Na manhã da quarta-feira, 5 de maio, a redatora-chefe do suplemento El Cultural do jornal El Mundo abriu o terceiro dia de debates do II Congresso de Jornalismo Cultural promovido pela Revista Cult no TUCA, em São Paulo. Na mesa “Conferência – Os suplementos de cultura e o desafio do mercado contemporâneo”, Nuria Azancot apresentou o papel dos suplementos de cultura e seus desafios no mercado contemporâneo, com sua fala fundamentada no conceito frankfurtiano de cultura de massa.
Para Azancot, a cultura no mundo globalizado é cada vez mais um negócio, ainda que não saiba defini-lo como bom ou ruim. Por essa razão, a crítica de literatura ponderou que, a exemplo do que realiza no El Cultural, um suplemento deve manter seu foco mais abrangente, para interessar não somente o público já cativo das páginas culturais, mas também os leitores do jornal como um todo. Em sua concepção, o suplemento cultural é uma porta aberta para a educação do povo. “O suplemento cultural deve dar instrumentos ao leitor que permitam que ele reaja de forma crítica diante da sociedade e busque soluções para as questões.”, afirmou.
Nuria reforçou ainda a dimensão simbólica da cultura e o papel que o suplemento exerce na reflexão pública da sua produção. Ao fim, concluiu que esta ponderação deve ser bilateral, sendo também papel do jornalista questionar, desconfiar. “O jornalista cultural deve tentar ajudar o leitor, sobretudo, a desconfiar. Recomendo a vocês que desconfiem de tudo”, pontuou, pragmática.
O entretenimento como não alienante
No segundo debate do dia (Os limites instáveis entre a cultura e o entretenimento), a bancada foi composta por Laura Greenhalgh (editora-executiva do Estado de S.Paulo), Marcos Augusto Gonçalves (editor de Opinião da Folha de S.Paulo), Raquel Garzón (editora do caderno Idéias do jornal El Clarín na Argentina) e Vladimir Safatle (professor de filosofia da USP). O tema proposto acabou promovendo o debate mais animado da manhã.
Garzón iniciou sua fala tratando o jornalismo cultural como instrumento de olhar para idéias e de produção de reflexões que liguem diferentes temas. Segundo ela, o “jornalismo cultural deve se ver como meio, não fim. Como instigador. Tem que fazer buscar mais, ler mais, ouvir mais música”. Ato contínuo: Greenhalgh sublinhou esta função de amálgama do jornalismo, que é responsável por abrir a cabeça do leitor, fazendo-o refletir sobre as idéias do outro. A editora-executiva do Estadão também afirmou que evita o maniqueísmo clássico em que a cultura é “boa” e o entretenimento “mau”. “Existem níveis da cultura nos quais o entretenimento está presente. O entretenimento faz girar as pás da cultura", finalizou.
Já o filósofo Vladimir Safatle se aprofundou na dicotomia “cultura versus entretenimento” sem desprezar a dimensão social e a importância estética do último. Disse ele que o “entretenimento tem como função organizar o processo de fruição da cultura, de fazer a arte se tornar prazer”. Para Safatle, contudo, existe uma tendência social de que o entretenimento esvazie o processo de estranhamento típico da arte, o qual tem poder de transformação e reflexão nas pessoas. A arte é o que dá forma à instabilidade, segundo o professor, e, portanto, estas duas formas de produção cultural devem coexistir.
Neste ponto, Marcos Augusto comentou que na sociedade em que se vive, é difícil conceber cultura dissociada de mercado. E concluiu o debate com os colegas apresentando seu parecer sobre a postura da mídia em relação a esta questão: “O público que a grande mídia quer atingir é o público conquistado pela indústria cultural”.
A prática do jornalismo
Na última mesa da manhã do dia 5, o alvo foi o jornalismo em si: a importância da edição e o gatekeeping na redação cultural. Participaram do debate Sylvia Colombo (editora da Ilustrada da Folha de S.Paulo), Rosane Pavan (editora de cultura da revista Carta Capital) e Claudia Laitano (editora de cultura do jornal Zero Hora).
