Minhocão resiste às críticas servindo como espaço de lazer aos domingos

“Botaram tanto metrô e minhocão pelos ombros da cidade que a cidade está cansada, sufocada, está doente”. Os versos de Tom Zé exemplificam a querela envolvendo a construção do Elevado Costa e Silva, o Minhocão. No entanto, a via que inicialmente privilegiava os automóveis, se transforma em pista para passeio e prática de exercícios físicos aos domingos.
Os 3, 4 quilômetros do elevado, que liga a Praça Roosevelt, no centro, ao Largo Padre Péricles, localizado na zona oeste, atendem aos moradores das regiões próximas. A aposentada Rosa Segantini, de 61 anos, mora na Praça Marechal Deodoro e mantém há cerca de cinco anos o hábito de correr e caminhar no Minhocão. Um consolo para quem aguenta o barulho durante a semana. “O visual estraga, mas, se o Minhocão não resolveu o [problema do] trânsito, imagina sem ele”, se resigna.
O professor e jornalista Silvio Henrique Barbosa mudou-se há três de Perdizes, na zona oeste, para a Avenida General Olímpio da Silveira, que passa sob o elevado. Aos domingos, a vista que tem do sétimo andar de seu apartamento se altera para melhor. “De segunda a sábado, é aquela estrutura fria, onde só passam carros. No domingo, o dia amanhece de outra forma, em silêncio”. Apesar de os vizinhos o aconselharem a não instalar janelas antirruído, pois se acostumaria rapidamente com o som vindo do Minhocão, ele o fez. “Ouço um barulho, mas é como se fosse o de uma geladeira barulhenta”, descreve.
Já o garçom Sebastião Cavalcanti, de 65 anos, se habituou com a poluição sonora. Residente na também movimentada Avenida Rio Branco, no centro, percorreu duas vezes o elevado antes de descansar no canteiro. “Onde vivo também tem barulho. Se tivesse que morar aqui, moraria”, conta, ofegante.
A via expressa não atrai somente esportistas. O fotógrafo Felipe Denuzzo, de 34 anos, reside há poucas quadras do Minhocão, e sente-se atraído “pela temática urbana, por ser uma intervenção estranha no meio da cidade”, declara, ao mesmo tempo em que preparava seu equipamento para fotografar as edificações em torno do elevado.
Da Santa Cecília, a dona de casa Laíde Moreira, de 49 anos, aproveita a via como canto de leitura. “É melhor ler aqui do que em casa, pois é mais iluminado e arejado”, diz. Mesmo a luz da tarde ensolarada não incomoda sua visão. “O sol é divino, falo com ele direto”, completa.
Junto dos visitantes e atletas de final de semana, o Minhocão recebe comerciantes dos mais variados produtos e serviços, a maioria refrescantes. O vendedor de cocos não quis se identificar, mas não titubeou quando lhe foi perguntado o preço da mercadoria: R$ 1,50.
Luís Carlos dos Santos, de 44 anos, vem da Bela Vista para vender picolés no elevado. “Vou aonde está a criançada”. O sorveteiro comemora, porque após a manhã chuvosa, o sol apareceu. Mostra que a meteorologia é fundamental para seu comércio. Contudo, é cauteloso. “Hoje a máxima é de 31ºC, mas vai chover. O céu lá no Pico do Jaraguá está limpo, mas quando sujar...”, prevê.
Mesmo criticado por deteriorar a cidade, o Elevado Costa e Silva, cuja obra foi iniciada em 1970, pelo então prefeito Paulo Maluf, resiste ao tempo. A interdição das 21h30 às 6h30 e aos domingos, instituída por Luiza Erundina, em 1989, deu sobrevida à via, que virou prêmio de consolação para quem busca lazer e descanso na metrópole. Aliás, o passeio termina na Rua da Consolação, o ponto final do Minhocão.
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