Arte do canal

índice geral



Home

10/05/2010 - 16h24 - Atualizado em 07/02/2012 - 00h08

Uma manhã de Clarice e um entardecer de literatura e jornalismo

Texto de Ayana Trad (2º ano) e Ana Lúcia Silva (3º ano) | Edição: Lidia Zuin

Primeiro dia do II Congresso de Jornalismo Cultural, organizado pela Revista Cult, homenageia a escritora Clarice Lispector e discute as relações entre o jornalismo e a literatura

Compartilhe:


Foto de Nelson Mello
A atriz e diretora Denise Stoklos fez
homenagem a Clarice em seu recital
A Poética da Esfinge

A segunda edição do Congresso de Jornalismo Cultural começou exatamente como a cerimônia da primeira versão do evento, que ocorreu em maio de 2009: um pouco atrasada e com a fala do Prof. Dr. Dirceu de Mello (reitor da PUC-SP) e da Profª Ana Salles Mariano (diretora do TUCA). O discurso de ambos foi além de sucinto, pontual, e ao final, foi exibido um filme sobre a importância histórico-social do TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo).

A primeira palestra (“Homenagem Clarice Lispector – Um percurso fotobiográfico”) foi um tributo a Clarice Lispector apresentado por Nádia Battella Gotlib (professora e pesquisadora de literaturas de língua portuguesa da USP). Autora do livro Clarice: uma vida que se conta, Batella organizou uma fotobiografia que apresentou ao público com informações e imagens singulares da grande escritora e jornalista brasileira. A professora partiu de um panorama familiar e depois se focou na vida e nas escolhas de Lispector, explicando que, apesar de introspectiva, Clarice era cercada de amigos e de familiares.

Atráves de fotos, foi possivel perceber a dificuldade de Clarice, nascida na Ucrânia e crescida no nordeste brasileiro, em se adaptar à vida de mulher de diplomata. A professora da USP também contou sobre os problemas surgidos ao descobrir a influência da religião familiar, o judaísmo, na produção literária de Lispector, afinal, a escritora pouco falou do assunto em vida.

Nádia Batella encerrou sua palestra respondendo a perguntas de estudantes que estavam instigados quanto a relação de Clarice com os jornalistas e deu seu lugar no palco à atriz e diretora, Denise Stoklos.

O recital A Poética da Esfinge foi a segunda apresentação do Congresso. Apoiada por um monólogo e por crônicas de Lispector, Stoklos emocionou a platéia com a história de seu primeiro encontro com a escritora e com a leitura dramática dos textos cheios de entrelinhas de Clarice.

Beatriz Sarlo

Foto de Nelson Mello
A teórica argentina Beatriz Sarlo mostrou acreditar no potencial da internet


Na tarde da segunda-feira (06), o TUCA recebeu a visita de Beatriz Sarlo, intelectual argentina reconhecida por seus estudos críticos dos meios de comunicação e da cultura. Convidada para uma conversa sobre história dos meios de comunicação e produção cultural na América Latina, a mesa “Conferência – Jornalismo cultural, literatura contemporânea e as novas mídias de comunicação” foi mediada pelo historiador Gunter Axt.

A palestra foi dividia em três partes: produção e difusão dos livros, relação com os grandes meios de comunicação de massa e as revistas culturais independentes e as novas possibilidades com o surgimento da internet.

Segundo Sarlo, passamos por etapas, como as primordiais dificuldades encontradas na América Latina ao traduzir obras para um espanhol “neutro” (acessível a todas as nações latino-americanas). Ela também retomou, em seqüência temporal, a importância das editoras independentes que, apesar de terem possuído menos recursos, abrigaram grandes teóricos. Para concluir, a pesquisadora afirmou que desde então os jornais passaram a reservar mais páginas para a cultura. 

