Em “Estrela Solitária”, o escritor Ruy Castro retrata a vida, tristezas e a lenda por trás de Garrincha

Chamado por Vinícius de Moraes de “anjo das pernas tortas”, Mané Garrincha é o expoente do futebol-arte: o gol pouco importa se o espetáculo de dribles pode ser feito. Não havia um zagueiro que não tremesse antes de entrar no campo para enfrentá-lo. Irônico é saber que, no final da vida, ele não deixasse de tremer se não tomasse um copo de bebida. O retrato da carreira brilhante até a morte causada pelo excesso de álcool é contado no livro de Ruy Castro, Estrela Solitária.
Carregado pelas circunstâncias, passou por situações que não estava preparado, como o casamento infeliz com sua primeira esposa Nair, as injeções no joelho já desgastado, a recusa do tratamento contra o alcoolismo. Todavia, considerar que o casamento de Elza Soares com Garrincha foi um peso para o jogador é fruto da ingenuidade do leitor. Apesar de ele ter passado por algumas saias–justas no começo do romance, foi a cantora que encarou todos os problemas, desde ser ameaçada de morte e chamada de “destruidora de lares” até passar pelas primeiras crises de abstinência e agressões de Garrincha. Por tudo isso, o autor não preferiu não tratar Mané como anjo, mas como pássaro, fazendo jus ao apelido de Manuel dos Santos. Garrincha, como explicado no livro, é o nome de um passarinho comum na região serrana do Rio de Janeiro. E ele era como um: alma alegre, criativo, livre, porém também impulsivo, genioso, impossível de parar.
Contudo, seria bom se as comparações terminassem aí. Ruy Castro força ao comparar Garrincha com seus supostos antepassados da tribo Fulniô e a dedicar um capítulo inteiro a essa alegoria. O autor consegue provar que existe uma relação familiar entre eles, mas esquece de mencionar que o jogador é também descendente de negros. Na realidade, ele é da segunda geração de mamelucos dentro de sua linhagem. Então, é abusar do lirismo e da teoria antropológica determinista – já ultrapassada - falar que se os índios jogariam igual ao Garrincha se tivessem conhecido o esporte.
Também acontece uma acusação infundada ao citar que o “xarope” caseiro que tomava quando criança, o qual contem uma quantidade elevada de álcool na composição. Claro que o “remédio” poderia aumentar a resistência do corpo à substância, mas de maneira alguma pode justificar sozinha o alcoolismo que Garrincha desenvolveu ao longo da vida. Outros fatores, como a hereditariedade, podem explicar a doença, mas pouco disso é tratado no livro. Ruy Castro preferiu se prender a lenda do que ao Garrincha “mortal”. Até mesmo quando se tratava de sexo. Especulações sobre o quão grande seria o seu membro beiram ao ridículo se comparadas a seriedade que permeia o livro, assim como trocadilhos com o nome de sua cidade, Pau Grande.
Ruy Castro, em entrevista na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, declarou que o biografado ideal tem que ser “órfão, solteirão, filho único, estéril e brocha”. Garrincha não era nada disso, já que conheceu seus pais, foi o quinto irmão de nove, casado três vezes e teve 12 filhos legítimos. Depois de muitos processos judiciais, Castro conseguiu lançar a biografia, que apesar dos deslizes líricos, traz o retrato de uma parte da história do Brasil, em que o futebol era mais do que só jogadas de bola parada.
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