foto de Míriam de Souza e Castro 
Depois de cursar Direito na São Francisco e Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, Ricardo Muniz retorna como professor de Legislação e Prática Jurídica
Ricardo Muniz, ex-aluno da Faculdade Cásper Líbero, está de volta para a instituição, agora como professor da disciplina Legislação e Prática Judiciária, que faz parte da grade curricular do terceiro ano de jornalismo.
O atual editor da seção Ciência e Saúde, do portal G1, teve uma formação variada. Após o curso técnico em Processamento de Dados, Ricardo seguiu graduação na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. “Já naquela época, eu estava na dúvida entre Direito e Jornalismo”, comenta.
De família presbiteriana, Muniz fez mestrado na Universidade Metodista de São Paulo, aperfeiçoando-se na temática da intolerância religiosa. Naquele momento, ele trabalhava com comunicação na ONG Portas Abertas, que ajuda cristãos perseguidos ao redor do mundo.
Em 2000, quando estava concluindo seu mestrado, veio o convite: “Eu tinha um grande amigo no Estadão, o jornalista Jorge Pinheiro. Ele me convidou a ficar por duas semanas na editoria Metrópole, para ver se a vontade de ser jornalista não era fogo de palha”, conta o professor. No fim do teste, o editor Roberto Gazzi recomendou o curso de jornalismo, para que Ricardo tivesse MTB (Registro Profissional no Ministério do Trabalho). “Se você gosta tanto, faça”, diz Muniz, relembrando-se do conselho recebido quando estava perto de completar 31 anos. Formou-se em 2004.
Voltar para a Cásper como professor foi agradável para Ricardo, que tem boas lembranças de quando lecionou Sociologia da Religião, durante o mestrado. “Gosto muito de dar aula. É legal ver quando a classe está interessada, quando um aluno diz algo que você não tinha pensado. Isso o força a estudar e a estruturar sua reflexão de forma que os estudantes entendam”, afirma.
A relação entre os universitários e a disciplina Legislação e Prática Judiciária, segundo Ricardo, não é conturbada, apesar de o professor admitir que “o potencial de chatice do Direito é muito grande”. De qualquer maneira, em sua opinião, é necessário que o jornalista tenha noções de legislação para que não fale de assuntos cujo significado ignora. “Posso apostar que a Folha de S. Paulo ou o Estadão de hoje usam uma dezena de conceitos jurídicos”, diz.
No curso, a apresentação do Direito é elementar, com foco em termos e noções que comumente fazem parte das notícias. Alguns exemplos são as referências a um homicídio como doloso ou culposo, assuntos referentes ao Ministério Público, ao funcionamento de um júri e do Supremo Tribunal Federal. “O jornalista precisa saber que liminar é algo provisório, para poder notar o peso da notícia”, ressalta Muniz.
Questionado sobre a vantagem de se ter uma segunda graduação – Direito, por exemplo – juntamente com Jornalismo, o professor afirma: “Certamente o bom jornalista pode se virar só com a graduação em Jornalismo. Ao mesmo tempo, se houver condições, recomendo que faça qualquer outro curso, pois isso só vai aprimorar seu trabalho”. A respeito da obrigatoriedade do diploma, Ricardo diz que ainda não encontrou uma posição definitiva, apesar de achar que pode haver melhora nos centros de ensino. “É preciso ter qualidade para conservar alunos, porque já se superou a questão burocrática da necessidade do diploma. Assim, os cursos que vão se consolidar são aqueles que têm qualidade e utilidade profissional para quem estuda”.
Por ter trabalhado tanto em jornal impresso (O Estado de S. Paulo) como na internet (Portal Exame, no fim da graduação, e G1, atualmente), Muniz consegue comparar os dois meios. Para ele, o jornal não vai acabar, mas vai se aprimorar – como acontece com o Estadão e a Folha de S. Paulo, ambos lançando novos projetos gráficos. Seu parecer é que o trabalho em um veículo impresso diário traz aos jornalistas o desafio de espaço limitado e horários de fechamento. Já o jornalismo online não tem hora. “A reportagem é publicada quase no mesmo momento em que é apurada. Há a liberdade de postar o quanto quiser, sem limites de espaço ou número de fotos”, comenta Muniz. O professor aponta, também, a possibilidade de se saber em pouquíssimo tempo a opinião do leitor, através dos comentários. “Você tem um conhecimento maior sobre quem o lê”. No entanto, diz, com a cultura do instantâneo, as redações online não dirigem tantos investimentos a reportagens mais investigativas, que demandam tempo.
O jornalismo cidadão, cada vez mais fortalecido na internet, não extinguirá o profissional jornalista, garante o professor. “Acho que a função do jornalista como apurador de notícias permanece. Não se tem uma situação em que a notícia brota por geração espontânea. É ótimo que haja a participação de leigos, mas nosso sacerdócio de avaliar o peso de cada notícia permanece”.
Sobre sua impressão do jornalismo desde o começo de sua carreira até hoje, Muniz confessa que “matéria ruim sempre teve”, mas diz não conseguir perceber se houve piora na prática. “Pela concorrência, arrisco dizer que houve até um aprimoramento da linguagem jornalística. Quando comecei, por exemplo, não havia a revista Piauí, que é uma boa leitura com público muito qualificado”, opina.
Muniz acredita que o maior desafio para o jornalismo brasileiro atual são os jornalistas que “não sabem escrever, que ainda não fizeram as pazes com o idioma”. O professor reconhece que este não é um problema novo e simples. “É um grande desafio para as faculdades suprir o aluno com conhecimentos não só em escrita, mas em lógica, disposição em ler e apurar. E isso é uma característica de poucos grandes formadores de jornalistas, inclusive da Cásper, que recebe alunos diferenciados, acima da média e procura estimulá-los a se aprimorar, de modo que saiam prontos para o mercado de trabalho”.
Comentários Postados
No no início do segundo parágrafo do texto, a palavra "sessão" está grafada de forma errada. O correto seria "seção". "Sessão", com dois "esses", como recorda o Manual de Redação do "Estadão", é o "tempo que dura uma reunião, espetáculo ou trabalho". A palavra correta é "seção", que significa, "parte de uma publicação" - no caso do texto, "parte de um portal". Att Tito Bernardi (graduado pela Cásper, turma 1984)
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