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07/05/2010 - 14h24 - Atualizado em 20/05/2012 - 11h24

Efeito Dominó

Por Bianca Chaer, aluna do 1º ano de Jornalismo

Drama traça paralelo com clássico da mitologia grega e obra de Dostoievski

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Reprodução
Os atores Ewan McGregor e Colin Farrell

Enquanto o novo lançamento de Allen, Tudo pode dar certo, fazia grande sucesso entre os fãs do diretor nos cinemas de toda a cidade, O sonho de Cassandra, rodado em 2007, foi exibido em sessão especial para o Whisky Festival, quinta-feira, 6, no cine Belas Artes.

Um barco aportado num cais marca o início da narrativa e sela o destino e desfecho trágico dos protagonistas. Fica aí implícito o fio condutor do filme, ponto importante que dá o tom ao enredo: a imprevisibilidade da vida e impotência humana frente ao destino, tema exaustivamente trabalhado na mitologia grega.

A escolha do título também faz menção à mitologia. Cassandra, filha do rei de tróia, ao nascer é agraciada pelo deus Apolo, com o dom da profecia. Ela é capaz de prever o futuro em seus sonhos, porém, ninguém acredita em suas visões. O Sonho de Cassandra é o nome do barco, objeto de desejo e encanto dos irmãos Ian e Terry, respectivamente interpretados por Ewan McGregor e Colin Farrell.

Terry trabalha em uma oficina, mas é viciado em jogos de azar e está sempre cheio de dívidas. Ian ajuda o pai com o restaurante da família, que vai de mal a pior e recebe auxílio financeiro do milionário tio, Howard, vivido por Tom Wilkinson. Não fosse o suficiente, enquanto um almeja comprar uma casa e construir uma vida ao lado da mulher, o outro quer alçar voos maiores e investir em uma rede de hotéis na Califórnia, mas nenhum possui recursos para realizar os sonhos e mudar de vida.

Mesmo sem muito dinheiro, Terry, que diz acreditar em marés de sorte, aposta uma pequena quantia em uma corrida de cães, e acerta o palpite. Os dois juntam as economias para comprar o barco, e ao fazê-lo estão, inconscientemente, selando seu destino. Depois da compra, a sorte parece ‘virar as costas’ a ambos, que começam a endividar-se até o pescoço.

A primeira intervenção do destino, típica dos filmes de Allen, se dá quando Howard, retorna de uma viagem à China para visitar a família. Parece mais do que lógico pedir ajuda financeira ao tio, já que os irmãos estão desesperados. O tio aceita ajudá-los, mas faz, em troca, um pedido que muda o curso da vida deles para sempre.

Como parte da trilogia dostoievskiana de Woody Allen – da qual fazem parte Match Point e Crimes e Pecados - o enredo faz referências ao clássico Crime e Castigo, quando apresenta um retrato mais profundo de Terry, homem paupérrimo, viciado em jogos, que comete um crime e é consumido pelo arrependimento. Qualquer semelhança com Raskólnikov não é mera coincidência.

O filme atinge o clímax quando, após tentativas frustradas, os irmãos liquidam a personagem de Philip Davis, Martin Burns, homem que ameaçava a credibilidade e  carreira do tio. A partir daí, o ritmo do longa se torna mais lento, em contraste com a cadência acelerada do diálogo entre os protagonistas.

Os acontecimentos vão se desencadeando como se fossem peças de dominó enfileiradas que caem devido a reação em cadeia, não por vontade própria. Numa espécie de epifania, Terry se dá conta de que não adianta culpar as circunstâncias, pois diferente da peça de dominó, ele sim fez uma escolha, e deve ser responsabilizado por suas conseqüências.

A atuação de Farrell se destaca ao ser comparada aos seus últimos trabalhos: Alexandre, O Grande e Miami Vice, nos quais prometeu e não cumpriu. Desta vez, ao lado do escocês Ewan McGregor, aparece mais afinado; parceria que funciona.

O final é cíclico e dramático - clássico das tragédias gregas – ainda que previsível e um tanto quanto clichê. De modo geral, a história cai no gosto dos fãs do diretor e não deixa a desejar. Apesar do enredo apresentado não ser totalmente inédito, provoca reflexões sobre a vida, que algumas vezes parece não nos apresentar escolhas diante dos fatos. Como diz uma das personagens, “a vida parece ter vida própria” e costuma, frequentemente, não ser nada além de irônica.



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