Sylvia Colombo iniciou comentando das dificuldades de se selecionar as informações não só relevantes, mas interessantes para o leitor, principalmente agora, com a nova redação integrada da Folha (a qual congrega impresso e online). A validade e a rapidez do “consumo” do texto, para ela, torna mais difícil a avaliação das tendências na área cultural. Claudia Laitano definiu o momento: “Nós jornalistas somos empacotadores de possibilidades culturais”. A editora complementou que é importante lidar com as cobranças da audiência num momento de “novo jornalismo cultural”.
Rosane Pavan dividiu sua experiência na Carta Capital e fez um apelo para que o leitor não fosse subestimado, pois este sempre quer e espera mais da publicação. E amealhou os fios soltos das discussões na manhã de quarta, no TUCA: “O texto deve ser sempre desafiador, pois assim é o jornalismo cultural”.
Mais reflexão que informação
A mesa de debate “O jornalismo cultural tem condições de debater a complexidade das manifestações culturais contemporâneas e produzir reflexões consistentes sobre elas?” contou com a participação de Daniel Piza (editor-executivo e colunista do jornal O Estado de S. Paulo), Danilo Santos de Miranda (diretor do SESC-SP) e Marcos Flamínio (editor do caderno Mais! do jornal Folha de S.Paulo). A mediação foi feita por Mariza Werneck (professora de antropologia e estética da PUC/SP).
Miranda quis, em primeiro lugar, ressaltar a efervescência e a diversidade cultural presentes na cidade de São Paulo. Apesar de notar tais qualidades, ele preferiu pôr em cheque os problemas de âmbito mundial a respeito das reflexões sobre cultura. Isto, segundo Miranda, acaba causando interferência no jornalismo cultural. Piza prolongou este assunto comentando que o trabalho do jornalista cultural é, justamente, provocar a reflexão mais do que se preocupar em ser informativo. Ele relembra que há 300 anos, em Londres, publicações como a Spectator, já tentavam tirar do âmbito doutoral conteúdos que deveriam ser levados para “as ruas”. O colunista também contou que esse trabalho era feito de maneira dinâmica, num tempo em que a cultura estava em plena atividade produtiva. Para ilustrar, Piza comentou sobre as revistas criadas durante o modernismo, as quais traziam elementos do movimento concretista que acabaram influenciando também a diagramação dos jornais.
Piza quis esclarecer que até hoje a função dos cadernos culturais é a mesma: dar aos consumidores de cultura o direito de refletir, debater e não se manter apenas na qualidade de espectador. Ele também opinou que os espaços reservados à cultura deveriam ser compartilhados com pautas relacionadas à gastronomia e à moda, por exemplo. “Esses assuntos já eram comentados antigamente. Machado [de Assis] já dizia que devemos falar desde os assuntos frívolos aos graves”, contou. Piza discorreu sobre a variedade de assuntos que Machado abordava em seus escritos e que os folhetins da época experimentavam formas livres e múltiplas, praticamente antecipando o atual conceito dos blogs.
Uma crítica feita pelo colunista do Estadão foi que o jornalismo cultural acaba ficando reservado apenas aos grandes veículos e que estes acabam levando a culpa por não conseguir cumprir seu papel. Piza declarou que faltam formatos no Brasil e que poucas revistas nacionais que tentam seguir a segmentação da cultura acabam vingando: “Elas ou modificam ou vão para um site. Mesmo assim, não há suplementos com ensaios e resenhas que, enfim, é um formato ainda não arraigado no Brasil”. A dificuldade para Piza está em achar acadêmicos que saibam escrever para o grande público, afinal, “a cultura não pode ser restrita e os assuntos não podem ficar ‘guetizados’ nos especialistas”. Para finalizar, Piza reiterou que o jornalismo cultural não tem como principal objetivo a informação, mas a orientação de reflexões.
