"Interiores" discute relações familiares e solidão
Para quem está acostumado com a veia cômica de Woody Allen, Interiores (1978) traz um drama pesado e repressivo, nitidamente influenciado por Ingmar Bergman, diretor que produziu diversas películas baseadas em temas existenciais, como fé, solidão e mortalidade. Dirigida e produzida por Allen, a obra foi filmada com atores consagrados, como Diane Keaton, Sam Waterston e Geraldine Page - em sua última aparição no cinema - e conta a história de uma família que vê seu cotidiano ser transformado após a chocante notícia do pai, que resolve separar-se de sua esposa, a matriarca e decoradora de interiores dessa instituição. A partir disso, o diretor analisa, de forma muito similar a Freud, as relações familiares e características humanas, até então nunca desvendadas tão profundamente.
Indicado ao Oscar por melhor direção em 1979, Allen prima pela forma como conduz a história, buscando o cuidado em cada detalhe, gesto e palavra dita pelas personagens. Até mesmo a casa onde a família morava, quando unida, torna-se imprescindível na obra. Nota-se sua caracterização como uma possível “atriz” quando, tanto no começo quanto no fim do filme, as três filhas Renata (Diane Keaton), Joey (Mary Beth Hurt) e Flyn (Kristin Griffith) unem-se e dialogam a respeito de suas memórias e também sobre o local onde a propriedade está localizada: em uma praia, com vista para o mar.
Como em um ritual de passagem, Interiores não possui trilha musical, a não ser por choros, gritos e sussurros, mais uma vez influenciado por Bergman. Cativa a atenção do público, seja por retratar uma história tão sombria de forma intimista ou pelos problemas aqui tematizados. A mãe Eve (Geraldine Page), personagem principal da película, caracteriza a complexidade e a dramaticidade toda para si, surpreendendo quem assiste.
Por essa obra, Allen ficou bastante receoso com relação à aceitação do público, grande parte explicado por seu início no gênero dramático. Não esperava que, com a influência de Interiores, duas músicas fossem feitas pelas bandas Death Cab For Cutie e Manchester Orchestra, bem como as críticas bastante positivas feitas, na época, pelas publicações Time e New York Times, onde caracterizam a película por ser “repleta de amor” e “linda”.
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