Pedro Doria conversa sobre internet e jornalismo na rede
Vestindo blazer com jeans e tênis all-star, o carioca Pedro Doria ocupa o cargo de editor-chefe de conteúdos digitais do jornal O Estado de S. Paulo. Formado pela UFRJ em 1999, Pedro quase virou engenheiro, por pressão do pai. No entanto, a paixão falou mais alto e Doria entrou para o mundo do jornalismo. Ainda bem. Há dois meses no ar, o novo portal do Estadão, pioneiro no país em integrar redes sociais, foi feito por ele.
Pedro trabalhou na TV Globo, na Câmera do Rio, foi editor internacional do No Ponto e No Mínimo. Foi colunista da Folha de S. Paulo e hoje escreve sobre tecnologia no Estado. Já ganhou diversos prêmios, entre eles o The Bobs da Deutsche Welle e o Best Blogs Brazil. Casado e esperando o segundo filho, Pedro fala sobre a informação na rede e o trabalho de reconstrução do portal do Estadão.
Como deve ser a preparação do jornalista para trabalhar no mundo 2.0 de hoje?
O importante é estar preparado para os solavancos. Jornalismo é uma profissão para aventureiros. Quem tiver com vontade de contar bem uma história sempre vai encontrar maneiras de o fazer. Eu não acho que todo mundo tem que saber fazer vídeo, escrever flash, escrever tão bem quanto Gay Telese e apurar como Helio Gáspari. Tem espaço para aquele velho jornalista investigativo, para o cara que quer escrever um texto do cacete, para quem quiser explorar com multimídia e para quem quiser fazer mais de um desses: tem espaço pra todo mundo. Se não fosse a questão econômica, para nós jornalistas, o mundo estaria muito mais interessante. As possibilidades que temos hoje para contar uma história são muito mais amplas. O acesso que temos à informação é muito mais fácil.
Você acha que o modelo adotado pelas universidades hoje é o ideal para o ensino de jornalismo?
Estou afastado das escolas de comunicação há tanto tempo que seria irresponsável de minha parte fazer um julgamento desse tipo. Posso dizer que a turma que chega aqui no Estado vem conhecendo o que tem que conhecer. Vem afinada, vem bacana. Eu só não sei te dizer se aprende por conta própria ou se aprende na sala de aula. Mas que eles estão vindos preparados, estão!
Você recentemente fez pós graduação no Vale do Silício, sobre a transição entre o jornal e a web. Foi diretamente ligado com a construção do novo portal ou um projeto pessoal?
Não foi diretamente ligada ao jornal, eu ainda não era editor-chefe. Era uma coisa que eu queria estudar, que eu já trabalhava; foi isso que eu fui fazer. Evidentemente, eu usei muita coisa no desenvolvimento do site.
Quanto tempo demorou pra vocês construírem o portal?
Seis meses. Muita gente esteve envolvida. Além de toda a nossa equipe de web, contratamos uma excelente consultoria catalã chamada Cases Y Associats. Também trabalharam conosco uma turma de Barcelona e uma equipe da casa comandada pelo Chico Amaral, designer brasileiro que trabalhou tanto no projeto do jornal quanto no do site. Foi um bocado de gente, um trabalho intenso de pesquisa, aproveitando o melhor que pudemos das principais redações americanas.
Mas essas equipes não são apenas um estúdio de design?
Design é a maneira como você organiza informação, logo, a consultoria deles foi bem mais do que apenas desenho gráfico. Tivemos muito esforço nosso também: como essas mudanças foram definidas em diversas reuniões de brainstorm, chegou um momento em que não sabíamos mais o que era criação nossa e o que era idéia deles. Foi um conjunto de cabeças diferentes pensando em um só produto.
O Estadão optou por seguir o modelo europeu de design. Por que isso funciona melhor para os brasileiros?
O modelo escandinavo não funciona para ninguém fora da Escandinávia: é uma zona completa, uma bagunça. Surpreende-me que eles funcionem na Escandinávia! (risos). Eu acho o modelo europeu mais organizado. Os americanos tentam emular a aparência das primeiras páginas dos jornais, o que para mim é perfeito, faz todo o sentido. Mas eu acho que não fica muito claro para o leitor o que é mais e o que é menos importante. Deixamos tudo mais organizado pro leitor do Estadão, a hierarquia é bastante clara.
