Dicas para elaborar um bom projeto de conclusão de curso
Os pontos alinhavados a seguir são sugestões para facilitar a elaboração de um projeto de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e foram apresentados no curso de Administração de Produtos Editoriais, na grade curricular do 3º ano de Jornalismo. Não propomos aqui ministrar conselhos sobre como ter boas idéias ou como ser criativo. O objetivo é evidenciar que o mais importante em um projeto é seu recorte, abordagem ou o ou seu foco em determinado objeto.
São alguns parâmetros para um início de trabalho, que devem ser vistos com flexibilidade suficiente para que tenham alguma utilidade.
1. Não espere ter boas idéias a partir de uma grande inspiração. Boas idéias e boas inspirações nascem da investigação e da pesquisa. Não existe criatividade no abstrato. Criatividade nasce do trabalho concreto;
2. Uma boa idéia não é um projeto. Todas as idéias são boas se forem viáveis. O que torna uma idéia viável é a aplicação que se pode fazer dela na realidade;
3. A idéia depende de um suporte material para existir. Uma boa idéia não é boa em qualquer hipótese. Uma boa idéia para um documentário pode gerar um livro-reportagem medíocre e vice-versa;
4. Uma idéia pode gerar um tema a ser trabalhado. Mas assim que tiver uma boa idéia, inicie uma pesquisa a respeito. Isso ajuda a torná-la mais clara ou a mostrar sua inviabilidade.
5. Se você tem um tema na cabeça, busque colocá-lo no papel, ver suas decorrências e limites. Verifique se suas fontes de pesquisa são acessíveis. Veja se o custo de ir até elas é factível para suas possibilidades;
6. Pode-se ter uma idéia genial de investigar a vida afetiva dos monges budistas tailandeses. Trata-se de uma religião milenar, com larga influência naquela região do mundo. Mas para se tornar um projeto de TCC precisa ser exeqüível. Tenho condições de bancar os custos de uma viagem até lá? Dará tempo de fazer?
7. Lembre-se: o tempo de realização de um TCC é muito curto. É menos de um ano. Assim, embora a elaboração precise ser a mais apurada possível, não se pode desperdiçar trabalho. Chegar ao início do ano com clareza do que fazer, quem procurar, que livros consultar etc, já é meio caminho andado;
8. Um bom projeto é mais da metade de seu TCC resolvido. O pior dos mundos é se descobrir, no meio do ano, que o projeto que você acalentou por meses é inviável;
9. Não é incomum alunos desistirem do TCC por constatarem no meio do ano que suas idéias eram inexeqüíveis.
10. Para começar a elaborar o projeto, além da pesquisa, é necessário saber qual o recorte a ser feito. Recorte, neste caso, significa explicitar o que será abordado de um determinado tema e o que ficará de fora;
11. Um exemplo é: “quero fazer um TCC sobre trânsito em São Paulo”. É algo que atrapalha a vida de todo mundo, para o qual não faltam fontes e elementos de pesquisa;
12. Cuidado! Um excesso de informações e fontes pode não ser uma solução, mas um problema. Se não souber recortar o tema, escolha os elementos principais, há o risco de ser superficial ou o de considerar apenas aspectos secundários da questão;
13. Celso Furtado (1920-2004) disse em seu livro "A fantasia organizada" que “a palavra é a expressão do pensamento organizado”. Analogamente podemos dizer que o projeto é a expressão das idéias organizadas;
14. Projeto que se preze deve ter a idéia básica bem enunciada, com seus objetivos, sua viabilidade, suas fontes, suas tarefas colocadas, seus custos e seu cronograma de realização bem explicitados.
15. Acima de tudo, o projeto deve mostrar o que se quer com aquilo tudo. Uma idéia gera um tema que gera uma hipótese que gera um projeto.
16. Não existem idéias ruins, mas existem projetos ruins;
17. Teve a idéia? Saia a campo pesquisando;
18. Pesquisa e investigação são trabalhos no mais das vezes solitários. A grande vantagem dos trabalhos acadêmicos é que temos um interlocutor de qualidade na figura do orientador. Troque idéias, peça sugestões, procure-o;
19. Projeto que é projeto tem de ser viável na vida real. Isso quer dizer: custa dinheiro. Se custa, para ser viável, tem de ser pago de alguma maneira.
20. O cálculo de custos visa tornar o projeto realista não apenas quanto ao seu financiamento, mas sobretudo quanto aos seus objetivos e propósitos. Não adianta traçarmos metas ambiciosas, reflexões sinuosas se não fica claro onde queremos chegar. Quando se colocam no papel os pressupostos, metas e possibilidades de um projeto é que se vê se ele é realista ou não.
