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24/06/2010 - 12h41 - Atualizado em 06/02/2012 - 14h35

Cemitério é um lugar de paz

Por Paulo Pacheco, aluno do 2º ano de Jornalismo

Mestre do terror, Zé do Caixão pretende levar violência urbana ao cinema

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Reprodução

Zé do Caixão tem sentimentos. Aos 74 anos, o cineasta José Mojica Marins, consagrado no gênero terror, quebra o estereótipo e revela seu lado “avô” ao mostrar-se preocupado quanto à falta de segurança nas ruas. Mas se engana quem pensa que deixará a situação como está. Planeja expor a violência no cinema, além de seguir com outros projetos, como o de um filme sobre lendas de Pouso Alegre (interior mineiro), previsto para estrear em 2011.

Enquanto autografava o DVD de seu primeiro longa, A Sina do Aventureiro, lançado na última semana na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Pompeia (SP), concedeu uma entrevista exclusiva em que revela se o terror ainda assusta, a censura que sofreu da Igreja, os próximos planos e quantos cemitérios já visitou.

Por que A Sina do Aventureiro só saiu agora em DVD?

Foi lançado em 1958 no cinema e os padres proibiram. Tive que ir para o interior e, em cada sala onde ia passar, revertia uma parte dos lucros para a Igreja da cidade onde estava, para que não proibissem. Foi uma fita que trouxe muitos problemas para mim, mas, ao mesmo tempo, abriu um caminho grande, porque foi o primeiro CinemaScope - técnica que utiliza lentes anamórficas para gravar filmes widescreen - brasileiro. Sinto-me orgulhoso por ter essa ousadia, porque na época diziam que não era possível fazer isso no Brasil. E, daí em diante, abriu-se o caminho para todos os filmes de Mojica, e entrei naquilo de que mais gostava, que é o gênero terror.

Mas A Sina do Aventureiro não é de terror, é?

Não, é um bangue-bangue. Para a época era violento e o consideraram muito erótico. Hoje não tem mais isso.

O terror não assusta mais?

Não. Hoje o gênero para assustar é difícil, porque o terror natural é muito maior do que o de ficção. Você sai na rua e não sabe se volta para casa. Vivemos um momento terrível, principalmente eu, que tenho filhos e netos. Fico preocupado o tempo todo. Sempre há reclamações, coisas acontecendo perto de casa. Estamos vivendo tempos de violência que devem ser levados ao cinema. Se ninguém se preocupar com isso, ano que vem devo abordar esse tema no cinema, para ver se quem entrar na Presidência começa a levar por um caminho mais sério. E usar o cinema, que é uma comunicação geral, como um emissor, para que o povo, principalmente a juventude de hoje, saiba o rumo a seguir.

Quer dizer que, depois de Encarnação do Demônio, haverá mais um filme do Zé do Caixão?

Encarnação do Demônio faz parte de uma trilogia que só termina com Sete Ventres para um Demônio. Meu próximo filme, Corpo Seco, não tem nada com encarnação. É uma obra de terror que vou fazer em Pouso Alegre (MG), sobre uma lenda local.

Há previsão para estreia?

A de Corpo Seco só será em 2011, porque nesse ano vou trabalhar no lançamento de A Praga - de 1980 -, que só faltam dois minutos para fazer a apresentação e será lançado em outubro.

Em 2009 e 2010, fez o “Cinetério” no Cemitério da Cachoeirinha (zona norte de SP). Isso o senhor já faz há um tempo...

O “Cinetério” eu faço há uns 30 anos. Isso para mim é a coisa mais normal do mundo. Tanto ir, dormir numa tumba aberta, não tem problema. Ou mesmo ficar em uma câmara de cadáveres congelados, já fiz isso muitas vezes.

Quantos cemitérios já visitou?

Entre o Brasil e o exterior, acho que uns 400. É muito cemitério.

Há mais do que pessoas mortas ali?

Tem muita coisa. Mas é legal, porque ninguém fala mal de ninguém. É um lugar de paz.

 



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