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18/06/2010 - 08h54 - Atualizado em 21/05/2012 - 16h31

Futebol, boteco e memória

Por Matheus Paggi, aluno do 3º ano de Jornalismo

Fugindo de clichês futebolísticos, “Boleiros” mostra o universo do esporte e critica esquecimento de antigos ídolos

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Reprodução

O cenário é um boteco sem maiores luxos, onde seis amigos estão reunidos e conversam animadamente sobre diversos assuntos, impreterivelmente pertencentes a um único universo: o do futebol. A cena, que poderia se passar em uma esquina qualquer no Brasil, é o pano de fundo para toda a trama que vemos em Boleiros, produção de 1998, dirigida por Ugo Giorgetti.

Mesmo uma década após seu lançamento, Boleiros pode ser visto como uma das raras tentativas de transportar o futebol para os cinemas sem exageros e incoerências a clichês típicos do assunto. Em sua época de lançamento, o longa era uma espécie de estandarte único dessa tentativa, e que, de fato, passava a sensação de que “finalmente” o esporte mais famoso no país ganhava uma produção grandiosa.

Essa grandiosidade fica clara quando se constata dois aspectos básicos da produção. O primeiro se refere ao êxito em registrar com rica verossimilhança o universo futebolístico, mesmo em uma obra ficcional. O segundo, por conta do aspecto histórico que a produção assume ao adotar como narrativa uma historiografia própria do futebol, onde os fatos são baseados na sabedoria oral, e, sobretudo, na memória. Por mais que, em termos de roteiro, factualmente a fantasia predomine, o importante a se analisar são os elementos próprios da cultura do esporte, intimamente forjados na identidade social brasileira e que ficam ora subentendidos, ora expostos na trama.

O enredo é dividido em seis subtramas, cada uma contada por um dos amigos do grupo. Ex-futebolistas, todos falam não como quem apenas conhece os fatos, mas como alguém que, na maioria das vezes, viveu o que está relatando, e, portanto, se veste de uma legitimidade quase que integral do conteúdo transmitido. Mais uma vez, o importante não são os fatos ali mostrados, mas os elementos que dialogam com esses acontecimentos. É o caso da história de Azul, jogador da Portuguesa - em uma clara referência ao atacante Dener, revelado pelo time, e falecido num acidente de carro em 1994 - que após fechar sua transferência para o Nápoli, da Itália, sofre uma batida policial e só é liberado após ser identificado como um jogador famoso. “Isso não vai mudar nunca, nem daqui a 100 anos” comenta um dos amigos, o único negro do grupo, logo após relatar o caso de racismo. O episódio faz uma referência à contradição e hipocrisia do futebol que, até hoje sofre com casos de racismo. E isso mesmo com o maior atleta de todos os tempos sendo negro, e com os vários destaques afro-descendentes dos principais clubes e seleções do mundo.

Paralelamente, a história de um dos personagens se baseia em um dia em que, durante os treinos ministrados por ele em uma escolhinha de futebol voltada para a classe média, um garoto de rua chama sua atenção. Ao dar a oportunidade de participar dos treinamentos, ele percebe que o garoto é um craque, e que tem futuro como jogador. No entanto, o garoto falta sucessivamente aos treinos e ao que fica subentendido, está envolvido com traficantes que não o permitem mudar de vida. Em pouco tempo, o garoto some de vez, e nos leva a questionar quantos iguais a ele não têm o mesmo destino todos os dias no Brasil.

Dentro desses relatos o que fica claro, especificamente em relação ao futebol, é a falta de tato do Brasil com esse que é um dos seus ingredientes culturais mais profundos. Falta de tato principalmente no que condiz à situação de ex-jogadores. O filme retrata com veemência a postura saudosista de craques e ídolos nacionais do passado, relegados a uma condição “mortal”, por vezes, miserável. “Às vezes acho que eu não sou esse das fotos” comenta um deles, olhando para um retrato de quando tinha 20 e poucos anos. O esquecimento dos brasileiros apenas agrava esse sentimento. Entender essa grandiosidade significa perceber a constante relação entre futebol, um determinado período histórico, e a própria vida em si.



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