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07/05/2010 - 11h51 - Atualizado em 19/05/2012 - 05h32

Dramas de consciência em Crimes e Pecados

Por André Silva, aluno do 1º ano de Jornalismo

Filme focaliza a sina e o fardo privado

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Reprodução
A atriz Anjelica Huston no papel de Dolores
Paley

Ao assistir Crimes e Pecados (1989), o espectador se depara com um dos mais complexos filmes de Woody Allen. A mera dificuldade de qualificar a obra em um gênero específico, devido à oscilação entre comédia e drama, é um sinal disso. Mais que dúvidas formais, o longa suscita reflexões profundas acerca da condição humana, com suas escolhas morais e, principalmente, inevitáveis consequências.

Dois núcleos paralelos compõem a história, cada um com uma personagem principal em conflito: o oftalmologista Judah Rosenthal, interpretado por Martin Landau, antevê sua reputação de modelo para a comunidade em xeque, diante da pretensão da amante Dolores Paley, vivida por Anjelica Huston, de trazer à tona a relação adúltera dos dois e esquemas de estelionato disfarçados de filantropia. Assim, consulta o irmão - envolvido nos trâmites ilegais - que o tenta a encomendar a morte dela e acabar com o problema de vez, e seu rabino, que ressalta os valores familiares e apela para a fé, numa espécie de recriação do diálogo entre anjo e diabo que define a consciência.

Cliff Stern, papel de Woody Allen, é um cineasta idealista, ingênuo e frustrado com o casamento. Recebe de um produtor uma lucrativa proposta de cinebiografia e, na execução do projeto, se apaixona pela produtora Halley, sua então esposa Mia Farrow.

Um elemento digno de nota na obra é o contraste e o progressivo entrelaçamento entre as duas histórias. Os segmentos focados em Rosenthal têm uma trilha sonora clássica, enfatizando a morbidez e dramaticidade. Por outro lado, quando Stern entra em cena, é precedido por um jazz, de tom mais animado, ou um filme antigo, com temática relacionada ao que se vê na trama. Nota-se, entretanto, que a suposta alegria serve somente para aproximar paradoxalmente alguns temas fatais e humor, bem como ressaltar a figura patética da personagem, que sempre projeta as frustrações na ficção, a consciência em sua sobrinha e acredita em finais felizes.

A divisão do filme dá a ideia da existência de um drama particular a cada um de nós. No decorrer da película, percebe-se a magnitude que um ato moralmente estranho ao indivíduo - ou sua não-execução - pode tomar e ameaçar a estabilidade do círculo social íntimo ou o curso de uma vida.

Neste caso, a religião emerge. O tratamento dado ao tema engloba tanto sua funcionalidade quanto um ponto de vista niilista: Rosenthal fragmenta-se diante do remorso de seus atos e ouve ecos de seu passado de educação religiosa e conselhos paternos; desenvolve uma fé auto-punitiva. Sua superação e a refutação da frase-eixo de sua vida, que "Deus vê a todos", impõem uma visão sombria da situação humana livre, que assemelha-se a alguns escritos de Woody Allen.

Se entre a representação magistral dos dilemas humanos e a sutileza dos diálogos há uma grande ideia, esta é a de que o tempo tem o poder de destruir tudo e o amor é o que confere valor à efemeridade diária. Dicotômica como a vida, a obra que antecipa em anos o suspense sufocante de Match Point, burla clichês artísticos e resulta num momento brilhante da filmografia de Allen.



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