Arte do canal

índice geral



Home

09/04/2010 - 16h02 - Atualizado em 08/02/2012 - 19h49

Uma paixão pelas palavras

Texto de Ana Lúcia Pereira e Fernanda Patrocínio | Edição: Lidia Zuin

Conheça Renato Essenfelder Abrahão Filho,  atual professor da cadeira de Jornalismo Básico III

Compartilhe:


A cadeira da disciplina de Jornalismo Básico III agora conta com um novo reforço. Renato Essenfelder Abrahão Filho foi recentemente contratado pela Faculdade Cásper Líbero para lecionar aos alunos de terceiro ano como funciona a edição jornalística. “Todos nós somos editores”, diz o jornalista de 29 anos de idade e 12 de redação. Renato afirma ter grandes expectativas em trabalhar na Cásper. Os motivos são: a tradição e o reconhecimento do curso no mercado e no meio acadêmico, boas referências de ex-alunos e a boa impressão dos alunos atuais, por conta de um curso de férias que pode ministrar na Faculdade. “Estes são os fatores diferenciais desta instituição”, exclama.     

Essenfelder  conta que seu interesse pelo jornalismo começou aos 16 anos, em virtude da paixão que nutre pela literatura. Euclides da Cunha, Nelson Rodrigues, Ernest Hemingway, Ruy Castro e Gárcia Márquez são alguns dos autores que o professor admira e usa como base para realizar seu trabalho com jornalista. “Com eles fui aprendendo mais sobre o encanto do mundo real, da narrativa da atualidade e da aventura da reportagem. Estes são termos caros à minha atual orientadora de doutorado, a professora Cremilda Medina”, explica. Renato é mestre em Língua Portuguesa com ênfase em Análise do Discurso pela PUC–SP e atualmente desenvolve seu doutorado na Universidade de São Paulo, na área de Ciência da Comunicação.

Quando escolheu a graduação, Essenfelder oscilou entre Letras e Jornalismo. Escolheu o último, pois este lhe pareceu “ser a melhor opção para ganhar a vida lendo, escrevendo, ouvindo, observando, narrando”, além de “proporcionar um treinamento valioso igualmente para a reportagem e para a ficção”. Contudo, na Universidade Federal do Paraná, onde cursou Jornalismo, Renato pôde optar por disciplinas relacionadas ao curso de letras, preenchendo assim sua outra paixão. Filho de uma bibliotecária, desde pequeno Renato tem contato próximo com a literatura.      

Aos 17 anos, quando ainda era graduando, Essenfelder trabalhou na Gazeta do Paraná, na revista infoGEO e em agência locais de publicidade. Em 2001, entrou para o jornal paulistano Folha de S.Paulo, como trainee. Essa fase é definida por ele como o início da “carreira efetivamente adulta”. O jornalista conta ter experimentado quase todas as editorias da Folha, até que, em 2007, recebeu uma nova proposta: “Sai com o sedutor desafio de lançar a edição paulistana do tablóide Metro, hoje presente em 120 países”, explica.

No final de 2008, Essenfelder retornou à FSP para trabalhar com jornalismo econômico, uma das poucas áreas, além de esportes, que ainda não tinha exercido no jornal. “O ritmo de acontecimentos naquele período foi impressionante e, a experiência, muito rica. Acabei descobrindo a minha especialização favorita no jornalismo, ao lado da área de cultura e literatura”, destaca.

Atualmente, ele trabalha no caderno Dinheiro da Folha de S.Paulo, além de dar aulas na Cásper e na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Renato também faz eventuais freelas para editoras de livros e instituições, atuando como escritor free-lancer e como elaborador de projetos gráficos e editoriais. O professor ainda mantém um blog, onde publica seus devaneios literários.

Dentre as coberturas feitas, Essenfelder destaca um incidente ocorrido na Vila Carioca, em São Paulo. “Houve vazamento de benzeno de um depósito local da Shell, criando um clima de angústia entre os moradores diante da suspeita de que o lençol freático fora contaminado”, relata o jornalista sobre a região abastecida por poços artesianos. Renato conta ainda que passou semanas cuidando desta cobertura: entrevistou várias famílias, fez plantões nos locais e nos laboratórios de análises, conheceu pessoas humildes sem muita informação, conviveu com doentes e empresas interessadas em se auto promover. “Foi uma experiência muito rica e traumática; uma cobertura com vários desdobramentos”, relembra. Outro momento importante em sua carreira foi a publicação do caderno especial “Oito metas do milênio”, pela FSP. O trabalho foi premiado e traduzido pela ONU, para ser levada a Nova Iorque.      

Sobre o jornalismo brasileiro

Questionado sobre o jornalismo atual, feito no Brasil, Renato o considera satisfatório, se comparado a outros países. “Parece-me razoavelmente sofisticado, mas estamos longe ainda do melhor jornalismo norte-americano ou britânico”, a, fazendo um gancho para a falta de transparência de órgãos públicos e privados no Brasil. Ele acredita que, na média, a mídia brasileira é muito competente e há oferta de informação para públicos variados. A formação dos jornalistas, contudo, preocupa o professor: “Estamos nos apegando cada vez mais a uma formação muito técnica e pouco humanística ou ética, regredindo para  comunicação sujeito-objeto, como diria Cremilda Medina”. Para ele, os jornalistas deveriam “avançar para um estágio de comunicação e de relação, na aproximação sujeito-sujeito, mais próxima da sociedade em que nos inserimos e de suas múltiplas vozes”.      

Apesar da crítica, Renato acredita que o jornalismo caminha para o aspecto mais analítico, ao menos nos meios impressos. Já na internet, ele observa a aquisição cada vez maior do imediatismo, competindo, talvez, com o rádio. O jornalista destaca a tendência “arrevistada” dos grandes jornais, como o novo projeto gráfico de O Estado de São Paulo. “Texto curto, porém substancioso, que estabeleça nexos entre assuntos vários até atingir a vida do leitor em cheio. Acho que é um bom caminho que deve salvar os jornais da propaganda e da ameaça de extinção”, explica.      

Essenfelder acredita que, independente do meio, o jornalismo não perderá  sua essência. A inserção cada vez maior dos jornais, acredita, pode talvez mudar o meio de publicação, mas não os princípios da prática jornalística. “Os jornais podem circular menos dias por semana ou alterar edições em papel – aos fins de semana, por exemplo – com edições digitais”, exemplifica. Em relação ao jornalismo colaborativo, ele acredita que isso “reafirma jornalista”. Apesar de promover a transparência e fazer com que a qualidade das informações aumente, Renato não acredita na substituição do jornalista como profissional, “que é pago para passar o dia atrás de informações de interesse público, checando dados, comparando versões”. “As comunidades virtuais não são o ápice da democracia e, às vezes, elas podem nos desviar o foco da participação política (que passa pelo acesso à informação) e fazer com que nos esqueçamos do lado de cá da tela, do lado de cá dessa imensa e sedutora teia virtual”, reflete, tomando por base Jesus Martin-Barbero.

Renato acha “um grande absurdo” a queda do diploma. “Eu sou a favor do diploma e de diploma”, reforça. Ele acredita que é preciso ter a certificação para exercer o jornalismo, além de que é o ensino de qualidade nas universidades o responsável pelo grande diferencial. Essenfelder defende que o formato da graduação atual é um processo passível de reformulação e que mudanças devem ser discutidas. “É importante ressaltar que ninguém nasce jornalista. Há o jornalista bom que tem uma boa técnica, mas há aqueles que têm o dom, aquele que encontra o extraordinário em fatos banais para a maioria”.