Beth Goulart usa da semelhança física e admiração para viver Clarice Lispector
Clarice Lispector, uma das mais respeitadas autoras da literatura brasileira, ganha uma justa homenagem nos palcos. Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, Simplesmente Eu, Clarice Lispector mostra a própria escritora, além de mais quatro personagens criadas por ela, transpostas para o palco pela atriz Beth Goulart, que assina também a direção do texto.
A ideia de interpretar Clarice surgiu da própria admiração de Beth pela escritora. No início, entretanto, não sabia exatamente o que fazer, apenas que escreveria algo sobre Clarice. Até que se deparou com um livro de correspondências entre a autora e o escritor Fernando Sabino. Assim o espetáculo começou a ser delineado. “Foi aí que eu comecei a enxergar a Clarice como personagem”, relata. Entretanto, Beth conta que não obteve autorização da família de Sabino para ir adiante com o projeto. Mesmo assim, seguiu adiante, com base em textos e entrevistas que Clarice fez ao longo da vida.
O processo de criação do espetáculo demandou da atriz dois anos de pesquisa. Para conseguir dar conta das apresentações – a peça está em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro – Beth pediu uma licença da Rede Globo, emissora da qual é contratada, e, assim, dedicou-se exclusivamente ao trabalho no teatro.
A escolha das personagens e do que estava no papel foi subjetiva, como conta Beth: “Você escolhe coisas que te tocam, que têm a ver com seus valores. Há uma pessoalidade na maneira de contar a história”. Trabalhar em cima dos textos de Clarice exigiu que ela fizesse “pequenas intervenções”, como a mudança do narrador da terceira para a primeira pessoa. “Assim, proponho que o público vivencie o que está sendo contado junto comigo”, explica. A grande interferência foi na junção dos textos. “Juntei coisas que eram de contextos totalmente separados”. Ela, porém, considera que fez mais um trabalho de dramaturgia do que uma ingerência na literatura de Clarice.
Os momentos de epifania, tão presentes na obra de Clarice, também ganharam uma versão no palco. Imagens do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, são projetadas no fundo branco, que compõe o cenário, complementadas pela iluminação e música que é tocada. A personagem Ana mergulha num misto de sensações, provocando uma lentidão de gestos e um deslocamento dimensional. E, desse modo, envolve o público. “A minha proposta é fazer um espetáculo sensorial, para sentir a Clarice”.
Versátil no palco, Beth transita com facilidade entre uma personagem e outra. A semelhança física da atriz com a própria Clarice é impressionante, além do meticuloso trabalho vocal e expressivo que demonstra quando a autora assume o espaço cênico. O reconhecimento do empenho veio na forma de prêmio. Beth foi a grande vencedora da etapa carioca do Prêmio Shell de teatro, na categoria de melhor atriz. “Esse trabalho só tem me trazido alegrias”, finaliza.
Simplesmente Eu, Clarice Lispector
Centro Cultural Banco do Brasil: Rua Álvares Penteado, 112 - Centro
Ingressos a R$15
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