa época, também foram dadas as boas vindas as lead singers, que seguiram os passos de Debbie Harry. Gwen Stefani no No Doubt, Shirley Manson do Garbage, Dolores O'Riordan no The Cranberries e Nina Persson com o The Cardigans são apenas alguns exemplos. Em 1995, a canadense Alannis Morissete alcançou sucesso mundial ao amaldiçoar o namorado em You Oughta Know. Os cabelos longos, marca registrada da cantora, vinham botar o rock feminino de novo nas paradas, com mais de 30 milhões de cópias vendidas do Jagged Little Pill, seu álbum de estréia.
No Brasil, a nossa representante na década de 90 era Cássia Eller. Tímida na vida pessoal, a cantora era conhecida por sua voz rouca e sua agressividade nos palcos. Mais conhecida pelas versões acústicas de suas músicas, ironicamente, ela era uma das poucas que conseguia fazer o cover de Smells like Teen Spirit, do Nirvana, com tanta desenvoltura. A guitarrista Syang - apelidada pelo próprio Angus Young de “Syoung” no Rock in Rio de 1985 - também tem papel importante na formação do rock brasileiro, por ter sido uma das poucas a participar do cenário de Heavy Metal nacional. Mesmo assim, ela é mais lembrada por sua participação no reality show Casa dos Artistas e seu programa de TV, no qual ela contava histórias eróticas.
Na virada do século, as guitarras rápidas ficaram a cargo do The Donnas. Tendo o Ramones como principal referência, tiveram uma breve passagem pelo mainstream no ínicio dos anos 2000, com músicas como Take It Off. Com a saturação das boy bands no cenário pop, a grande indústria da música percebe que apostar em “roqueiras” poderia dar um bom retorno. E, de uma vez, surgem Avril Lavigne, Kelly Osborne, The Veronicas e Evanescence, com toneladas de lápis preto para os olhos e hits grudentos.
Mas não só de padrões viveram os anos 2000. Afinal, foram neles que uma baterista mestiça, baixinha, que toca como uma criança de cinco anos e só veste preto, branco e vermelho apareceu para o mundo. Pois esta é Meg White, que junto com Jack White forma o duo guitarra e bateria do White Stripes. E a década também termina com boas surpresas, como a banda francesa Les Plasticines, a escocesa Câmera Obscura, com Tracyanne Campbell nos vocais, e Alison Mosshart, do The Kills, agora junto com Jack White no projeto The Dead Weather.
Atualmente, a maior representante do cenário de rock brasileiro é a baiana Pitty. E com ela, surgiram várias aberturas para trazer mais bandas de meninas para o mainstream como Ludov, Leela e Lipstick. Na cena underground ainda resistem a Dominatrix, As Mercedes e Infect. E é certo que mais unhas bem cuidadas irão dedilhar longos riffs de guitarra, afinal, o rock já é delas.
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