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09/06/2010 - 14h45 - Atualizado em 20/05/2012 - 09h49

"O Abraço Corporativo” mostra o lado frágil da mídia

Lidia Zuin

Documentário discute a falta de filtro nas redações ao avaliar sugestões de pauta – e o espaço que os meios de comunicação concedem a assuntos irrelevantes

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Foto de Eduardo Barillari
O consultor de RH fictício, Ary Itnem, foi à Avenida Paulista divulgar a "Teoria do Abraço". Confira o vídeo.


Há cinco anos o jornalista Ricardo Kauffman vem trabalhando no documentário “O Abraço Corporativo”. Com lançamento previsto para dia 18 de junho, o filme é uma produção independente, sem patrocínio nem merchandising. A idéia da “Teoria do Abraço”, abordada no longa-metragem, foi inspirada na campanha Free Hugs, promovida em 2006 pelo australiano Juan Mann. Foi a partir daí que Kauffman criou o roteiro em que se destaca o ator Leonardo Camillo, intérprete de Ary Itnem, um fictício consultor de RH.

Com 692.850 acessos ao vídeo gravado na Avenida Paulista e divulgado no YouTube, Ary Itnem tornou-se uma pauta para a imprensa. Veículos como Marie Claire, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, Veja, CBN e TV Record deram espaço a esse personagem que passa adiante uma campanha desenvolvida pela Confraria Britânica do Abraço Corporativo (CBAC). Itnem seria o representante oficial para a América Latina. O documentário mostra diversas cenas em que órgãos de imprensa entrevistam, fotografam, gravam falas do representante da CBAC – abraçando uma árvore, gritando contra o stress do trânsito, entre outras. Na realidade, o registro dessa confraria, realizado em cartório (Alphaville, Barueri) indica tratar-se de uma instituição fictícia.

“O filme tem como intuito defender o jornalismo diante da mecânica atual que fragiliza o trabalho do repórter”, comenta Kauffman. Segundo o diretor, há quinze anos as redações chegavam a barrar uma reportagem durante semanas caso a apuração fosse considerada insuficiente. Hoje, no entanto, a mídia tende a pressionar o jornalista a “preencher espaços”. “Atualmente há uma pressão, uma obrigação de cumprir um trabalho e de preencher espaços, acima de tudo”.

Grandes destaques foram dados a Ary Itnem, que no próprio nome faz um quase anagrama à palavra “mentira”. O caderno Equilíbrio, do jornal Folha de S.Paulo, discutiu a respeito de pessoas que convivem com suas características físicas, trazendo Itnem como um dos personagens por causa de seus dentes (ele se compara ao cantor Ney Matogrosso, que tem a mesma falha na dentição, conhecida como diastema). Já o jornalista Heródoto Barbeiro gravou entrevista de 21 minutos com a personagem criada por Kauffman para seu programa “Mundo Corporativo”. O comentarista Gilberto Dimenstein não se furtou de comentar a “nova onda” que chegava da Grã-Bretanha, em uma de suas participações no rádio.

Na parte final do documentário, professores (Carlos Manuel Chaparro e Eugenio Bucci) e profissionais (como Juca Kfouri e o próprio Barbeiro) discutem a precariedade do atual momento da reportagem. “Pedi ao Juca Kfouri para realizar uma ponte com o Heródoto Barbeiro. Penso que ele é um bom representante do jornalismo e, por isso, quis que concedesse um depoimento para o filme”, relata o diretor – afinal, Barbeiro foi uma das vítimas do release não checado.

Kauffman comenta que não tem conhecimento de nenhum veículo que tenha publicado nota para explicar que Itnem era um personagem fictício de seu documentário e que a “Teoria do Abraço” era uma invenção. Ou seja, o velho “Erramos” caiu no desuso.

Apesar das “gafes” que o documentário registra, Kauffman não acredita que falta competência na apuração jornalística atual. Ele indica que deixou pistas de inconsistência nos discursos de Itnem e também no site oficial da confraria, convidando o usuário a conferir o registro da CBAC. “Era necessário certo olhar para perceber que algo de estranho havia ali. O Ary Itnem sequer apresentava sua carteira de clientes e, caso alguém procurasse pelo histórico da CBAC, não acharia nada”, conta.

Para o diretor, o filme acaba mostrando que o jornalismo atual produz pautas já prontas, que só necessitam de alguma fonte para confirmar uma idéia previamente construída. “A mensagem ou a reportagem é definida antes mesmo de iniciar a apuração. Esta é uma armadilha em que qualquer repórter pode cair”, conclui.

Serviço

"O Abraço Corporativo"
Documentário
Suporte: digital
Duração: 75 minutos
Produção: Idéia Forte
Co-Produção: Miração Filmes /Olhar Imaginário

Pré-estréia: às 23h, dia 12/06
Cine Belas Artes (Rua da Consolação, 2423)
Entrada: R$16 (inteira) e R$8 (meia, para estudantes e idosos)



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