Mesmo com essa tendência, Sarlo disse acreditar que as revistas ainda continuam sendo os melhores espaços para o debate, já que se aprofundam mais nos temas. Porém, a grande aposta é a tecnologia. “O melhor está sempre por vir. Sempre temos esta promessa e o uso da internet está ligado a isso”, afirmou Sarlo. Para ela, a internet vive a discussão de forma anônima: é normal não assinar ou usar outro nome e esta é uma nova maneira de um debate intelectual no mundo virtual. “Não se pode navegar pela internet lentamente”, completou.

Biografia morta e viva

Foto de Nelson Mello
Eric Lax que, apesar de ser amigo de Woody Allen,
chegou a recorrer a 250 fontes para escrever sobre
o cineasta

Na seqüência, a mesa sobre biografias (“Colóquio – A formação de um biógrafo: história, jornalismo e vida real”) reuniu Eric Lax, escritor americano e autor de Conversas com Woody Allen, e Ruy Castro, com mediação de Cassiano Elek Machado, diretor editorial da Cosac Naify. O eixo da conversa girou em torno da principal diferença entre os dois escritores: Eric escreve biografias de vivos, enquanto Ruy conta a vida de quem já morreu.

Eric é amigo do cineasta Woody Allen e, nestes 39 anos de convivência, lançou uma biografia e um livro de entrevistas sobre o americano. “Eu o conheço muito bem. Já consigo perceber as inconsistências do discurso dele”, afirma Eric. O autor ainda disse que, checando as informações, já surpreendeu até o biografado que foi traído pela memória. Para fazer a biografia de Allen, Eric afirmou que recorreu a 250 fontes, muitas que o cineasta não via há tempos. “A biografia de um vivo é uma obra não completa, ninguém sabe como vai ser o próximo dia do personagem”, completou.

Sobre Allen e os elementos biográficos de sua obra, Eric afirmou: “Ele tem o controle total da vida, não é atrapalhado como seus personagens. Ele pode ter o mesmo tom de voz e usar as mesmas roupas, mas aquilo é um personagem”.

Ruy Castro se mostrou polêmico: “Não dá para se confiar em biografado vivo. Ele mente e obriga as fontes a mentirem para você. Biografado bom é biografado morto”.  O autor de Chega de Saudades ainda contou que muitos familiares não tinham nenhuma relação próxima com as personalidades e que só depois da morte passaram a se interessar. “Tem família que não sabe nada, só pensa no dinheiro, mas guardam muito material inútil que nas mãos de um biógrafo se transforma em ouro em pó”. O escritor ainda aconselhou: “As melhores fontes são as que não são famosas e nunca foram entrevistadas”.

Castro assumiu que costuma entrevistar em média 200 fontes e que chega a demorar cerca de três anos para concluir uma obra. Sua metodologia é rígida: começa com uma pesquisa, passa para a apuração árdua e depois pela produção do livro. “Eu gosto quando o leitor se muda para dentro do livro e para isso é preciso uma avalanche de informações”, explicou. O escritor ainda disse que é necessário diferenciar livro de memórias e biografia, visto que o “biógrafo é aquele que trabalha com a memória alheia”. Para concluir seu raciocínio, Castro declarou não gostar do formato livro-reportagem: “É uma cozinha de material oportunista”.

Quando questionado sobre autobiografias, Eric disse que já fez a sua, enquanto Ruy dizia que não fará: “Não confio em mim. Se alguém quiser fazer, terá que ser por cima do meu cadáver”.

Para finalizar, Ruy Castro contou que não pretende mais fazer biografias e que se envolve emocionalmente com os biografados. “Nenhum personagem vai me apaixonar mais do que a Carmen (Miranda)”.

Em busca da literatura

Foto de Nelson Mello
"Se o romancista está no oceano, o jornalista está no
aquário”

O jornalismo literário foi debatido pelos jornalistas Carlos Heitor Cony, Joaquim Ferreira dos Santos, Paulo Franchetti e Paulo Markun. A mediação da mesa “Jornalismo literário: a narração da realidade com informações adicionais que fogem à imposição do lead” ficou a cargo de Welington Andrade, vice-diretor da Faculdade Cásper Líbero.