Perto do lançamento do site, surgiram críticas bem fortes: a opção pelo fundo mais escuro, do azul, de uma cor mais forte e do espaçamento entre notícias. Podemos esperar alguma alteração nesses itens?
O espaçamento já existe – foi um erro mesmo, estava tudo muito grudado. A fonte estava em um tom mais claro, então escurecemos, aumentamos um “tiquinho” e retrabalhamos o espaço para ganhar mais brancos entre os títulos e chamadas. Essa foi uma crítica absolutamente pertinente e corrigimos de presto. Sobre o fundo azul, eu acredito que seja uma questão de gosto. Não me incomoda. Isso atende um dos nossos objetivos: queríamos que o site tivesse uma cara diferente dos outros sites. Queríamos ser diferentes. Achamos que toda a internet brasileira está ficando parecida. As possibilidades para a internet são as mais diversas. O objetivo era deixar claro, entre outras coisas, para o leitor, que o site do Estado de S. Paulo é diferente dos outros portais. E é mesmo: temos outros critérios de edição e outros objetivos. Não temos um portal geral, temos um site que é um site de notícias e não queremos ser outra coisa.
Vocês tiveram um ganho em audiência muito grande comparado à média do portal. Isso aconteceu pelo novo design da reconstrução do site ou pela repercussão que teve nas mídias sociais?
Eu acho que foram os dois. Março foi nosso melhor mês na história. Entramos no ar com o novo site dia 14 de março e foi recorde de audiência mesmo. Quase chegamos a 19 milhões de leitores! Em geral, quando um site muda a cara, a audiência cai, por vários motivos de como a internet funciona. Entregamos para os leitores um site que é muito mais fácil de navegar, muito mais claro. Não importa o que você estiver procurando, na primeira página você encontra. E também tivemos uma repercussão muito grande nas mídias sociais, estamos aprendendo a trabalhar com elas.
Como é, ou como deveria ser, o conteúdo desenvolvido para celulares e smartphones?
Temos uma vaga idéia de como um site de notícias deveria ser hoje. A internet comercial começou em 1995. São 15 anos depois. Smartphone é uma coisa que tem dois anos de idade, vai começar a ser popular mesmo daqui a dois ou três anos. Nós vamos começar a fazer experiências. Temos que pensar muito em que tipo de informações o sujeito quer quando ele está com o celular na mão. Um dos tipos que é extremamente claro para mim é trânsito. Se você quer saber como está o trânsito, na versão mobile isso tem de ser mais importante. Outro tipo de informação: roteiro. Roteiro de cinema, roteiro de teatro ou roteiro de restaurante. Que tipo de informação você quer ter quando está na rua? Eu acho que o celular tem de ser muito rico com esse tipo de assunto. É preciso entender que a web, na tela pequena, é diferente.
Vocês planejam criar conteúdo específico para celular? Como vai ser isso?
Sim, sim. É Top secret ainda... mas temos planos.
O mesmo vale para o iPad, tablet da Apple?
No iPad, nós já temos uma versão. Inclusive, nós fomos o primeiro jornal a ter um aplicativo pra iPad. Mas ainda não é uma versão ideal. Fizemos o aplicativo às cegas, como uma adaptação do aplicativo de iPhone. Agora que temos o iPad em mãos, estamos estudando como levaremos a leitura do jornal para esse aparelho novo.
Até o final do ano, podemos esperar mudanças em produção de conteúdo para celular e para iPad?
Para ambos. A gente tem um software de política para iPhone saindo agora. E o novo site de política. Muita coisa nova vai acontecer.
No seu blog, você escreveu um post que talvez seja o seu mais famoso: “O dia em que eu matei o meu blog”. Você comentou que cada blog é um microcosmo da sociedade. Nessa metáfora, o que é o site do Estadão?