Flamínio, que foi o último a falar, começou defendendo que o jornal impresso “vai bem”, pondo em questão a atual idéia de que há uma crise neste mercado editorial. O editor reforçou a necessidade de não se recorrer a especialistas, como foi anteriormente dito por Piza: “Hoje ninguém poderia ter esse total domínio como antigamente outros tiveram. Naquela época, isso acontecia porque a academia produzia e se aprofundava muito”. Por fim, Flamínio concluiu que já não é mais viável investir na especialização, por motivos quantitativos, tendo em vista a internet, e qualitativos, enquanto os veículos não buscam tanto aprofundamento nos assuntos.
O governo e a cultura
Foram convidados para o debate “As políticas públicas culturais. O papel do Estado na dinâmica cultural e a distribuição de recursos” o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Alfredo Manevy, o jornalista e professor da ECA/USP, Eugênio Bucci, e o advogado Fabio Cesnik.
A mesa, mediada pelo historiador Gunter Axt, que também ministrou a conferência com Beatriz Sarlo, tomou como assunto inicial a maneira como o governo brasileiro considera a cultura. Manevy, que antecipou a visão de cultura como controle social, fez menções honrosas a Gilberto Gil, reforçando o papel do ministro ao fazer o Estado cada vez mais democrático em relação à cultura. Apesar disso, o secretário-executivo fez considerações não positivas sobre a situação brasileira: “O acesso à cultura ainda é difícil: 90% dos municípios brasileiros não possuem Centro Cultural e 80% da população não vai ao cinema, teatro, museu ou espaço de dança”. Ele afirma que é preciso enfrentar a realidade da exclusão cultural, fazendo com que a cultura se torne tão universal quanto a educação também deve ser.
Adiante, Manevy disse que o Estado não é quem produz cultura, mas sim a sociedade: foi assim que ele iniciou seu discurso sobre as políticas públicas que são criadas pelo Estado. O secretário-executivo comentou sobre o incentivo do governo à produção cultural e sobre a liberdade de expressão, afirmando que não há registrado nenhum caso de censura há sete anos e meio. Para encerrar, Manevy quis deixar claro que o orçamento público direcionado à cultura não deve ser considerado um investimento particular de um governo, mas uma política de Estado.
Sobre isso, Bucci disse que finalmente o Brasil alcançou o marco de 1% do orçamento nacional voltado para a cultura, que é a quantidade mínima recomendada pela ONU. O jornalista também reforçou a necessidade de se manter uma união entre a cultura e a comunicação, mas que o Estado investe mais em publicidade quando deveria pensar melhor no investimento voltado para a cultura. Assim, Cesnik falou sobre as duas “obrigações” do Estado perante a cultura: não censurar e ser articulador de ações. Ele recorreu à Constituição para afirmar que não existe uma lei que indique a criação de espaços públicos culturais e que o projeto Vale Cultura, apesar de bom, ainda é muito desigual entre as regiões do Brasil. “O Vale Cultura só acontece, de verdade, nas regiões sul e sudeste”, afirmou. Assim, ele encerrou sua fala propondo uma reforma da Lei Rouanet.
Cinema: quanto mais se vê, mais se acha que sabe e mais se critica
Inácio Araújo (crítico de cinema do jornal Folha de S.Paulo), Laís Bodansky (cineasta) e Luiz Zanin (crítico de cinema do jornal O Estado de S.Paulo) foram os debatedores da mesa “A crítica de cinema e a produção contemporânea”, mediada por Hubert Alquéres (diretor-presidente da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo).
A primeira a se manifestar foi Laís, que acabou de lançar seu filme As melhores coisas do mundo. “Será que os jornalistas sabem quanto é importante para quem produz quando seu produto é divulgado?”, questionou a cineasta. Depois de ressaltar que um final de semana é o tempo que decide o sucesso de um filme, Laís disse que o mercado cinematográfico é “um dos mais desleais, por conta da competitividade pelas salas de cinema e pelo marketing”. E tudo isso, segundo ela, depende da verba destinada ao filme. “É por isso que a mídia espontânea é decisiva”, concluiu.
