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04/02/2010 - 11h27 - Atualizado em 18/05/2012 - 07h43

A contemporaneidade da loba

Por Raphael Scire, aluno do 3º ano de Jornalismo

Espetáculo sofre adaptação após mais de duas décadas

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Reprodução

A atriz Christiane Torloni

Em 1987, Raul Cortez entrava em cartaz com a peça O lobo de Ray-Ban e dividia o palco com Christiane Torloni e o jovem Leonardo Franco. 22 anos depois, o lobo vira loba e Christiane Torloni entra no papel que, inicialmente, era de Cortez; Franco, no de Torloni e a jovem Maria Maya completa o elenco. A direção é a mesma nas duas montagens, assinada por José Possi Neto, e o texto é do dramaturgo e também ator Renato Borghi.

Borghi, ao escrever O lobo de Ray Ban, se deparou com o pedido da atriz Dina Sfat para desenvolver uma versão feminina da peça. Não era tarefa fácil, porém, pois não se tratava apenas de adaptar o texto. Os conflitos e os sentimentos teriam de passar por uma transformação também, uma vez que a personagem principal seria, então, uma mulher, não mais um homem. Outro desafio seria a escolha das referências teatrais para o texto. Estas teriam, agora, que ser essencialmente femininas.
 
O espetáculo começa com um monólogo de Julia Ferraz (Torloni), experiente atriz e dona de uma companhia teatral em plena crise conjugal. Ela expõe seus dramas e conflitos internos, apresentando ao público seus sentimentos e também a maneira como conheceu o marido, Paulo Prado (Franco). Em seguida, entra em cena uma peça dentro da peça: Julia encena Medéia, de Eurípedes, junto a Prado. No meio da encenação, ela para o texto e começa a discutir a relação com o esposo, que, envergonhado com a atitude da mulher, deixa o palco. Não contente, Julia revela ao público o triângulo amoroso existente entre os atores principais da peça.

A partir de então, o público começa a entender o fio condutor da história. Julia e Prado estão à beira da separação. Ele está prestes a deixar a companhia de teatro para encarar um papel numa novela das oito. Em meio aos dois está a jovem atriz Fernanda Porto (Maya), que vive uma relação com Julia e também está em vias de deixar a companhia. A sexualidade, aliás, permeia a peça, seja ela mostrada na forma de hetero, bi ou de homossexualismo.

Uma das cenas mais marcantes do espetáculo é uma alusão ao Fantasma da Ópera com referências hitchcoquianas. Em uma crise existencial, causada pelo abandono da amante, Julia está sozinha em casa, prestes a se matar quando o ex-marido chega, querendo terminar a discussão iniciada no palco, durante a encenação de Medéia. De súbito, as luzes se apagam e começa um clima de suspense, sem deixar de lado um caráter de humor. O diálogo de Julia e Paulo em cena faz com que o espectador tenha a errada impressão de que a peça está para chegar ao fim.

O final, por falar nele, é surpreendente. O desfecho, que chega a iludir muitos com sua possível obviedade, se mostra engraçadíssimo e Borghi faz uso da metalinguagem para arrancar gargalhadas do público.  A loba de Ray Ban é uma peça contemporânea, que discute as relações pessoais de forma única. A atuação do elenco, somada a uma brilhante direção e a um texto cuidadosamente preparado, além de um cenário espetacular, estão no tom exato de uma super produção. 

Nem o preço salgado afasta do teatro o público, que lota as apresentações. A loba de Ray Ban fica em cartaz de quinta a sábado, até 28 de março. Os ingressos variam de 50 a 60 reais. Teatro Shopping Frei Caneca – Rua Frei Caneca, 569 – Shopping Frei Caneca – 6º andar.



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