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29/04/2010 - 20h00 - Atualizado em 19/05/2012 - 15h44

O Woody Allen que dá certo

Por Gabriela Sá Pessoa, aluna do 1º ano de Jornalismo

"Tudo pode dar certo" marca retorno de Woody Allen às telas e ao humor que o consagrou
 

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Reprodução
Cena do filme

Woody Allen voltou para casa. O diretor filmou o novo trabalho, Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works), em Nova York após cinco anos e dois filmes – Vicky Cristina Barcelona, rodado na Espanha e Scoop – O Grande Furo, ambientado na Inglaterra. O longa marca o retorno de Allen à sua cidade natal e ao humor de filmes como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Manhattan.

A obra é protagonizada por Boris Yellnikoff, um físico aposentado, rabugento, de QI elevado e aguçada ironia, que acredita ser o único capaz de entender a ”insignificância das aspirações humanas” e o “caos do universo” - uma personagem criada sob medida para a atuação de Woody Allen. Entretanto, quem dá vida ao sarcástico físico é Larry David, um dos criadores de Seinfeld, popular seriado americano exibido nos anos 90.

Na primeira cena percebemos o caráter cronista da película. Nessa sequência, Boris está sentado à mesa com seus amigos numa discussão um tanto quanto existencialista, dizendo frases como “Minha história é ‘o que for que funcione’ (tradução de Whatever Works), contanto que não machuque ninguém”. O protagonista, então, é instigado pelos colegas a relatar isso. Ele aceita, olha de relance para a câmera e admite a existência de espectadores. Após ser desdenhado pelos companheiros, Boris levanta-se, caminha em direção à câmera, quase até o limiar de nossa realidade, e passa a falar diretamente com a plateia: “Estou aqui discutindo você, seus amigos, colegas de trabalho, os jornais, a televisão”.

Woody Allen prova que seu novo filme não só pode, como de fato dá certo. Seja pelas frases e piadas memoráveis ou pela intertextualidade com algumas de suas obras (em A Rosa Púrpura do Cairo, por exemplo, o protagonista de um filme consegue, literalmente, sair da tela de um cinema fictício). O diretor consegue, ademais, explorar a relação personagem-narrativa. Boris é um físico indicado ao Prêmio Nobel em virtude de seus trabalhos sobre a Teoria das Cordas, conjectura que propõe a existência de onze dimensões no universo, em vez de apenas três. Desse modo, o protagonista é capaz de enxergar além do ficcional, aproximando seus comentários sobre as vicissitudes e prazeres da vida à realidade dos espectadores.

Tudo Pode Dar Certo é ritmado por diálogos rápidos, além de inteligente e engraçadíssimo, explorando o lado mais divertido das pessoas. Após perder o Nobel, fracassar em seu casamento e tentar suicídio, Boris passa seus dias dando aulas de xadrez a crianças (que, para ele, são “zumbis de cabeça vazia”) e conversando com os amigos.

Certo dia, prestes a entrar em casa, é interpelado por Melody Saint Anne Celestine (Evan Rachel Wood), uma jovem de 17 anos que havia fugido de casa e pede para Boris um lugar para dormir por uma noite. Ele a considera uma garota imbecil e essa suposta burrice é motivo para algumas das melhores piadas do filme. Apesar dos ataques dele, a jovem, após alguns meses, assume estar apaixonada por ele. A princípio, o físico resiste à declaração, porém, passado certo tempo, se encanta e se casa com Melody. A narrativa do filme se baseia na relação entre Melody, Boris, a família da jovem e os amigos do físico.

Aos iniciantes na filmografia de Allen, àqueles que já conhecem o trabalho do diretor ou a quem simplesmente venha a se interessar pela película, Tudo Pode Dar Certo é imperdível. O filme não só oferece um panorama do que há de melhor em Woody Allen, mas também é uma bela reflexão sobre a existência e as aspirações humanas, as quais, como diz Boris, “no final das contas”, se reduzem “ao que for que funcione.”



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