“Match Point” completa a trilogia dostoievskiana do Woody Allen
O título do filme, Match Point, é o termo usado no tênis para designar o ponto final, que encerra a partida. O longa de Woody Allen conta a história de Chris Wilton, um tenista e alpinista social que acaba, por acidente, envolvendo-se com a rica Chloe Hewett. Mas, quando conhece a sedutora Nola Rice, tem que optar por ela ou pelo estilo de vida ao qual se acostumou - e escolhe a segunda opção.
Parte de sua trilogia dostoievskiana - da qual também fazem parte O Sonho de Cassandra e Crimes e Pecados - Match Point é, talvez, a obra-prima de Woody Allen. Como Raskólnikov, o protagonista de Crime e Castigo - embora Proust tenha declarado que todas as obras de Dostoievski poderiam ter o mesmo título -, Chris Wilton era um homem comum que começou a se questionar sobre a justiça e cometer não um, mas dois assassinatos. Mas Allen adiciona ainda mais complexidade ao tema, pois, ao contrário de seu correspondente russo, Wilton não é descoberto. Não sofre punição nenhuma; além da culpa que o assombrará por muito tempo. Ao contrário da posição de Dostoievski, que julga sua personagem e a condena, Woody Allen não tem intenções moralizantes em Match Point - ele se limita a observar e analisar.
A justiça é colocada em xeque quando o diretor permite que Wilton escape sem condenação, provando, assim, o argumento principal do filme: é melhor ter sorte do que ser bom. É o acaso - quase sempre a favor dele - que move o enredo, guiando o protagonista até o ponto em que ele é forçado a tomar uma atitude drástica. Em seguida, é também o acaso que o salva, desviando a polícia de sua trilha. A sorte é o match point de Wilton, que lhe permite, por um triz, encerrar e vencer a partida.
Mas Allen deixa uma última ironia implícita: esta personagem atormentada crê na sorte porque isto a livra da responsabilidade de suas próprias escolhas? Roskólnikov continua, até hoje, um símbolo de afirmação da vontade, sem delicadeza. Porque Chris Wilton seria diferente?
Um dos pontos em que o diretor acerta é na escolha do elenco. Jonathan Rhys Meyers, - que posteriormente ficaria famoso representando Henrique VII na série The Tudors - mantém seu papel na base do menos é mais, com exceção apenas da sequência do assassinato e Scarlett Johansson constrói uma mulher fatal, com mais confiança que curvas. Woody Allen ficou tão fascinado com o trabalho dela que escreveu Scoop - O Grande Furo especialmente para ela. Além disso, há a trilha sonora: a La Traviatta de Verdi, que dá o tom trágico - não de ação - às cenas, inclusive à do assassinato. Match Point é uma obra prima técnica e intelectual, e nos lembra, como a literatura de Dostoievski, o quanto o inferno está próximo.
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