Em “All Days Are Nights: Songs For Lulu”, cantor vasculha a sua já famigerada melancolia
Desde o álbum homônimo, Rufus Wainwright mostrou que chegou no meio musical para se estabelecer, despertando a atenção de muitos pela voz pulsante, em canções com carga dramática bem acentuada.
All Days Are Nights: Songs For Lulu, realça a sensibilidade ofuscada em algumas canções de seu último trabalho de estúdio, Release The Stars, em que sua voz e interpretação soam mais despretensiosas e sem o tom de constante tristeza empregado em grande parte de seu repertório. Um ótimo exemplo é Between In My Legs, música que se encaixaria perfeitamente em um álbum do cantor Mika.
No novo cd, ele escancara a melancolia tão presente em trabalhos anteriores, disciplinando a sua voz ao utilizar um tom mais tênue nas interpretações, mas sem dispensar as performances com extensão vocal em determinadas partes das canções, como no caso de The Dream.
Os arranjos orquestrais foram deixados de lado, cedendo lugar ao piano do cantor, que serve de acompanhamento à voz, carregada de emoção; fruto dos recentes acontecimentos de sua vida. A morte da mãe e também cantora, Kate McGarrigle, colaborou para o clima que impera no álbum. A estrutura piano, voz e letras que despem os sentimentos do cantor por completo, caracterizam o cd como algo visceral. Ouvimos um Rufus à flor da pele nas doze faixas desse novo trabalho.
Gratas surpresas ‘recheiam’ a obra: a ária Les Feux D’artifice T’appellent e três sonetos de Shakespeare musicados pelo compositor são os pontos altos do álbum, explicitando a versatilidade do artista, ao cantar versos em línguas distintas, o que implica em uma sutil mudança na interpretação, um diferencial responsável por pontuar bem as facetas dele.
A música Sad With What I Have destaca a grandeza da atuação da voz de Rufus, do primeiro ao último segundo. A letra carregada de construções imagéticas fortes, a caracterizam como uma canção lapidada meticulosamente, devido ao tema vinculado à tristeza e suas dimensões.
A atriz Louise Brooks (A Caixa de Pandora) é citada com a menção no título do álbum. A Lulu que o cantor se refere é a artista que exemplifica a paixão que nutre por figuras femininas, como Judy Garland, seu grande ícone, já homenageada no álbum ao vivo Rufus Does Judy At Carnegie Hall.
Após trabalhar com Jon Brion no álbum de estreia e Marius de Vries em Want One e Want Two, - produtores conhecidos por emplacar trabalhos com artistas como U2 e Madonna, respectivamente - ele poupa o trabalho de profissionais da área, vasculha seu íntimo e toma as rédeas nesse novo cd. Opta por privilegiar a profusão de sensações existente em seu interior, através do empenho e franqueza investidos na obra.
Comentários Postados
Acho incrível como um artista tão complexo pode ser menosprezado pelo grande público. Tô super curiosa pra ouvir o disco novo.
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