Woody Allen apresenta problemas de uma sociedade ilógica dotado de uma sutileza mordaz
Hannah e suas irmãs (1986) tem o humor peculiar de Woody Allen, e como não poderia deixar de ser, uma visão irônica do cotidiano. Ao retratar temas que são recorrentes em seus filmes, o diretor analisa as relações humanas e o amor. A cidade de Nova York, como sempre, é o palco dessa encenação da vida real.
O foco é a relação entre as irmãs Hannah (Mia Farrow), Holly (Dianne Wiest) e Lee (Barbara Hershey), filhas de um casal de artistas. A primeira é uma esposa dedicada ao marido e à família, atriz bem sucedida, que sempre apoia e ajuda as irmãs. Casada com um analista financeiro, Elliot (Michael Caine), leva uma vida pacata e, aparentemente, segura.
Já Holly é solteira, mas está a procura de alguém que a entenda. Tenta seguir a carreira de atriz, mas não consegue prosperar, pois possui baixa autoestima, alimentada por sua insegurança. Enquanto Lee é uma mulher culta e que vive com seu namorado, um homem bem mais velho, a quem admira por seu conhecimento e dotes artísticos, mas que ainda está procurando um caminho para seguir.
A trama é composta por histórias paralelas que se cruzam. O ponto de partida é o relacionamento extraconjugal que se desenvolve entre Lee e Elliot, debatendo a questão da traição de modo sutil e sem dramas, evidenciando a diferença de comportamento entre homens e mulheres quando se encontram nessa situação. É também um exemplo de como a razão não impera sempre, e de como os planos não seguem uma linha de pensamento previamente traçada.
Outra personagem que se destaca é Mickey (Woody Allen), ex-marido de Hannah. Ele é um diretor de televisão, cujo programa está sob censura por tratar de temas que são considerados um tabu para sociedade da época. Além disso, vive atordoado com o ritmo de sua vida e com suas manias, em especial, a hipocondria.
Ao longo do filme, são tratados temas como inveja, rivalidade, infidelidade e competição feminina. As três irmãs representam sentimentos de confusão, liberdade e comodidade, e como essas diferenças convivem no dia a dia.
Woody Allen faz observações ácidas sobre a sociedade americana. Critica a produção cultural da época, que havia se massificado e se tornado de má qualidade; o casamento é, também, um de seus alvos: é retratado como uma instituição falível e hipócrita. A religião não é poupada, é ironicamente caracterizada como um produto que se pode escolher, ou até mesmo trocar, como um consumidor que não gosta da escolha feita.
O cenário não deixa de ser valorizado. Nova York é mostrada com todas as possibilidades e diversidades culturais. Clubes que tocam desde punk rock ao jazz tradicional, lojas de discos, livrarias, cafés, hospitais, hotéis, teatros e restaurantes. Tudo isso é colocado na tela para exemplificar a riqueza de opções.
O contraste entre a arquitetura das antigas edificações e das modernas instalações mostra a difícil combinação não só entre o velho e o novo que coexistem nas fachadas dos prédios, mas também entre as gerações distintas que tentam conviver em uma época de mudanças e descobertas.
A produção tem uma atmosfera que lembra a dos filmes noir. Com monólogos interiores, que revelam os pensamentos das personagens, ambientes sombrios, ângulos diferentes e cores apagadas. Essas são algumas das influências desse recurso clássico, como instrumento para transmitir o clima de cinismo e de melancolia, aspectos marcantes da trama.
Comentários Postados
Envie o seu comentário
Caro leitor, esse espaço foi criado para que você opine e discuta a matéria que acabou de ler
Cada comentário comporta no máximo 600 caracteres.
Os comentários devem se ater ao texto publicado.
Mensagens ofensivas, provocativas ou que contenham palavras de baixo calão serã excluídas.