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11/06/2010 - 09h10 - Atualizado em 19/05/2012 - 03h16

Fronteira Difusa

Por Giulia Afiune, aluna do 1º ano de Jornalismo

Em filme polêmico, Oliver Stone tenta discutir política na América Latina

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Reprodução
O presidente Hugo Chávez e o diretor Oliver Stone

Em seu novo filme Ao Sul da Fronteira, que estreou no último dia 5, o premiado diretor Oliver Stone percorre a América Latina entrevistando os chefes de Estado de sete países - Bolívia, Equador, Brasil, Cuba, Argentina, Paraguai e Venezuela. O objetivo era retratar a presença expressiva de governos de esquerda na região sob uma perspectiva diferente da adotada pela grande mídia nos EUA.


As entrevistas são mostradas em contraste com imagens veiculadas pela Fox News e pela CNN que apresentam críticas superficiais e infundadas a esses governos. Um exemplo é a freqüente associação dos governantes ao narcotráfico e ao terrorismo. E, dessa forma, é oferecida uma espécie de direito de resposta aos líderes.

Stone retrata um problema real, mas de forma floreada. Seu foco é o presidente venezuelano Hugo Chávez. Em conversas informais com o diretor, Chávez relata sua trajetória política, mesclada à História recente da Venezuela, e episódios de sua vida pessoal. Em uma busca válida por mostrar o homem por trás da figura diabólica presente na mídia, o diretor cai em outro extremo: uma tentativa de pintar um retrato de herói com o rosto de Hugo Chávez.

A articulação envolvente com que o presidente conta suas histórias e declara sua devoção ao povo venezuelano, associada à trilha sonora escolhida para esses momentos, direcionam o olhar do espectador. Se ele estiver atento e antenado, elas não são suficientes para convencê-lo de que Chávez possui apenas esse lado.

Pontos polêmicos de seu regime, como a censura a redes de TV oposicionistas e a cartilha única de educação, não são sequer mencionados. Stone se perde no enaltecimento exacerbado da figura de Chávez, sem considerar essas ressalvas. A única crítica ponderada ao venezuelano mostrada no documentário é feita pelo ex-presidente argentino Néstor Kirchner, quando afirma que nada absoluto é bom e que deveriam existir dez outros candidatos concorrendo à Presidência ao lado de Chávez.

Além disso, diversas situações dão a entender que Chávez foi o precursor dos movimentos de esquerda na região. Ignorando a trajetória política dos outros governantes, o diretor muitas vezes os coloca como meros seguidores do presidente venezuelano.
 
A proximidade com que Stone realiza as entrevistas, retratando situações informais e descontraídas, como um jogo de futebol com o presidente boliviano Evo Morales, passa a sensação de que ele é amigo do entrevistado, em vez de manter um distanciamento profissional que confira maior confiabilidade ao seu trabalho. Por outro lado, é um primeiro passo para desmistificar a polêmica em torno do assunto.

A iniciativa de dar voz a líderes políticos que não têm espaço na grande mídia é corajosa. Stone tem o mérito de buscar o outro lado da moeda. Dessa forma põe em evidência um necessário contraponto aos clichês vigentes dentro da grande mídia. Mas é preciso ir além dos elogios excessivos e encarar o problema com mais profundidade, afinal, não vivemos mais na Guerra Fria, durante a qual a dicotomia “Capitalismo X Comunismo” bastava pra explicar o complexo mundo político.

O documentário reúne uma coletânea de discursos e imagens sem mostrar as conseqüências concretas de cada um deles. No final, o próprio Oliver Stone se torna o entrevistado e deixa sua opinião acerca do assunto: O capitalismo predatório acaba com as pessoas. Faltou mostrar como.