Laís também falou como o formato cinematográfico é importante quanto à ousadia, característica não facilmente encontrada na televisão. “Os que ousam vieram de outro lugar”, comentou Laís pouco antes de dar como exemplo o filme Cidade de Deus, de Fernando Meireles, que foi para a TV como o seriado Cidade dos Homens. A cineasta quis comentar sobre a internet, mostrando-se positiva quanto aos comentários que são divulgados. Ela contou que procura saber pelo Twitter quais são as opiniões de seus espectadores. “Uma das vantagens da internet é a possibilidade de se ouvir cada um não apenas pelo retorno das mídias oficiais, que é um olhar absoluto mas duvidoso”, finalizou.
Zanin prolongou a discussão da web falando sobre uma “explosão de novos olhares”, provinda da presença de cinéfilos escrevendo em blogs. O crítico afirmou que o cinema é a arte da democracia (“o futebol das artes”), mesmo que existam poucas salas no Brasil: “Se a pessoa não for ao cinema, ela pode ver o filme pela TV ou por DVD”. Porém, Zanin fez ressalva: “O cinema, por ser o mais popular dos formatos, acaba dando a sensação de quanto mais se vê, mais se acha que sabe e mais se manifesta”. Ele considera que a internet traz a “opinião pulverizada”, que “cada um tem a sua opinião e pode exprimi-la na rede”: a pluralidade, para Zanin, enriquece a experiência cinematográfica.
O crítico, contudo, não se mostrou muito feliz com a crítica cinematográfica atual, vendo-a menosprezada diante do que ela já foi outrora, enquanto na função debatedora. “Nos anos 60 e 70, você tinha aquela sensação de que precisava ler a crítica senão vai ficar por fora da discussão. Hoje vemos que nunca se criticou tanto o cinema, mas não há repercussão”, encerrou.
Roda de conversa documental
A noite seria dedicada a um colóquio com João Moreira Salles e Eduardo Coutinho, mas por impossibilidade de pouso do vôo de Salles, acabou sendo uma deliciosa “roda de conversa” com Coutinho. Sérgio Rizzo, o jornalista intermediador, deu a largada para as perguntas da platéia antes mesmo do diretor começar a falar.
O que é documentário? A discussão começou tratando das divergências no conceito e as diferentes formas de se fazer cinema documental. Para Coutinho, documentário “é um filme sobre uma equipe que realiza um documentário sobre alguma coisa”. Do ponto de vista prático, “no documentário você filma pessoas que existiram, existem e existirão”, afirmou o cineasta, sem deixar de lado o humor sarcástico: “Isso se elas não morrerem durante a gravação”.
A conclusão feita é que os personagens surgem, então, de pessoas comuns, as quais acabam entregando coisas que não se esperava delas. Isso porque a personagem é muito mais interessante que a pessoa e tornar alguém um personagem é fazer com que se torne especial. “De uma conversa de uma hora, tiramos sete minutos, tudo isso extraído de uma vida de 60 anos”, afirma o documentarista.
Coutinho chamou a atenção para o fato de que seus documentários não são feitos com base em entrevistas nem depoimentos, mas de conversas – a união entre alguém que quer falar e alguém que quer ouvir. “Conversar” com o personagem está ligado à quebra de ideologias – descobrir alguém que não é você, alguma coisa que você não sabe. O segredo é ter a curiosidade de uma criança de oito anos. “A única coisa que me interessa é o fato de que ninguém sabe por que nasceu e quando vai morrer. No meio disso, é tudo verdade”, reflete.
A paixão de Coutinho pelo gênero se manifestou ao responder o que o leva a fazer cinema documental. “Os momentos filmados são ‘irrepetíveis’”, declarou. “Se o som está ruim, colocamos legenda; se a imagem está estourada, colocamos um fundo preto. Tudo é possível se fizer valer a pena”. O diretor, no auge dos seus 77 anos, se nega a fazer filmes ficcionais. “Não quer arriscar? Faça ficção ou vá ser funcionário público”, completou, divertindo a platéia mais uma vez.
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