Primeiramente, todos tentaram definir o que era jornalismo literário, se ele é viável e como seria o melhor jeito de fazê-lo. As opiniões foram divergentes, mas todos se mostraram cautelosos com relação ao assunto. “O jornalismo não é livre: é uma ferramenta de opinião, serviço e noticiário. É uma manifestação cultural, mas não necessariamente literatura. Se o romancista está no oceano, o jornalista está no aquário”, afirmou Cony.

Para Santos, é preciso tomar uma decisão. “O jornalista tem todos os compromissos. Ele tem que ter clareza, objetividade e informar ao leitor. Parece que as pessoas gostam do termo jornalismo literário para dignificar o que não precisa de elogios”. Segundo os palestrantes, algumas tentativas de aproximação da crônica foram bem sucedidas, como a revista Manchete e a Realidade, assim como a obra de Gay Talese. “São obras que não se submetem ao lide, à pirâmide invertida, mas mantêm o veio informativo do jornalismo”, diz.

Franchetti e Markun assinalaram a ditadura da pauta e do espaço com obstáculos a serem transpostos. Os dois também comentaram que os blogs aparecem como opção para tentativas. “O blog está para a literatura assim como o campo de várzea está para o futebol”, concluíram.

Markun explicou que, historicamente, a literatura usava a imprensa como suporte e os escritores como fonte de sustento; Franchetti comentou as obras de Eça de Queiros e Machado de Assis: “A crônica é feita de um momento que só permanece através do estilo, já os contos são independentes do fato”.

Os jornalistas se mostraram descrentes com o jornal impresso, que, segundo eles, se mostra redundante e ultrapassado perante a atualidade das redes sociais, como o Twitter, e dos sites em geral. Eles acreditam que o jornalismo de TV está mais bem elaborado e com uma edição mais consciente. “O jornalismo impresso pode acabar assim como o manuscrito. As mídias mudaram e Gutemberg mandou até aqui. A busca por notícia e serviços vai continuar, o que muda é apenas o recurso”, afirma Cony, em contrapartida a Franchetti, que acredita na regionalização e elitização do jornal.

Uma questão de cultura e filosofia

Foto de Nelson Mello
O filósofo explicou sobre as origens do conceito de
cultura

A mesa que fechou o círculo de debates do primeiro dia trouxe o filósofo Paulo Arantes e a filósofa e apresentadora do Saia Justa, Márcia Tiburi, para uma discussão sobre as bases do nascimento da idéia de cultura. 

Segundo Arantes, é preciso que se entenda o contexto social em que o mundo vivia para poder compreender o nascimento da cultura. Ele conta que o conceito foi inventado na Inglaterra, simultaneamente à criação francesa de políticas sociais e da responsabilidade coletiva sobre o social. Já a crítica cultural, ressaltou o filósofo, nasceu contra “a barbárie quem vem com o mercado e a indústria”. 

É comentado que, no Brasil, a missão civilizatória fez com que o processo acontecesse de maneira inversa. Na tentativa de encaixar o país nos moldes internacionais, as supostas elites se utilizaram da “ralé” como fonte de manipulação. Neste caso, Arantes acredita que a colonização preservou a cultura, pois excluiu o contato com o mundo e esta cultura tida como identidade foi revitalizada pelos movimentos de vanguarda, como a Semana de 22.

Barulho

Para encerrar o primeiro dia, Edgar Scandurra e Arnaldo Antunes fizeram uma apresentação em alto volume (alto mesmo) com composições dos artistas e releituras de músicas populares como a marchinha Bandeira Branca em versão rock’n’roll. 

O show foi performático e composto por uma guitarra, um bumbo e um microfone de efeito, além das vozes dos cantores que interpretaram de corpo e alma as canções. O público já estava menor e alguns ficaram incomodados com o som ruim e a apresentação incomum. 

Foto de Nelson Mello                                                                                          

Som muito alto prejudica performance de Arnaldo Antunes e Edgar Scandurra