21. Todo projeto deve embutir suas fontes de financiamento. Mesmo em um projeto de TCC, que teoricamente está fora do mercado, essas variáveis se impõem.
22. Quem banca seu projeto? São seus pais ou você mesmo. Por menos que pareça, alguém está pagando suas roupas, sua comida, sua casa etc. para que você possa trabalhar. Lembre-se sempre da velha máxima de Milton Friedman, o arauto conservador da economia: “Não existe almoço grátis”.
23. Tudo, absolutamente tudo custa dinheiro. Mas a produção de um bom projeto não pode se restringir pelas limitações orçamentárias. A questão deve ser colocada ao contrário: como criar condições de viabilizar determinado projeto.
24. Assim, o orçamento não pode ser uma barreira limitativa, mas a forma de organizar concretamente um projeto, checar suas limitações e buscar rompê-las.
25. Orçamento é uma abstração. Orçamento não é gasto, orçamento é intenção de gasto. Faz-se o orçamento para verificar como arrecadar fundos para determinado fim. O gasto só acontece depois.
26. Sendo assim, orçamento é uma projeção. Um projeto. Ou parte decisiva de um projeto mais geral. Colocando-se dessa forma, quando alguém pede um orçamento, está na verdade pedindo uma forma de gastar um dinheiro, um projeto.
27. O orçamento acaba sendo, assim, o coração do projeto. Orçar é equivalente a projetar. O orçamento é o projeto condensado.
28. Vimos até aqui como iniciar um projeto de pesquisa e a necessidade de torná-lo viável. Mas há grandes diferenças entre o projeto e a pesquisa, que não dizem respeito apenas a etapas distintas e a características próprias de cada fase.
29. A distinção está no fato de o projeto ser uma hipótese ou uma possibilidade de trabalho. Entre esta e o trabalho real vai uma grande distância. O projeto é o ponto de partida. Mas assim como uma pauta de jornal ou revista, ele pode não se concretizar. Em linguagem jornalística, a pauta de seu projeto pode se modificar, se ampliar, se reduzir, se desviar ou mesmo “cair” no curso do trabalho.
30. O projeto não é algo rígido e inflexível. É como pauta de jornal. Pode cair ou pode dar lugar a uma grande pesquisa ou reportagem.
31. Não há nenhum problema nisso. Entre as metas traçadas no início da pesquisa – no projeto – e sua confrontação com a realidade, muitas das hipóteses colocadas inicialmente podem se mostrar inviáveis ou abrirem novos caminhos antes não percebidos. Esta é a característica mais rica de um trabalho investigativo: ele tem de ser permanentemente confrontado com a realidade objetiva, com contestações intelectuais e com sua própria viabilidade.
32. Um projeto que tenha fontes inacessíveis ou que desapareçam no desenvolvimento do trabalho pode se inviabilizar. A tarefa de um pesquisador é verificar o porquê da inviabilidade e propor novas hipóteses.
33. Ao mesmo tempo, é preciso tomar cuidado com a situação oposta. Um trabalho que abra um leque tamanho de possibilidades não percebidas no início pode levar o pesquisador a se perder em um emaranhado de informações abundantes.
34. Se o pesquisador não souber determinar o que é principal e o que é secundário, quando tudo parece igualmente relevante, pode construir um amontoado de dados e constatações sem hierarquia entre si. Pesquisar é também saber ordenar e organizar as informações coletadas e dar sentido lógico a elas.
35. Assim, a pesquisa propriamente dita deve ensejar uma narrativa lógica, qualquer que seja a mídia escolhida, perceptível claramente pelo receptor.
36. Quanto mais se pesquisa, mais há o que se pesquisar. Longe de ser um jogo de palavras, esta frase suscita uma pergunta: quando termina uma boa investigação? A resposta é uma só: nunca. Quer dizer, em tese nunca, pois uma tarefa desse tipo sempre pode se desenvolver mais.
37. Recolocando a questão: em termos práticos, quando uma pesquisa termina? Objetivamente, quando o prazo ou o financiamento acaba. Ou ainda quando o pesquisador decide, arbitrariamente, colocar um ponto final em seu trabalho.
38. Toda boa pesquisa se abre para outras. Ou pode pautar outros projetos. Uma boa reportagem é aquela que suscita novas matérias. Assim, não existe essa história de trabalho que esgota determinado assunto. Sempre há ângulos novos, sempre há novas abordagens para um mesmo objeto.
39. Projeto de pesquisa é, por mais detalhado que seja, por melhor que seja seu cronograma, por mais minúcias que exiba é sempre um novo ponto de partida.
40. O mais depende do talento e principalmente do esforço e da teimosia de quem vai atrás das informações e as ordena para o receptor.