Um blog forma uma comunidade que vai ter suas disputas particulares, suas brigas particulares, suas conversas particulares. Em um blog, as pessoas se conhecem. Já em um site grande como o Estadão, o que nós tentamos fomentar é a formação de várias comunidades. Olho para o site de Economia & Negócios e vejo ali o lugar onde pode nascer uma comunidade de pessoas interessadas em economia. A mesma coisa sobre Política, o mesmo sobre Esportes. Se um blog é um microcosmo, num site como o do Estadão, você tem espaço para vários microcosmos.
E na redação? Existe um pessoal dividido entre o portal e o impresso ou todos escrevem para os dois veículos?
Todos escrevem para os dois veículos, uma vez que a gente publica o material do jornal no site. Mas independentemente disso, se o repórter tem uma informação quente, não podemos esperar o outro dia: publicamos na internet.
Existe mesmo a tal convergência?
Existe mesmo. Em Economia & Política, a interação é plena. Em Cidades é um pouco mais difícil, porque os repórteres de Cidades chegam a fazer duas ou três matérias por dia. Temos que descobrir como fazer a interação Cidades, mas estamos tentando.
Você tem alguma equipe de designers ou web designers trabalhando diretamente com a redação? Como isso funciona no Estado?
É tudo automatizado. Temos um software onde publicamos as notícias e, neste caso, o modelo é sempre o mesmo. O que se diferencia são as peças gráficas. Desenvolvemos muito material em Flash, muito material interativo. Temos uma parte de vídeo também, onde estamos subindo mais um degrau, melhorando nossa produção. Precisamos ter sempre à mão uma equipe que saiba fazer vídeo, que possa filmar, editar e produzir.
Muitos acreditam hoje que o Flash está morrendo. Você acredita nisso também?
Eu gostaria muito de não precisar de Flash. Eu gostaria muito que todos os browsers adotassem o HTML5 e permitissem me livrar desse software. Ele faz arquivos muito pesados, trava com muita freqüência, deixa browser lento, site devagar... É um código tão mal escrito que ter que depender do Flash é muito ruim. Mas, por enquanto, ele ainda é o padrão.
Mesmo com o iPad e o iPhone não o suportando?
Mesmo não estando no iPhone e no iPad, ele ainda é um padrão. O fato do YouTube já ser compatível com o HTML 5 acelerará muito esse processo, já que ele é o principal site de vídeos na internet. Mas, ainda assim, temos um problema: cada vídeo tem um pedaço do software chamado codec, que são as instruções que codificam o vídeo. Para tocar um arquivo, você precisa de um codec. Se por acaso você adota HTML5 em um browser, você tem que ter um codec próprio, alguma coisa que faça a tradução desse vídeo. E não existe nenhum bom codec livre. São todos muito caros. Enquanto você não tiver um bom codec livre, o HTML5 permanecerá sendo uma utopia.
Você é entusiasta de software livre?
Não particularmente. Eu uso Macintosh, mas sou agnóstico. A maioria dos softwares da Microsoft são muito caros e muito ruins. Alguns softwares livres como o Firefox, por exemplo, são excelentes. Eu uso um computador da Apple, mas não uso o Safari, pois acho um browser menor. Eu acho o Firefox um baita browser. E é livre! Todos os softwares que eu tenho instalado no meu computador são legais. Eu tento usar os melhores softwares para um objetivo final. Se ele for livre ou não, isso não é uma preocupação minha. Mas eu acho importante o movimento do software livre existir. Acho importante você ter alternativas a softwares de grandes corporações, que tentam impor uma maneira de usar um padrão determinado. Isso é mais relevante do que a questão do pagar ou não pagar.
Vivemos, durante os anos 90, um período de absoluta predominância do Windows. A Microsoft tinha o poder de tirar empresas do mercado. Quando eles sentiam que uma empresa estava produzindo algum software que iria competir com um programa deles, saía uma atualização para o Windows. Daí aquele programa começava a dar pau, parava de funcionar. Foi o caso do Netscape, o clássico. Isso é um problema. O movimento de o software livre permite que nenhuma empresa volte a ter o tipo de poder que a Microsoft teve. Neste sentido, politicamente, o movimento do software livre é importantíssimo.
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